segunda-feira, 5 de junho de 2017

Sobre o prazer como estímulo e o sentido genésico de Brillat-Savarin

Nossa percepção do mundo externo é feita através dos cinco sentidos. Eles são, por assim dizer, os tradutores de todas as experiências que recebemos, como nossa alimentação, o lugar em que estamos, a estação do ano, as pessoas que convivem conosco ou que atravessam a rua ao nosso lado, os cenários que descobrimos em uma viagem, entre tantos. Tudo chega a nós pelos sentidos. Cinco. Para o filósofo da gastronomia, Jean-Anthelme Brillat-Savarin, os sentidos são seis, pois ele inclui o sentido genésico, que está associado à atração física por aquele indivíduo a quem, de acordo com ele, nosso corpo escolhe como par. Este sentido genésico nos impulsiona ao outro, para que por ele possamos sentir desejo sexual e, assim, reproduzir. O prazer seria, nesse caso, um estímulo à reprodução, conforme Savarin. Assim como é um estímulo biológico, presente na alimentação, por exemplo, para nos alimentarmos. 

Não é por acaso que tais desejos, o de alimentar-se com produtos saborosos e o da intimidade física com o par, nos conduzam a necessidades básicas de preservação da espécie. Sentir prazer é um aspecto essencial para nosso bem-estar e sobrevivência, e nos aproxima dos demais. Para além do par, por quem somos atraídos pelo sentido genésico, a proximidade na convivência com amigos e familiares acontece, muitas vezes, por partilharmos os prazeres da mesa. 
Prazer é a palavra-chave que dá à comida e à bebida o poder afetivo que exercem em nós, sendo esta quase elevada ao patamar de magia. De forma semelhante, o fogo, logo que foi descoberto como crucial para cozinhar os produtos, também desempenhou no Humano o fascínio pela interação com os outros, ao redor da fogueira. Nascia ali uma forma de prazer, esta partilha do calor e do alimento cozido.

Aqui, cabe um ponto crucial: para ocorrer a vivência prazerosa, precisamos colocar em uso nossos cinco sentidos. Porque são eles que apresentam o mundo de fora ao nosso universo íntimo. São os sentidos que 'decodificam' este mundo e o traduzem em sentimentos, emoções, ideias e  reações físicas. Para Brillat-Savarin, o sentido genésico era independente dos demais, acontecia de modo individual a atração pelo par. 

Sentir prazer é, entre outras coisas, estar conectado a algo ou a alguém de forma física e emocional. Quando em uma medida saudável, esta conexão promove bem-estar psico-físico. Em relação à comida, podemos referir que o indivíduo liga-se ao prazer de comer através da experiência de saborear, numa boa parte das vezes. O sentido do gosto é parte do sabor, mas a memória e as emoções estão também envolvidas. Por isso, costumo dizer que o sabor é o sentimento do gosto, é a expressão subjetiva do gosto, mesmo envolvendo processos físicos, objetivos. 

Nas degustações, como em outras vivências enogastronômicas, fazemos um "treino" destes mecanismos, ampliando nossa capacidade de senti-los. Com isto, ampliamos também nossas condições de sentir prazer em outros campos da vida, como o cozinhar, por exemplo. E, por certo, como o manter a intimidade física com quem nos atrai. Quanto mais desafiamos e treinamos nossos sentidos, mais aptos ficamos a saborear as experiências do cotidiano e do vínculo com o par e com os demais. Neste aspecto, a degustação é uma vivência prazerosa e de partilha, mas é também uma oportunidade de desenvolvermos ainda mais nossas ferramentas de percepção do mundo. Sobretudo, para usufruirmos do que é bom e nos faz bem, para estarmos na vida de forma mais completa. 

Este texto se refere ao curso de degustação de queijos e vinhos, mas também a outras atividades das quais vou falar nesta semana, e a reflexões sobre  pontos levantados por Brillat-Savarin.

Com carinho,
Betina




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