sexta-feira, 2 de junho de 2017

"Casamento", de Adélia Prado

Nesta poesia de Adélia Prado, sempre me encanto com a riqueza da expressão da cozinha como espaço físico e simbólico em vários campos da relação do casal representado.  Na sintonia do amor, dos sentidos, dos gestos em conjunto, da convivência, da linguagem e do prazer de estar juntos no fazer culinário. Há até mesmo a força da memória partilhada em silêncio. Todos, e mais tantos que se possa evocar, são elementos que a Poetisa exprime em 'Casamento'. No mês de homenagear o romance, compartilho com os leitores do Blog:


"Casamento
Adélia Prado
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva."

Texto extraído do livro "Adélia Prado - Poesia Reunida", Ed. Siciliano - São Paulo, 1991, pág. 252.

Fonte da postagem: http://www.releituras.com/aprado_casamento.asp

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