sábado, 1 de julho de 2017

Texto da nossa autora convidada: Michele Valent

Gastroterapia e Hygge

Michele Valent*

Até bem pouco tempo atrás, os objetivos da psiquiatria clínica estiveram, em geral, restritos à redução do sintoma e à prevenção da recaída, mas, para a definição de saúde da OMS e dentro do modelo compreensivo do bem-estar (Sirgy, 2012), a satisfação das necessidades básicas para a sobrevivência e o balanço positivo entre afetos agradáveis e desagradáveis não bastam: é preciso eudaimonia, ou seja, um propósito na vida, o exercício do prazer.
A chamada psiquiatria positiva (Jeste, 2015) procura entender e promover o bem-estar por meio de intervenções que envolvam características psicossociais positivas tanto em populações clínicas como não-clínicas. Tais intervenções, focadas no desenvolvimento do otimismo, da resiliência psíquica e da vida social, podem complementar a medicação ou a psicoterapia, são convenientes, custo-efetivas e menos associadas ao histórico estigma que pesa sobre a psiquiatria. Nessa linha teórica inscrevemos a Gastroterapia.
A Gastroterapia, intervenção psicossocial criada por nós e praticada em nosso jardim-escola, em Teutônia, a 110Km de Porto Alegre, é uma combinação de agricultura urbana, estudo e divulgação de espécies nativas, criação e execução de refeições temáticas e integração da gastronomia com as demais manifestações artísticas. No decorrer de três ou cinco horas, os comensais colhem, preparam e desfrutam de uma refeição, em meio a discussões prolíficas e uma ampla troca de experiências. A atividade tem como fim último o estabelecimento e o fortalecimento de relações sociais, já que a força de nossos vínculos com outras pessoas é o mais forte dentre todos os preditores de felicidade (Wiking, 2016).
A mesa tem a função primordial simbólica de “távola fraterna”, de lugar de trocas e nivelamento. A comensalidade, a partilha da refeição, é tida como o ato fundador da civilização (Montanari, 2007). O alimento é o principal fator de definição da identidade humana, pois o que comemos é sempre um produto cultural e, portanto, o recurso ideal para uma educação articulada, complexa e criativa, dando valor à interdependência e aos bens comuns (Petrini, 2016). A lentidão na fruição do alimento é condição sine qua non para a saúde mental das pessoas: “Nosso século, que começou e está se desenvolvendo sob o signo da civilização industrial, primeiro inventou a máquina e depois o tomou como seu modelo de vida. ‘Somos hoje escravos da velocidade, e sucumbimos todos ao mesmo vírus insidioso: a Vida Fast (ou seja, a vida acelerada), que destrói nossos hábitos, invade a privacidade de nossos lares, e nos força a nos alimentarmos dos fast-food. Que doses adequadas de prazer sensual garantido e o desfrute lento, a longo prazo, nos preservem do contágio das multidões que tomam o frenesi por eficiência” (Petrini, 1986).
Ainda para Petrini e todos os afiliados (como nós) ao movimento mundial Slow Food, a Gastronomia deve ser libertada de sua função elitista e espetacular, do fenômeno midiático-pornográfico a que foi reduzida: fanatismo nas pontuações para restaurantes e vinhos,  restaurantes convertidos em locais de culto à personalidade do chef, receita sempre perfeita, fotografável, de matéria-prima caríssima, crítica gastronômica sujeita à lógica do mercado, espetacularização forçada do alimento, competições entre cozinheiros que são corridas contra o tempo e construção de uma imago do restaurante como uma gaiola de loucos, onde o chef alterna aspereza e sedução, a matéria-prima é indiferente e os produtores são exibidos como animais de zoológico.
Tudo isso temos em mente ao conduzir a Gastroterapia: o exercício do hedonismo saudável e terapêutico, em que o comer e o alimento servem como veículos para a discussão de questões afetivas, ecológicas, artísticas e filosóficas e para a vivência do prazer que traz saúde ao corpo e tranquilidade ao espírito. Dentro da mesma lógica, adotamos os preceitos do Hygge em todos os nossos encontros.
Com um clima que obriga ao confinamento indoors durante metade do ano e uma das maiores cargas de impostos do mundo, a Dinamarca é considerada também um dos países mais felizes. Os dinamarqueses, segundo a European Social Survey, são os europeus que veem amigos e parentes com a maior frequência e que relatam a maior quantidade de sentimentos de calma e paz. O Happiness Research Institute, baseado em Copenhagen, atribui esses achados às vastas proteções sociais oferecidas – comuns aos demais países escandinavos, mas também a uma estratégia de sobrevivência própria dos dinamarqueses: o Hygge.
Embora a definição varie muito, entende-se o Hygge como um recorte temporal de relaxamento, descontração e aconchego, sozinho ou na companhia de alguns (poucos) seres amados; a arte de expandir a outras pessoas a própria zona de intimidade; um sentimento de lar, de segurança, de proteção ante às agruras mundanas; uma maneira de planejar e preservar a felicidade; algo que não se soletra: se vive.
Recentemente apresentado na mídia brasileira de grande circulação como “tendência na decoração de interiores”, o hygge não se restringe à escolha de móveis ou objetos para a composição de um ambiente. Na verdade, o hygge vai na contramão do consumo: há nele uma forte orientação e compromisso em saborear o presente, lembrar das coisas que costumamos desprezar como certas, dar um passo para trás e apreciar seu valor. O Hygge é humilde – escolhe o rústico no lugar do novo, o simples no lugar do trendy, a ambiência no lugar da excitação. Trata-se de apreciar os prazeres simples da vida que, na verdade, são de graça ou quase.
Hygge também nos lembra da diversão. O que aconteceu com ela? ficamos focados demais nos resultados de uma atividade. Trabalhamos para ganhar dinheiro; vamos à academia para perder peso. Nos matriculamos (e aos nossos pequenos) em cursos para construir currículo, passamos tempo com as pessoas para fazer networking.
Na Gastroterapia, levamos muito a sério e procuramos praticar todos os preceitos do Manifesto Hygge (adaptado de Wiking, 2016):

