sexta-feira, 30 de junho de 2017

Pinceladas sobre o curso de vinhos do Piemonte

A jornalista e Sommeliére
Silvia Mascella Rosa,
na aula de ontem.
Enquanto preparo o post sobre o curso de vinhos do Piemonte, ministrado ontem pela Sommeliére Silvia Mascella Rosa na Vinho & Arte, vou relembrando de alguns pontos por aqui. Além de ser cenário dos vinhos Barolo e Barbaresco, também é a terra da Nutella, da Gianduia, do Eataly, do Vermute. E do Slow Food! Em 1986, na cidade piemontesa de Bra, Carlo Petrini  criou este movimento que, nos últimos 30 anos, vem se espalhando pelo mundo.

Há muitas coisas a contar sobre o que aprendi ontem. E confesso, recém estou começando  a falar as primeiras palavras desse idioma que é o vinho; como no aprendizado de uma nova língua, o início é lento, as palavras e percepções passam a ter sentido em conjunto apenas com a prática e o estudo. É incrível mesmo como, pouco a pouco, vou descobrindo este e aquele detalhe, percebendo nuances que antes desconhecia, sentindo curiosidade por participar de outros cursos e por aprender mais, por absorver a cultura do novo 'idioma'. E este é o ponto, para mim, além do prazer de um cálice de vinho: adentrar a cultura de que ele é parte, ouvir suas histórias e abrir janelas da imaginação para as paisagens do território.

 A aula de ontem foi especial em todos esses elementos: Silvia falou com dinamismo e alegria sobre os vinhos, mas transitou por outros campos piemonteses, a comida, as tradições, os aspectos históricos. Em alguns momentos, atravessava a sala, percorrendo o trajeto entre a apresentação de fotos em Data Show, de um lado, e os mapas, do outro. Trajetos dentro da Vinho & Arte, sim, mas especialmente percorridos, em primeiro lugar, dentro de si mesma, em seu conhecimento e lembranças vivenciadas e aprendidas pelas experiências de degustação no Piemonte. Com tal fluência e vivacidade que nos levou junto em seus relatos; fez com que os participantes, que lotaram as vagas, viajassem com ela pelos vinhedos, estradas, adegas, castelos e imagens de névoa e de sonho.

Em breve, post com mais detalhes e fotos. 
Amanhã, a postagem será da nossa autora convidada, a médica psiquiatra, chef e proprietária da Gastroterapia Michele Valent. 

Aguardem!!! Ontem li o texto da Michele, vi as fotos da Gastroterapia, e amei! 
Mais não conto, para deixar que fiquem curiosos! 

Com alegria,
Betina

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Aperitivo: algumas curiosidades sobre a cozinha do Piemonte


Fui pesquisar, depois de tanto tempo, a cozinha do Piemonte. E encontrei sites muito interessantes, um dos quais tem como foco buscar ingredientes e receitas históricos e trazê-los ao nosso tempo. A típica cozinha piemontesa pode ser dividida em duas categorias: a de receitas originadas da tradição nobre da Corte de Savoia, de um lado, e aquela das nascidas das tradições camponesas. No primeiro grupo, estão os pratos muito ricos, que eram servidos nos banquetes suntuosos da Corte. Dos camponeses, vinham as receitas realizadas com ingredientes simples, a exemplo da 'Bagna Caoda'. As duas essências do território, a rica, da corte de Savoia, e a pobre, do campo, contribuíram para a grande variedade de sua culinária. As receitas dessa região caracterizam-se sobretudo por seus sabores fortes, que bem são harmonizados com os vinhos do Piemonte. Sobre esses vinhos, aprenderei amanhã, no curso da Vinho & Arte a ser ministrado pela jornalista e Sommeliére Silvia Mascella Rosa. 

Se adentrarmos os tratados de cozinha piemontesa, vamos encontrar velhos conhecidos, como os 'Grissini', por exemplo, além de uma variedade de mais de 60 queijos, entre os frescos e os curados. O Gorgonzola, apesar de ser originário da Lombardia, tem no Piemonte, também, a outra das duas regiões definidas na "Denominação de Origem Protegida" pela legislação ("Consorzio"). No Piemonte, se destaca  como zona produtora  a cidade de Novara, mas outras também estão incluídas. As origens desse queijo podem ser conhecidas aquiO 'Tartufo bianco', os risottos e os doces como o 'Zabaione' e o 'Gianduia' também são parte desse conjunto de receitas e produtos típicos piemonteses. 

E há um grupo de receitas ao qual nunca resisto: os 'antipasti', quitutes e aperitivos que adoro preparar e descobrir. Na tradição do Piemonte, os 'antipasti piemontesi' ocupam lugar de protagonistas, relevância talvez herdada dos banquetes da corte de Savoia. 

Sigo pesquisando...Por enquanto, o deleite fica  neste site, fonte para a escrita do post de hoje.

Amanhã, o curso de vinhos do Piemonte, da Vinho e Arte, com referências sobre a gastronomia e a cultura da região. Imperdível! 

