domingo, 18 de junho de 2017

Refletindo sobre uma 'lentidão possível'


Compartilho hoje um vídeo que mostra a atmosfera do "Festival della Lentezza", do ano de 2016. O evento preconiza que a lentidão referida não é per se um fenômeno de vagarosidade. Não. No festival, não se fala em caminhar devagar no sentido literal, mas em caminhar com foco no presente, prestando atenção aos sentidos, às respostas do corpo durante o percurso, na interação com os demais, no sentir. Uma das palestrantes, Petra Magoni, aponta: "Não é propriamente sinônimo de algo que se faz lentamente, mas de uma coisa que se faz com atenção e em profundidade". Então, o desacelerar a que os idealizadores e participantes se referem não é tanto um elemento de oposição à rapidez, mas sobretudo à inquietude, aos múltiplos estímulos de distração, ao frêmito de viver tudo de uma só vez sem dar-se a oportunidade de saborear a experiência. A oposição mostra-se mais ao hábito de comer com pressa para voltar ao trabalho (e quantas vezes já fiz isso...), à prática de visitar 15 cidades em sete dias, à necessidade de andar rápido no intervalo apenas por automatismo. E essa palavra define muito do que vivemos, hoje em dia: automatismo, tão oposto à autonomia. Tão algoz da autonomia, aliás. 

A primeira vez que ouvi falar em ' Giorno della Lentezza' foi em uma aula de italiano, quando o professor contou do Passovelox, um 'pardal de passos' feito por voluntários em Milão. Esses paravam os sujeitos que andavam com demasiada rapidez, multando-os com o preço de uma conversa sobre a conscientização, o parar para pensar. Acima de tudo, sobre o parar, o diminuir o ritmo, o perceber que não é preciso andar tão rápido para chegar ao mesmo local, para voltar ao escritório ou à empresa. A correria, acabo me dando conta, é uma pantomima das pernas, dos braços e do rosto, um espetáculo que encenamos para nós mesmos para nos certificarmos que estamos no ritmo esperado, no ritmo certo, que vamos alcançar os objetivos do dia junto com nossos contemporâneos porque, simples assim, essa é a demanda do dia: chegar, alcançar a meta, e rápido.

 No pacote, estão o multifoco, o transbordamento das emoções e do stress, a agitação para ser tão eficaz como todos os agitados. Esta é a razão para que eu fale em pantomima. No Teatro, esse termo se refere à representação de uma história através de gestos, movimentos, expressões faciais.A rapidez cotidiana tem uma fisionomia própria, a aceleração dos passos é típica, a gestualidade dos frenéticos carrega até mesmo um gozo na tensão. E todas essas manifestações físicas são próprias da tal pantomima: não é preciso falar, não há discurso, pois essa é uma correria muda. E mais ainda: solitária. Um comportamento que muito comunica sobre a indisponibilidade para o outro, para as cores do dia, para o sabor da comida, para os sentimentos naturais na jornada rotineira. Na correria, fazemos de conta que somos super-heróis, e 'ai' de quem diga que não. Sabemos de nossas limitações, mas é preciso agilizar, dar conta, atingir deadlines, ignorar as limitações e ultrapassar os limites. Sem espaço para o que nos lembre que, lá no fundo, queremos é ter tempo para um pouco de "La dolce vita".

Até a Gastronomia tem sofrido deste "mal do século" nos últimos tempos. A essência da cozinha, que habita nosso sentir com a calma, o fazer demorado e paciencioso, o resgate ancestral nas receitas preparadas como antes, tudo isso cai por terra em uma contemporaneidade pesada. A a Alta Gastronomia tem representado um alto custo de saúde para os chefs  que precisam correr pela perfeição em padrões de Guia Michelin. Então, até a cozinha perdeu a corrida para a agitação do século XXI. Está reduzido o tempo do 'fogo lento', da delicadeza afetiva no preparo dos pratos, da alma das tradições familiares, das refeições partilhadas cujo propósito é o convívio. Sim, isso tem melhorado, o Slow Food e a tendência de cultivar a 'cozinha das avós', muito em voga no mundo todo, estão fazendo o caminho de volta para a 'lentezza' na culinária, também.

O filme "Paris pode esperar", atualmente em cartaz, mostra este contraponto entre o acelerado e desatento diretor de cinema e seu contrário, o bon-vivant que sabe desfrutar dos prazeres da vida com  o uso dos sentidos, do viver o tempo em sua dimensão real, sem estreitá-lo. O contraste entre eles é nítido, e o filme mostra os efeitos dessa diferença na relação que Annie, a esposa do diretor, vai estabelecendo com Jacques, o sócio bon-vivant de seu marido. Jaques não é lento em suas ações no filme, mas vive cada uma das oportunidades sem a preocupação em 'chegar logo em Paris'. Aos poucos, a própria Annie vai usufruindo da mudança de ritmo, aprendendo que a experiência é uma rica oportunidade de saborear a visão de um campo de lavandas, uma bela refeição, uma dança. 

Continuaremos a viver com pressa, atualizando nossos aplicativos do celular, assoberbados de tarefas. Ou podemos diminuir a marcha e perceber que o resultado na eficácia é ainda maior, por aprendermos a estar plenos de atenção e de nós mesmos. A passos lentos, a felicidade cotidiana consegue se equilibrar sem os tropeços da correria. A lentidão proposta não é uma idealização, uma epifania e nem sequer uma panacéia. Não resolve tudo, e não se propõe a isto. O ponto é a lentidão possível, o empenho em modificar o próprio ritmo nas pequenas atividades do dia, sem que seja necessário ceder ao modo automático para adequar nosso ser. Ingrediente principal, para mim, é o que foi proporcionado pelo movimento do 'Passovelox', de que falei acima: a conscientização. Venho buscando colocar isso em prática nas pequenas e nas grandes coisas da minha semana, e os ganhos, em termos de bem-estar, são valiosos.

Vamos tentar? 


Com carinho,
Betina
Fazer chimia em fogo lento:
experiência plena de desaceleração


2 comentários:

  1. Obrigada pela visita e pelo teu comentário, querida Eliane!! Que bom te ver por aqui!!! Beijos mil e volta sempre! E sim, tentar é preciso! :)

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina