segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A cozinha como espaço físico e simbólico: um 'dedo de prosa' sobre o Módulo teórico da oficina de culinária cultural

Hoje venho falar sobre minhas reflexões para o módulo 1 da oficina de Culinária Cultural do XIII Congresso Gaúcho de Psiquiatria da APRS. Abaixo, alguns elementos que norteiam minha apresentação, dia 18 de agosto, para a qual venho pesquisando há três meses. E está chegando a hora! Há muitas coisas interessantes nesse campo que é tão parte de nossas vidas, tão entremeado em nosso dia-a-dia, que muitas vezes não lembramos do quanto guarda das raízes dos ancestrais.
 Por ser uma temática muita ampla e apaixonante, presente na história e na rotina de todos, fiz questão de transformar o conteúdo em uma prazerosa conversa, ilustrada com imagens e tecida com humor e leveza. A ideia, na oficina, não é teorizar ou promover reflexões profundas, mas sim pensar junto com os participantes, conduzindo os pontos a serem abordados, provocando a prosa. A ideia é que seja como aqueles almoços que se alongam tarde adentro, em que um fala daqui, outro fala dali. Claro, minha apresentação é da parte teórica da oficina, portanto embasada em referências e em bastante pesquisa, mas meu trabalho ao prepará-la foi, sobretudo, de tradução dessa linguagem teórica para a conversa solta e informal que a ocasião pede.
 O texto abaixo reúne trechos de minha Dissertação de Mestrado em Letras (FALE/PUCRS), intitulada "À moda da casa: a cozinha como espaço físico e simbólico em 'O arroz de Palma', 'Por que sou gorda, mamãe?' e 'Quarenta dias', defendida em 01 de dezembro de 2016. Posso dizer, sem sombra de dúvidas, que muito do que motivou o tema do módulo 'A cozinha como espaço físico e simbólico' foi a bagagem de descobertas, de leituras e de aprendizados que a experiência do mestrado me propiciou, durante a escrita e os estudos, principalmente no segundo ano. Ao unir fragmentos, acabei por montar um novo texto, que hoje expressa meu sentir para a fala da oficina.
O ato de cozinhar é parte ancestral da nossa existência como seres humanos. Desde os tempos primitivos o homem transforma o ingrediente cru em alimento cozido. Comemos por necessidade nutricional, mas também por outros motivos: comemos para sentir prazer com um bom prato, para socializarmos, partilhando esse prazer com outras pessoas, para evocarmos lembranças de família e as nossas próprias, com sabores que fazem parte de nossa bagagem emotiva. Escolhemos o que comer, aprendemos a gostar mais desse ou daquele doce, somos conhecidos pelo quitute que preparamos para os amigos. Adoramos canela, mas detestamos alecrim. A cozinha faz parte da construção de nossa identidade e da memória que vamos formando a partir das experiências, vivenciadas sozinhos ou em grupo.
E mais. A cozinha é o espaço onde habitam: forno, fogão, geladeira, pia, pratos, talheres, guardanapos, panelas, travessas, caderno de receitas, ingredientes, chimia de uva, pudim, doce de leite e ambrosia. E lembranças. Muitos de nossos registros têm sabores próprios. Recordamos essa ou aquela vivência porque sua representação é ligada a um gosto, a uma textura, a um aroma. Houve aquele doce de ovos que experimentamos em uma única e inesquecível ocasião. Vale evocar também o faqueiro de uma avó, presente de casamento, ou a panela de fondue comprada com orgulho, fruto do primeiro salário da monitoria, na faculdade. No território físico da cozinha, a memória tem corpo, tem existência material através dos ingredientes, dos instrumentos, dos eletrodomésticos, da receita de família preparada para o almoço. Acima de tudo, a memória tem respiração.  
O alimento torna-se uma fatia das histórias que vivemos e das emoções que sentimos.
Então, quando pensamos em cozinha, ao que realmente estamos nos referindo? Ao espaço físico que essa ocupa na casa, onde estão o forno e o fogão, o refrigerador a pia? Aos utensílios, como talheres e pratos, panelas, eletrodomésticos, peneira, travessas, e assim por diante? Aos ingredientes, em parte mantidos na despensa, enquanto outros devem permanecer refrigerados? Às receitas de quitutes, de doces, de refeições, escritas a mão em cadernos familiares, ou colhidas da Internet ou copiadas no programa televisivo de famosos chefs? Às recordações de vivências passadas com as avós, que nos ensinavam o saber culinário pelo clássico ‘botar a mão na massa’? À cultura de um povo pelas comidas que prepara?
A cozinha contempla todos esses elementos, do simbólico ao concreto; da antiguidade mais remota aos tempos hipervelozes de hoje, com diversas mídias dirigidas aos temas culinários; do conforto emocional que representava ao glamour que vem atingindo com o avanço da gastronomia como expressão de status social e econômico, no século XXI.
 Mas a cozinha do Terceiro Milênio atravessa o glamour e nos surpreende, fazendo um giro na história: pois não é que estamos voltando às práticas ancestrais, à força da horta e do pequeno produtor, à valorização do comer à mesa e da comensalidade? Nesse giro, que acaba por unir esses elementos opostos em um só tempo, podemos ter uma ideia aproximada sobre o que estamos vivendo em termos de gastronomia. Atravessamos o domínio do fogo, chegamos ao nutrir e agregar, tendo a comida no centro do convívio, descobrimos, inovamos, retrocedemos, avançamos. Chegamos. E o que nos conta a cozinha do século XXI?
Esse é um dos tópicos do módulo 1 e, confesso, o que mais me exigiu pesquisa e reflexão, justamente por conter, em si, tantos contrastes. Como em toda receita desafiante, foi uma delícia preparar: com calma, com antecipação, com todos os ingredientes reunidos no ‘mise en place’ antes de dar início ao ‘mãos-à-obra!’
Será uma grande alegria a oportunidade de conversar com os colegas e seus familiares, na oficina de sexta-feira no Valle Rústico, sobre esse tema tão pertinente a todos nós. Porque podemos gostar ou não de cozinhar, e  podemos saber ou não, mas o ‘prazer de comer’ e o ‘prazer à mesa’, como chamou o renomado escritor e gastrônomo francês Jean Anthelme Brillat-Savarin, são parte das nossas vidas. A atividade é sobre esse campo vasto, do cozinhar ao comer, do degustar ao refletir, do escutar ao partilhar, do relembrar ao descobrir.
Esperamos vocês, colegas e familiares que estarão em Bento Gonçalves, no XIII Congresso Gaúcho de Psiquiatria, para essa experiência!
Com carinho,
Betina

O espaço físico e o espaço simbólico da cozinha, em imagens que resgatei aqui e ali:



























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