Com carinho,
Betina

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Curso de Vinhos do Piemonte, na Vinho & Arte, com a sommeliére Silvia Mascella Rosa

Piemonte!
Fonte: divulgação Vinho & Arte
Bastou receber o contato da enóloga Maria Amélia Duarte Flores, hoje em torno do meio-dia, para ficar curiosa por reler materiais sobre a gastronomia do Piemonte.  Pesquisei  sobre seus pratos e produtos típicos em junho de 2012, época em que li sobre a "Bagna Caoda", espécie de fondue de anchovas, alho, azeite de oliva e manteiga, típica receita ancestral desta região do norte da Itália. Sobre os vinhos piemonteses, naquele período, li o suficiente para ter noções, mas ficou a vontade de um dia conhecer mais a respeito. Parece que este dia chegou!

Pois bem, o motivo do contato da Maria Amélia foi avisar do curso de vinhos do Piemonte, que acontecerá na Vinho & Arte nesta quinta-feira, 29 de junho de 2017. Lendo  sobre a programação do curso e a respeito de quem o ministrará, não tive dúvidas de que vai ser um aprendizado inesquecível. A bagagem e a expertise da ministrante, a força anímica do território e os vinhos a serem degustados são elementos que aguçam nossa imaginação. 
Abaixo, segue o post sobre o evento. A seguir, em próximas postagens ao longo da semana, o 'aperitivo' sobre os produtos e ingredientes piemonteses e suas tradições. Dos vinhos, provoco a curiosidade dos leitores com o texto da própria Sílvia Mascella Rosa, que terá muito a contar na quinta-feira!   

"Piemonte, Barolo e Barbaresco
Os vinhos dos reis!
Beviamo il Piemonte (brindemos o Piemonte)”

"Durante três anos em sequência viajei ao Piemonte como jornalista/degustadora para um evento chamado ‘Nebbiolo Prima’ - uma semana de degustações de manhã, tarde e noite. Impossível ter a soma exata dos vinhos, mas pelas minhas anotações devem ter sido aproximadamente 600 amostras de Nebbiolo (Barolo, Barbaresco e Roero) durante essas viagens. Isso fora os Barberas, Moscatos e Arneis que entremearam as refeições e visitas.

Assim, vou contar para vocês o que é o sabor do Piemonte, seu povo, sua gastronomia, seus castelos, tradições e paisagens e, é claro, como é a uva Nebbiolo e porque esses vinhos estão entre o
s mais especiais do mundo.

Venha degustar conosco!

Eu sou Silvia Mascella Rosa, sommeliére, bartender e jornalista e estarei com vocês na Vinho & Arte, com minha amiga Maria Amélia, no dia 29 de junho de 2017."

Curso e Degustação Premium - Vinhos do Piemonte
Uvas, DOC, DOCG e muitas curiosidades
Arneis, Dolcetto, Barolo, Barbaresco, Nebbiolo e Langhe.
Destaque para "Sito Moresco", de Angelo Gaja e uma seleção de raridades, algumas não disponíveis no mercado.

Data: 29 de junho, quinta-feira, 19h30 às 22h
Local: Vinho e Arte no Plaza São Rafael (Av Alberto Bins, 514 - Centro Histórico - Porto Alegre)
Valor: R$ 150,00
Incluso curso e certificado, tábuas de frios ao estilo italiano e seis vinhos ícones.


Reservas e informações:
51 99999 3168 - 3023 3345"

Participem vocês também!
Com carinho,
Betina
Edição da 'El Gourmet' sobre a Bagna Caoda, receita ancestral
que celebra as colheitas e a comensalidade
Posts do Serendipity in Cucina sobre a 'Bagna Caoda' e o Piemonte, de junho de 2012:

As novas colunas no Blog: Entrevistas e Autores convidados

A semana que encerra o mês de junho será de prazerosas novidades: primeiras pinceladas sobre as novas colunas no blog, leituras, eventos e links que andei curiosando, e por aí vai.

Bom, começo contando das colunas. A partir de julho, abrirei as portas do blog para receber especialistas em Gastronomia e em enologia,  entre chefs, escritores, enólogos e personagens do mundo do vinho, proprietários de restaurantes e outros protagonistas do universo da cozinha e da adega. Serão dois posts mensais em espaços diversos: um trará o texto integral do autor convidado; o outro será destinado a entrevistas que farei com estes profissionais. De Porto Alegre ou do interior do RS, de outros estados brasileiros ou do exterior, será sempre uma honra e um prazer para o 'Serendipity in Cucina' a oportunidade de fazer essas partilhas. 

Em julho, o entrevistado será  Rodrigo Bellora, Chef e proprietário do restaurante Valle Rústico, no Vale dos Vinhedos, que também conta com o espaço 'escola', onde ministra oficinas gastronômicas; a autora convidada será Michele Valent, médica psiquiatra, Chef e proprietária da Gastroterapia, escola de gastronomia  ( e de bem-viver! ) com sede em Teutônia, também no interior do Rio Grande do Sul. 