Atmosfera: buscamos a luz mais quente e aconchegante, meia-luz ou luz de velas, ou, melhor ainda, a luz do fogo.
Presença: estamos focados no presente; desligamos o celular.
Prazer: café, chá, doces, carnes, vegetais frescos e orgânicos. A comida hyggeligt é uma indulgência, uma pausa nas exigências rígidas da alimentação saudável. Pequemos juntos.
Conforto: fazemos uma pausa, ficamos à vontade. O dress code é casual e despretensioso.
Gratidão: melhor impossível – fazemos um esforço consciente para aproveitar e ser gratos pela comida, bebida e companhia.
Igualdade: “nós” acima do “eu”. Dividimos com equidade as tarefas, que se convertem em prazer. Homens e mulheres, adultos e crianças, experientes e iniciantes: a cozinha é para todos.
Harmonia: não competimos nem corremos contra o tempo; nossa cozinha não é um show de televisão. Somos amados e aprovados, não há razão para exibir conquistas; a vaidade é uma forma sub-reptícia de divisão. Ninguém fica no centro do palco ou monopoliza a palavra.
Trégua: deixamos o drama na porta; por ora, não discutimos assuntos polêmicos, mágoas de família nem perdemos tempo com reclamações excessivas.
Convivência: construímos memórias e evocamos a nostalgia dos momentos felizes já vividos em conjunto.
Proteção: esta é a nossa tribo, nosso lugar de paz e segurança.
  
Para participar de uma atividade da Gastroterapia, basta curtir nosso perfil no Facebook (https://www.facebook.com/gastroterapiateutonia) e fazer contato conosco via mensagem inbox. Nossa programação de eventos também consta do site http://ilgiardin.com.br/ por onde é possível inscrever-se. Como próximos encontros, teremos a “Funghi Fest: um menu alucinante” do dia 15/07, a partir das 11h, em que discutiremos o hygge enquanto elaboramos todo um menu a base de cogumelos localmente produzidos e uma edição especial de férias direcionada ao público infanto-juvenil, “Brincando com Fogo”, no dia 22/07, em que falaremos de aprendizagem na infância e assaremos todo o menu em fogueira ao ar livre.

A atividade começa pelo jardim
A "moral da história" da Gastroterapia

O estudo e a difusão das plantas nativas
 é sempre parte integrante da atividade

O objetivo final é a formação de uma comunidade de amigos

Jantar Hygge na Gastroterapia
Os anfitriões da Gastroterapia

*Médica psiquiatra especialista em saúde mental do trabalhador e gastrônoma formada pelo ICIF UCS

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina