sábado, 17 de junho de 2017

"Festival della Lentezza": carta constitucional

O "Festival della Lentezza” é uma celebração ao tempo manso, ao caminhar passo-a-passo nos campos da vida cotidiana. Amar, cultivar vínculos, comer e beber, dormir, cozinhar, trabalhar e tantos outros verbos e substantivos cabem no adjetivo 'lento" e em suas variações gramaticais. Lentidão, lentamente, lentificar, e por aí vai. Sinônimos, como vagaroso, devagar, etc. acompanham o mesmo sentido. Vagar, por sua vez, pode ser substantivo, mas pode ser também verbo, e um dos significados deste é, curiosamente, 'andar sem rumo, andar à esmo, andar por um determinado trajeto sem um destino'. Seria aqui um ponto de encontro entre o vagar, compreendido como lentidão, e o vagar verbo, significando "caminhar sem destino"?

E este "caminhar sem destino" não equivale ao 'caminhar passo-a-passo', do início do primeiro parágrafo? Pois o tal passo-a-passo é o 'cada dia', o lento, o presente. O 'simples estar' em algum local, estar com alguém num abraço, de mãos dadas, ou cozinhando, ou partilhando a refeição. Sem que isso signifique estar trilhando uma rota rumo a algum destino específico, mas sim vivendo um dia-a-dia pleno da vida que se leva. Conscientes da imperfeição, da insuficiência natural que nos faz querer melhorar, mas inteiros no momento, 'vagando' ao longo desse vagar, dessa lentidão que nos permite sentir as experiências que a vida proporciona. Saborear. Sentir com os cinco sentidos, sentir com sentido, dar sentido ao sentir. E isso conseguimos quando damos tempo ao sentir.
Neste tempo, estão os artigos que leio na seguinte 
 'carta constitucional' da República Democrática da Lentidão:

"Carta costituzionale

Articolo 1
Tutte le persone hanno il diritto di essere felici, e la felicità è l’obiettivo comune a cui tendere in quanto comunità.

Artigo 1
Todas as pessoas têm o direito de serem felizes, e a felicidade é o objetivo comum do qual se deve fazer questão enquanto comunidade.

Articolo 2
Il tempo non è un contrattempo, un fastidio, un oggetto. Ma un dono. Il tempo è un bene comune da tutelare, custodire, vivere ad ogni istante con la giusta dose di spensieratezza. E lungimiranza.

Artigo 2
O tempo não é um contratempo, uma chatice, um objeto. Mas um dom. O tempo é um bem comum a proteger, a cuidar, a viver a cada instante com a dose exata de despreocupação. E de perspectiva. 

Articolo 3
Giocare, nella Repubblica Democratica della Lentezza, è l’unico dovere sancito dalla carta costituzionale. Senza competizione o premi a cui ambire. Ma come puro divertimento e piacere.

Artigo 3
Brincar, na República Democrática da Lentidão, é o único dever estabelecido pela carta constitucional. Sem competição ou prêmios a ambicionar. Mas como puro divertimento e prazer.

Articolo 4
Siate lenti, pazienti, curiosi. Prendetevi il tempo necessario per essere sempre in orario con gli affetti, e al posto giusto nel momento giusto in cui si incrociano le emozioni per cui vale la pena esistere.

Artigo 4

Sejam lentos, pacientes, curiosos. Concedam-se o tempo necessário para estar sempre "no horário" com os afetos, e no lugar exato no momento exato em que se cruzam as emoções pelas quais vale a pena existir.

Articolo 5
L’ozio non sia vissuto come un vizio o uno sbaglio a cui porre rimedio. Ma come una possibilità. Per voi, e per i vostri figli. A cui sia data l’opportunità di aver tempo da perdere, l’occasione di annoiarsi. Il brivido di scegliersi per una volta cosa fare e con chi.

Artigo 5
Que o ócio não seja vivido como um vício ou um erro que se deva remediar. Mas como uma possibilidade. Para vocês, e para seus filhos, a quem seja dada a oportunidade de ter tempo a perder, oportunidade de entediar-se. A excitação de escolher para si, pela primeira vez, o que fazer e com quem. 

Articolo 6
La Repubblica Democratica della Lentezza si fonda sui sorrisi e gli abbracci. Ogni cittadino ha diritto a riceverne un quantitativo minimo garantito, impegnandosi a sua volta a farsi donatore e moltiplicatore per le strade del mondo.

Artigo 6 
A República Democrática da Lentidão se fundamenta nos sorrisos e nos abraços. Destes, cada cidadão tem direito a receber  uma quantidade mínima garantida, empenhando-se, por sua vez, a tornar-se doador e multiplicador dos mesmos, pelas estradas do mundo."

Com carinho,
Betina

(Minha tradução livre do texto do site  do Festival della Lentezza

Imagens que me trazem o sentimento da "Lentezza"

A máquina de escrever do Vô Hélio
  
Um livro de receitas antigo
Porta ao sonho, em San Gimigniano
Uma mesa na sala de jantar de um típico B&B escocês
Um prato de cantuccini con Vinsanto
Um livro sobre o picnic urbano
Uma tenda antiga de guloseimas
Esperar o ponto do doce
Abrir a massa para os scones
A lembrança de um picnic feito ao acaso
Bolo de frutas numa louça antiga



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