Na entrevista e no texto, respectivamente, Rodrigo e Michele contarão de seu ofício na gastronomia, mas, para além disso, o leitor conhecerá a origem da relação que eles têm com a cozinha, o trabalho que vêm realizando e o além-fronteiras, suas descobertas e propósitos. Serão textos livres, abertos, de profissionais que virão dialogar com o blog a respeito de sua cozinha como espaço material e tangível e como espaço simbólico, de rituais, expectativas, desejos e caminhos, entre outros aspectos. Michele falará  também sobre o Hygge, explicando este conceito que se refere à prática da felicidade na Dinamarca, elemento que tem aplicado em suas oficinas e que será o foco da atividade do mês de julho, a Funghi Fest. Adianto apenas esses breves dados, para deixar os nossos leitores  bem curiosos pelo que ela vem contar.  

A respeito da entrevista: perguntarei ao Chef Rodrigo Bellora sobre sua história e seu ofício, o surgimento de sua Cozinha de Natureza e a filosofia do Valle Rústico, sua relação com o movimento Slow Food e sobre outros pontos de sua gastronomia. Essa conversa  será o início do trabalho conjunto que estamos desenvolvendo, com foco na atividade que ocorrerá no XIII Congresso Gaúcho de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, de 16 a 19 de agosto de 2017, em Bento Gonçalves, pela Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. 

As próximas notícias vou contando ao longo da semana. E falarei também sobre a minha motivação para iniciar essas duas colunas, o porquê de escolher o Rodrigo Bellora e a Michele Valent como convidados para iniciar a prosa, e as reflexões a respeito de abrir o blog para mais essas formas de partilha. Como um daqueles convites para as tertúlias na mesa da copa. Ainda faltam os nomes para as colunas, estou aqui mirabolando...

Em breve, boas novas aqui no blog!

Com carinho,
Betina
Portas para outras paisagens e horizontes:
o olhar além-fronteiras nas novas colunas do blog




quinta-feira, 22 de junho de 2017

Por um inverno quente de afetos e de sabores!

Scones para o café da tarde:
com geléias, com manteiga, com 'Dulce de Leche'

Bolo de chocolate amargo com calda de figos

Café e bolinho de chuva com gostinho de aniz 

Pão e vinho, dueto perene no aconchego do inverno

Caneca de café com "Nega Maluca"

E a "Nega Maluca" na receita clássica da minha família,
 quadriculada e com calda tripla!

A lareira: expressão máxima do sentimento de inverno,
que acompanha todos os sabores e aconchegos.

No post, algumas das imagens que me fazem sentir que o inverno chegou.
Para você, qual o sabor dessa estação?

Com carinho,
Betina

terça-feira, 20 de junho de 2017

E por falar em "Lentezza": o Slow Food

Pois o "Festival della Lentezza" se aproxima, e provavelmente se origina, de um movimento que referi no post anterior, o "Giorno della Lentezza", um dia dedicado à conscientização sobre a necessidade de desacelerar. Neste, eram promovidas práticas como a do Passovelox, em que voluntários realizando o papel de "pardal dos passos"  pegavam, rua afora, inquietos, agitados e esbaforidos de plantão.

E o "Giorno della Lentezza" surgiu de onde? Ainda estou lendo a respeito, mas um ponto na raiz deste dia é essencial: a aproximação com outro movimento italiano, este de impacto mundial: o "Slow Food". Essa filosofia surgiu para contrapor o Fast Food, mas foi muito além desse propósito. As ideias e iniciativas do Slow Food têm se enraizado pelo mundo, através do que chamam 'convivia', conjunto dos 'convivium' individuais. A força desse movimento é cada vez maior. Aqui mesmo, no  Rio Grande do Sul,  temos a sorte de contar com excelentes nomes expressando sua voz em uma Gastronomia que ultrapassa o prato e chega na origem dos ingredientes: o produtor, a terra, o mercado.

É com um destes importantes chefs que vou conversar em julho, o Rodrigo Bellora, do restaurante Valle Rústico, em Bento Gonçalves. A prosa com o chef vai inaugurar a coluna de entrevistas do "Serendipituy in Cucina", programada para iniciar no próximo mês. Acompanhar o que ele tem feito em seu restaurante, e em seus projetos, dá una baita esperança na essência da cozinha. Essa  cozinha da ancestralidade, que nos bota em contato com o produto vindo da natureza. Essa cozinha do contato com os produtores, da retomada de rituais, da vida acontecendo nos bastidores da mesa. 

Bom, temos muito o que conversar por aqui!

Quer saber mais?
Em breve, detalhes!

Com carinho,
Betina

Figos: direto do produtor...
Ao mundo da panela...
E à mesa...




domingo, 18 de junho de 2017

Refletindo sobre uma 'lentidão possível'


Compartilho hoje um vídeo que mostra a atmosfera do "Festival della Lentezza", do ano de 2016. O evento preconiza que a lentidão referida não é per se um fenômeno de vagarosidade. Não. No festival, não se fala em caminhar devagar no sentido literal, mas em caminhar com foco no presente, prestando atenção aos sentidos, às respostas do corpo durante o percurso, na interação com os demais, no sentir. Uma das palestrantes, Petra Magoni, aponta: "Não é propriamente sinônimo de algo que se faz lentamente, mas de uma coisa que se faz com atenção e em profundidade". Então, o desacelerar a que os idealizadores e participantes se referem não é tanto um elemento de oposição à rapidez, mas sobretudo à inquietude, aos múltiplos estímulos de distração, ao frêmito de viver tudo de uma só vez sem dar-se a oportunidade de saborear a experiência. A oposição mostra-se mais ao hábito de comer com pressa para voltar ao trabalho (e quantas vezes já fiz isso...), à prática de visitar 15 cidades em sete dias, à necessidade de andar rápido no intervalo apenas por automatismo. E essa palavra define muito do que vivemos, hoje em dia: automatismo, tão oposto à autonomia. Tão algoz da autonomia, aliás. 

A primeira vez que ouvi falar em ' Giorno della Lentezza' foi em uma aula de italiano, quando o professor contou do Passovelox, um 'pardal de passos' feito por voluntários em Milão. Esses paravam os sujeitos que andavam com demasiada rapidez, multando-os com o preço de uma conversa sobre a conscientização, o parar para pensar. Acima de tudo, sobre o parar, o diminuir o ritmo, o perceber que não é preciso andar tão rápido para chegar ao mesmo local, para voltar ao escritório ou à empresa. A correria, acabo me dando conta, é uma pantomima das pernas, dos braços e do rosto, um espetáculo que encenamos para nós mesmos para nos certificarmos que estamos no ritmo esperado, no ritmo certo, que vamos alcançar os objetivos do dia junto com nossos contemporâneos porque, simples assim, essa é a demanda do dia: chegar, alcançar a meta, e rápido.

 No pacote, estão o multifoco, o transbordamento das emoções e do stress, a agitação para ser tão eficaz como todos os agitados. Esta é a razão para que eu fale em pantomima. No Teatro, esse termo se refere à representação de uma história através de gestos, movimentos, expressões faciais.A rapidez cotidiana tem uma fisionomia própria, a aceleração dos passos é típica, a gestualidade dos frenéticos carrega até mesmo um gozo na tensão. E todas essas manifestações físicas são próprias da tal pantomima: não é preciso falar, não há discurso, pois essa é uma correria muda. E mais ainda: solitária. Um comportamento que muito comunica sobre a indisponibilidade para o outro, para as cores do dia, para o sabor da comida, para os sentimentos naturais na jornada rotineira. Na correria, fazemos de conta que somos super-heróis, e 'ai' de quem diga que não. Sabemos de nossas limitações, mas é preciso agilizar, dar conta, atingir deadlines, ignorar as limitações e ultrapassar os limites. Sem espaço para o que nos lembre que, lá no fundo, queremos é ter tempo para um pouco de "La dolce vita".

Até a Gastronomia tem sofrido deste "mal do século" nos últimos tempos. A essência da cozinha, que habita nosso sentir com a calma, o fazer demorado e paciencioso, o resgate ancestral nas receitas preparadas como antes, tudo isso cai por terra em uma contemporaneidade pesada. A a Alta Gastronomia tem representado um alto custo de saúde para os chefs  que precisam correr pela perfeição em padrões de Guia Michelin. Então, até a cozinha perdeu a corrida para a agitação do século XXI. Está reduzido o tempo do 'fogo lento', da delicadeza afetiva no preparo dos pratos, da alma das tradições familiares, das refeições partilhadas cujo propósito é o convívio. Sim, isso tem melhorado, o Slow Food e a tendência de cultivar a 'cozinha das avós', muito em voga no mundo todo, estão fazendo o caminho de volta para a 'lentezza' na culinária, também.

O filme "Paris pode esperar", atualmente em cartaz, mostra este contraponto entre o acelerado e desatento diretor de cinema e seu contrário, o bon-vivant que sabe desfrutar dos prazeres da vida com  o uso dos sentidos, do viver o tempo em sua dimensão real, sem estreitá-lo. O contraste entre eles é nítido, e o filme mostra os efeitos dessa diferença na relação que Annie, a esposa do diretor, vai estabelecendo com Jacques, o sócio bon-vivant de seu marido. Jaques não é lento em suas ações no filme, mas vive cada uma das oportunidades sem a preocupação em 'chegar logo em Paris'. Aos poucos, a própria Annie vai usufruindo da mudança de ritmo, aprendendo que a experiência é uma rica oportunidade de saborear a visão de um campo de lavandas, uma bela refeição, uma dança. 

Continuaremos a viver com pressa, atualizando nossos aplicativos do celular, assoberbados de tarefas. Ou podemos diminuir a marcha e perceber que o resultado na eficácia é ainda maior, por aprendermos a estar plenos de atenção e de nós mesmos. A passos lentos, a felicidade cotidiana consegue se equilibrar sem os tropeços da correria. A lentidão proposta não é uma idealização, uma epifania e nem sequer uma panacéia. Não resolve tudo, e não se propõe a isto. O ponto é a lentidão possível, o empenho em modificar o próprio ritmo nas pequenas atividades do dia, sem que seja necessário ceder ao modo automático para adequar nosso ser. Ingrediente principal, para mim, é o que foi proporcionado pelo movimento do 'Passovelox', de que falei acima: a conscientização. Venho buscando colocar isso em prática nas pequenas e nas grandes coisas da minha semana, e os ganhos, em termos de bem-estar, são valiosos.

Vamos tentar? 


Com carinho,
Betina
Fazer chimia em fogo lento:
experiência plena de desaceleração


Sobre a "Carta Constitucional" do Festival della Lentezza: minha tradução

Original em Italiano
"Il Festival della Lentezza nasce intorno a questa Carta Costituzionale. L’ambizione degli ideatori è quella di mettere in discussione nientemeno che il nostro travagliato rapporto con il tempo, dandoci degli strumenti e delle opportunità di cambiamento possibile.

Presto. E’ ciò che ci insegnano fin da piccoli. Bisogna fare presto. Correre. Muoversi. Accelerare. Il mondo non aspetta, non ha tempo. Cresciamo accumulando ritardi, mentre un senso di colpa latente ci avvolge con una patina quasi impercettibile. La tecnologia, se usata male, non aiuta. Semmai accelera l’affanno, perché moltiplica la nostra connessione con un presente ininterrotto che non ammette, appunto, ritardi. A meno che non la si usi come un mezzo per agevolarci le incombenze quotidiane della vita, per abbattere barriere fisiche e virtuali.

Perché altrimenti il rischio è quello di perdere tutto. Perdiamo il tempo, prima di tutto. Esattamente ciò che serve per agganciarci al traino di un’esistenza felice. Proviamo a pensarci: le relazioni, il godimento delle cose terrene, la contemplazione del mondo intorno a noi. Tutto, ma proprio tutto, richiede tempo, e il tempo concede calma, serenità. Sposta l’asse terrestre della bellezza e rende degno il gioco di esserci."
Sostiene Milan Kundera come ci sia “un legame stretto tra lentezza e memoria, tra velocità e oblio”. Questo festival nasce dall’idea di restituire a noi stessi quel tempo sottratto a cui abbiamo rinunciato, un giorno alla volta. Per prenderci cura del nostro passato e immaginare con freschezza un futuro ancora tutto da scoprire.

Il Festival della Lentezza è promosso dall’Associazione Comuni Virtuosi in collaborazione con il Comune di Colorno e si svolge ogni anno il terzo fine settimana di giugno presso la Reggia Ducale  di Colorno (PR).
Meu caderno de receitas: nas páginas, as marcas
  do tempo e do demorado prazer da cozinha
Minha tradução
O “Festival dela Lentezza”, significando ‘Festival da lentidão”, nasce em torno a esta CartaConstitucional. A ambição dos idealizadores é colocar em discussão nada menos do que nossa atormentada relação com o tempo, dando-nos instrumentos e oportunidades possíveis de mudança.

Rápido. É isso que nos ensinam desde pequenos. Precisa fazer rápido. Correr. Movimentar-se. Acelerar. O mundo não espera, o mundo não tem tempo. Crescemos acumulando atrasos, enquanto um sentimento de culpa latente nos envolve com uma pátina quase imperceptível. A tecnologia, se mal usada, não ajuda. No caso, acelera a inquietude, porque multiplica a nossa conexão com um presente ininterrupto que não admite, de fato, atrasos; a menos que a usemos como um meio para agilizar as incumbências cotidianas da vida, para reduzir barreiras físicas e virtuais.

Porque, de outra forma, o risco é de perder tudo. Perdemos o tempo, acima de tudo. Exatamente aquilo que serve para nos transportar à uma existência feliz. Vamos pensar: as relações, o gozo das coisas terrenas, a contemplação do mundo ao nosso redor. Tudo, mas tudo mesmo, precisa de tempo, e o tempo concede calma, serenidade. Desloca o eixo terrestre da beleza e torna digna a brincadeira de existir.

Defende Milan Kundera que exista “uma ligação estreita entre lentidão e memória, entre velocidade e esquecimento”. Este festival nasce da ideia de restituir a nós mesmos aquele tempo retirado de nós, o tempo a que renunciamos, dia-a-dia. Para cuidar do nosso passado e imaginar com frescor um futuro ainda todo a descobrir.


O Festival dela Lentezza é promovido pela Associazione Comuni Virtuosi em colaboração com a Comune di Colorno e se desenvolve a cada ano no terceiro final de semana de Junho, em local chamado “Reggia Ducale  di Colorno" (PR).


(tradução livre do texto apresentado em Festival della Lentezza)


Com carinho,
Betina





sábado, 17 de junho de 2017

"Festival della Lentezza": carta constitucional

O "Festival della Lentezza” é uma celebração ao tempo manso, ao caminhar passo-a-passo nos campos da vida cotidiana. Amar, cultivar vínculos, comer e beber, dormir, cozinhar, trabalhar e tantos outros verbos e substantivos cabem no adjetivo 'lento" e em suas variações gramaticais. Lentidão, lentamente, lentificar, e por aí vai. Sinônimos, como vagaroso, devagar, etc. acompanham o mesmo sentido. Vagar, por sua vez, pode ser substantivo, mas pode ser também verbo, e um dos significados deste é, curiosamente, 'andar sem rumo, andar à esmo, andar por um determinado trajeto sem um destino'. Seria aqui um ponto de encontro entre o vagar, compreendido como lentidão, e o vagar verbo, significando "caminhar sem destino"?

E este "caminhar sem destino" não equivale ao 'caminhar passo-a-passo', do início do primeiro parágrafo? Pois o tal passo-a-passo é o 'cada dia', o lento, o presente. O 'simples estar' em algum local, estar com alguém num abraço, de mãos dadas, ou cozinhando, ou partilhando a refeição. Sem que isso signifique estar trilhando uma rota rumo a algum destino específico, mas sim vivendo um dia-a-dia pleno da vida que se leva. Conscientes da imperfeição, da insuficiência natural que nos faz querer melhorar, mas inteiros no momento, 'vagando' ao longo desse vagar, dessa lentidão que nos permite sentir as experiências que a vida proporciona. Saborear. Sentir com os cinco sentidos, sentir com sentido, dar sentido ao sentir. E isso conseguimos quando damos tempo ao sentir.
Neste tempo, estão os artigos que leio na seguinte 
 'carta constitucional' da República Democrática da Lentidão:

"Carta costituzionale

Articolo 1
Tutte le persone hanno il diritto di essere felici, e la felicità è l’obiettivo comune a cui tendere in quanto comunità.

Artigo 1
Todas as pessoas têm o direito de serem felizes, e a felicidade é o objetivo comum do qual se deve fazer questão enquanto comunidade.

Articolo 2
Il tempo non è un contrattempo, un fastidio, un oggetto. Ma un dono. Il tempo è un bene comune da tutelare, custodire, vivere ad ogni istante con la giusta dose di spensieratezza. E lungimiranza.

Artigo 2
O tempo não é um contratempo, uma chatice, um objeto. Mas um dom. O tempo é um bem comum a proteger, a cuidar, a viver a cada instante com a dose exata de despreocupação. E de perspectiva. 

Articolo 3
Giocare, nella Repubblica Democratica della Lentezza, è l’unico dovere sancito dalla carta costituzionale. Senza competizione o premi a cui ambire. Ma come puro divertimento e piacere.

Artigo 3
Brincar, na República Democrática da Lentidão, é o único dever estabelecido pela carta constitucional. Sem competição ou prêmios a ambicionar. Mas como puro divertimento e prazer.

Articolo 4
Siate lenti, pazienti, curiosi. Prendetevi il tempo necessario per essere sempre in orario con gli affetti, e al posto giusto nel momento giusto in cui si incrociano le emozioni per cui vale la pena esistere.

Artigo 4

Sejam lentos, pacientes, curiosos. Concedam-se o tempo necessário para estar sempre "no horário" com os afetos, e no lugar exato no momento exato em que se cruzam as emoções pelas quais vale a pena existir.

Articolo 5
L’ozio non sia vissuto come un vizio o uno sbaglio a cui porre rimedio. Ma come una possibilità. Per voi, e per i vostri figli. A cui sia data l’opportunità di aver tempo da perdere, l’occasione di annoiarsi. Il brivido di scegliersi per una volta cosa fare e con chi.

Artigo 5
Que o ócio não seja vivido como um vício ou um erro que se deva remediar. Mas como uma possibilidade. Para vocês, e para seus filhos, a quem seja dada a oportunidade de ter tempo a perder, oportunidade de entediar-se. A excitação de escolher para si, pela primeira vez, o que fazer e com quem. 

Articolo 6
La Repubblica Democratica della Lentezza si fonda sui sorrisi e gli abbracci. Ogni cittadino ha diritto a riceverne un quantitativo minimo garantito, impegnandosi a sua volta a farsi donatore e moltiplicatore per le strade del mondo.

Artigo 6 
A República Democrática da Lentidão se fundamenta nos sorrisos e nos abraços. Destes, cada cidadão tem direito a receber  uma quantidade mínima garantida, empenhando-se, por sua vez, a tornar-se doador e multiplicador dos mesmos, pelas estradas do mundo."

Com carinho,
Betina

(Minha tradução livre do texto do site  do Festival della Lentezza

Imagens que me trazem o sentimento da "Lentezza"

A máquina de escrever do Vô Hélio
  
Um livro de receitas antigo
Porta ao sonho, em San Gimigniano
Uma mesa na sala de jantar de um típico B&B escocês
Um prato de cantuccini con Vinsanto
Um livro sobre o picnic urbano
Uma tenda antiga de guloseimas
Esperar o ponto do doce
Abrir a massa para os scones
A lembrança de um picnic feito ao acaso
Bolo de frutas numa louça antiga



Sobre a Luminara di San Ranieri e o Festival della Lentezza


Seguindo a prosa no território italiano, venho hoje refletir sobre um evento, o "Festival della Lentezza". Esse movimento tem, sim,  muito a ver com a Luminara di San Ranieri, embora à primeira vista pareça que o elo entre esses dois pontos seja apenas a Itália. O ponto em comum? A lentidão que o festival preconiza e discute é, no meu sentir, aquela que move a essência da festa pisana. Afinal de contas, Pisa passa dias e dias sendo "vestida" com as armações de madeira em seus palazzi, recebendo a dedicação dos voluntários e da comunidade, preparando-se para a noite do 16 de junho. Em uma data em que a iluminação de quase toda a cidade é composta pelo efeito das velas, e na qual todos são proibidos de acenderem luzes, a única palavra que para mim descreve esse momento é a própria 'lentidão". 

A luz da vela no 'copinho', formando o conjunto chamado 'Lumini" é uma imagem lenta: a chama sim é tremulante, mas de um balanço leve, suave, constante. Lento. Inúmeras pessoas colocam os "lumini' nas armações de madeira branca, que têm o nome de "biancheria", e esse feito leva horas naquele dia, através de engrenagens e caminhões. A noite chega devagar, vai sendo recebida pelas velas acesas em seus suportes nas janelas, portas e detalhes. Há uma pressa, a de aprontar tudo para a noite, mas ainda assim esta é sutil. Vi muitos colaboradores diligentes, mas todos realizando sua função de um modo calmo, lento. É uma festa que atravessa séculos e que homenageia o Patrono da cidade, San Ranieri, evocando em cada um sua força ancestral, lembrando de seus antepassados que foram parte da celebração. 

Um outro tempo, outro giro do relógio. A Luminara traz essa essência em si, esse tempo de ponteiros que caminham com um passo mais lento entre as horas e os dias. E, para mim, essa é uma das principais riquezas de toda a preparação e da festa: o correr vagaroso que faz parte de sua magia. 
No próximo post, vou contar sobre o "Festival della Lentezza" e compartilhar algumas das minhas reflexões sobre esse viver lento- e tão possível-que está sendo discutido entre os dias 16/06 e 18/06.

Voltem em breve!

Com carinho,
Betina

sexta-feira, 16 de junho de 2017

16 de junho: homenagem à festa pisana "Luminara di San Ranieri"

O Rio Arno e os 'palazzi' de cada Lungarno iluminados
 pelas velas da Luminara di San Ranieri
Palazzo Agostini e outras construções já esperando a festa:
 armações brancas nas portas, janelas e detalhes,
 para receber as velas da Luminara
No Palazzo Agostini, tradicional construção em Pisa,
a colocação das velas em cada suporte,
nas armações de madeira:
preparação da Luminara
Pisa se preparando para a festa: caminhões e engrenagens
colocam as velas nas armações
A comunidade participando: jovens  voluntários colocam
 cada vela em seu suporte, preparando o conjunto
 que será posto nas armações de madeira.
Lindo de ver!
Foto no interior do Palazzo Agostini
Funcionários colocando os conjuntos de vela e suporte (Lumini) nos 'palazzi'
das margens do Rio Arno
A Festa da Luminara di San Ranieri à noite.
Cada parte das margens do Arno é iluminada com as velas,
 formando uma imagem de luz, celebração e magia




quinta-feira, 15 de junho de 2017

Partilhando a alegria da celebração: chegamos aos 50.000 acessos ao blog!


Esta é a postagem número 438. Enquanto organizo as próximas, venho celebrar com os amigos-leitores a alegria de termos alcançado os 50.000 acessos, no dia de ontem. A escrita rotineira em um blog requer dedicação, prazer e sentimento de partilha: são esses os principais ingredientes que movem o seguir do Serendipity in Cucina. Descubro novos temas; realizo buscas externas, como os cursos de degustação da Vinho & Arte e as atividades do Casamundi Cultura; pesquiso temáticas; escolho, invento e realizo receitas; programo  passeios e peripécias. Em tudo isso, tenho como foco não só os meus interesses pessoais e a minha curiosidade de sempre, mas também a vontade de escrever e de compartilhar as descobertas.

E posso dizer, com toda a certeza: meu gosto por registrar novidades e reflexões é um dos pontos principais para termos chegado a esse número de acessos, mas o apetite dos leitores pelos posts, ao longo do tempo, é essencial para que eu siga escrevendo. Esta troca me nutre do gosto e do desejo de trazer a vocês minhas alegrias nos territórios da cozinha, das viagens, do conhecimento (vagaroso) do mundo dos vinhos, e também nos tantos campos de observação e de leituras a respeito do saborear, do viver bem e do celebrar.

Há muitas expedições culinárias a serem feitas, e outras, já vivenciadas, a serem escritas. Pela frente, temos juntos muitos caminhos a percorrer.

Gracias, amigos, por nossa conquista dos 50 mil acessos, nestes cinco anos do blog! Continuem visitando, comentem e peçam temas de seu interesse. Vocês são sempre muito bem-vindos, e, aliás, são o motivo de o "Serendipity in Cucina" seguir no ar!

O que nos aguarda?

Ainda há um tanto de sabores a experimentar e a escrever por aqui!


Com carinho,
Betina

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Homenagem ao amor: trechos de Laura Esquivel e M.F.K.Fisher


"En la cocina se concilian los cuatro elementos de la naturaleza en un platillo, más un quinto que yo añadiria y que es la carga afectiva, sensual  (...), que cada persona transmite a la comida en el momento de prepararla. Esta energía es la que convierte el acto de comer en un acto de amor. Donde se invierte, se revierte y se amalgama el rol sexual de la pareja."

Laura Esquivel
 "Íntimas Suculencias-tratado filosófico de cocina"


"Existe uma comunhão para além de nossos corpos quando o pão é partido e o vinho é tomado."


M.F.K.Fisher 

"The Gastronomical Me"






sábado, 10 de junho de 2017

Conhecendo a etimologia da palavra 'sensual': a força dos sentidos

Relendo os últimos dois posts, percebi a necessidade de escrever sobre um elemento comum entre eles, a ligação entre a cozinha como espaço simbólico e a atração física do par. Pois bem, uma das formas de refletir sobre essa interação é conhecendo a etimologia da palavra 'sensual'. Esta vem do latim 'sensualis', de 'sensualitas', significando a 'sensualidade, capacidade para sensação, para perceber através dos sentidos'; de 'sensus', "sensação".   fonte da informação

Excitar e provocar os sentidos é algo que fazemos através das comidas e das bebidas, do cozinhar em si, do preparar alimentos afrodisíacos ou da simples partilha de uma refeição cotidiana com o par. Não importa tanto a forma como a sensualidade é exercida, mas a conexão entre os dois, a disponibilidade para estar aberto ao outro, para o despertar do sentir. 

Esse despertar pode acontecer em nós pelo ofício dos cinco sentidos e pela prontidão para o sentimento, a emoção, o contato físico e afetivo do casal. 

De todos os modos, o que entra em cena são os sentidos que já conhecemos: olfato, visão, audição, tato, gustação. Em síntese, portas de entrada do mundo externo para nossa vida íntima,  tanto no contato com o alimento quanto com aquele que Roland Barthes chamou de 'sujeito amoroso', em seu "Fragmentos de um discurso amoroso". 

Se você buscar na memória, possivelmente lembrará das inúmeras vezes em que o campo sensorial entrou em cena para o degustar uma boa refeição com o par e para a vida íntima do encontro sexual. Pois esse campo sensorial, nos contextos da gastronomia e das relações afetivas, pode ser traduzido como sensualidade. 

No filme "Paris pode esperar", o sentido mais presente para Anne é o da visão, exercido através da fotografia; para Jaques, o gustativo e o olfativo são os mais intensos. Há várias passagens do filme em que podemos identificar essas diferenças entre eles, expressas através de suas reações e despertares. 

Já identificou qual o seu sentido mais presente? 

Com carinho,
Betina


Sobre o filme "Paris pode esperar", em cartaz

Assisti ao filme hoje de tarde, no cinema. Muito de nossa conversa de ontem, sobre o prazer da refeição com nosso par, está presente nesta história. Um dos pontos que mais toca é a descoberta de si e do outro através do desfrutar conjunto. Esses são fenômenos que a comida e a bebida muitas vezes propiciam pelo exercício dos sentidos em comunhão. Entre o casal do filme, cria-se um espaço subjetivo em que cada olhar, ou cada toque não proposital na pele do outro, comunica a força do vínculo que vai surgindo. Para mim, a riqueza de "Paris pode esperar" está nos momentos em que o par de viajantes, formado por Anne e Jaques, degusta as especialidades dos restaurantes por onde passa, assim como as nuances das paisagens. Ele, expert na condução das vivências gustativas e culturais; ela, sensível no olhar para a vida, através da câmera fotográfica. É como uma orquestra em que os sentidos de ambos tocam em harmonia as percepções.

Há muito no filme a ser explorado em termos de reflexão, trechos em que a enogastronomia se apresenta como metáfora de diversas experiências  comuns a tantos de nós. Especialmente no campo da descoberta, esta tônica é muito presente: a protagonista percebe-se de uma nova forma, assim como o bon vivant encontra, ao longo do percurso, aspectos de si que desconhecia. E tais percepções são despertadas pela influência recíproca que exercem, pela sensualidade do 'mero' saborear, do olhar o detalhe, do decifrar aromas, do sentir o 'ao redor' como parte de seu universo temporário. 

Por enquanto, como 'aperitivo', deixo o trailer do filme. Em breve, um post sobre minha leitura a respeito de elementos significativos no tema da cozinha como metáfora de vivências e emoções.


Você já assistiu?

Com carinho,
Betina