quarta-feira, 31 de maio de 2017

Sobre a passagem do tempo e o curso "A vida cotidiana na Idade Média", na Casamundi Cultura

Quando referi um dos aspectos sobre a cozinha do século XXI, vinculada ao Slow Food, ao componente afetivo do preparar a comida e à retomada cada vez mais intensa da ancestralidade, havia, como pano de fundo, o maior contato com a natureza, muito vigente hoje. Esse contato se expressa pela busca por alimentos orgânicos, pela presença cada vez mais forte das hortas urbanas em sacadas de apartamentos, pela cozinha "do mercado para a mesa" e, de forma consistente, pelo respeito à natureza do tempo, dos ritmos de repouso e de ação, das pausas necessárias ao bem-viver. Os horizontes "pró-lentidão", como o referido Slow Food e o Festival della Lentezza, além de sites como "La Bioguía" e "Novos Rurais", apontam para o vagar, para a desaceleração da vida. Este tem sido o contraponto, em movimento pendular, não apenas do Fast Food, mas sobretudo da forma de conceber a cozinha como estímulo ao super-humano, ao super-especializado que prescinde do afeto no produzir a comida que oferece. Essa 'culinária do vagar' se aproxima cada vez mais do humano. É uma forma de cozinhar que  fortalece a importância do retorno aos padrões antigos que estão voltando à moda. Almoçar em casa com a família, com tempo para partilhar a refeição ao redor da mesa, buscar ingredientes da estação no mercado ou na feira, comprar do produtor local: elementos muito vivos na cozinha do século XXI. 

Refere o autor Byung Shul Han, em "O aroma do tempo- um ensaio filosófico sobre a arte de demorar-se":

"O ócio não tem a ver com não fazer nada, é bem o contrário. Não está a serviço da dispersão, mas da reunião. O demorar-se requer uma "colheita" do sentido. 
 (...).Na Idade Média, a vida ativa estava muito embebida da vida contemplativa. O trabalho tem sentido a partir da contemplação. O dia começa com rezas e termina com elas. Dão ritmo ao tempo. Os dias festivos têm outro significado muito distinto. Não são dias livres de trabalho. São um tempo de oração e de ócio, e têm seu próprio significado. O calendário medieval não é um mero contar dos dias. Em seu fundamento subjaz um relato, em que os dias festivos constroem estações narrativas. São pontos fixos no fluir do tempo que unem essa narrativa, para que não se escorra. Constroem fragmentos temporais, que dividem o tempo e dão ritmo a ele. Funcionam como fragmentos de um relato. Fazem com que o tempo e o seu transcorrer tenham sentido.Um fragmento de um relato encerra uma fase narrativa. O fechamento prepara à seguinte fase da narrativa. Os fragmentos temporais são transições plenas de sentido dentro de um marco de tensão narrativa. O tempo da esperança, o tempo da alegria e o tempo da despedida saltam de um ao outro."

 (pg. 126-127, tradução minha).

O trecho acima faz pensar nos dias festivos como rituais, necessários à preservação das características e da memória do grupo. Esses são dias que organizam o tempo, no sentido de marcá-lo, determinando a vida e os valores da coletividade. A divisão em "estações narrativas" demonstra a conexão do humano com o fenômeno do tempo, permitindo que tenha sua duração natural.

Escolhi essa perspectiva do livro porque acredito que ilustre com fidelidade o respeito que temos dado a tal fenômeno, bem como aos rituais de passagem. Talvez estejamos trazendo, dos nossos ancestrais, a sabedoria de aceitar o tempo como uma narrativa que transcorre em seu próprio ritmo, sem que possamos apressá-la. Temos essa representação dentro de nós, nas raízes, e a necessidade de retomá-la vem pela busca por si mesmo, cada vez mais preponderante. No cozinhar do século XXI, queremos reavivar o Humano, que aprendeu que o fogo modifica o alimento, aquece o corpo e agrega o grupo ao redor dele, e que isso precisa de tempo. É essencial que se aprenda, novamente, a arte de demorar-se em um propósito. Mais do que preparar o alimento, a lentidão permite que se conectem, em uma só ação, vida contemplativa e vida ativa.

E por falar em período medieval...Hoje, 31/05 e e no dia 07/06 a Casamundi Cultura apresentará o curso "O cotidiano na Idade Média", muito interessante para consolidar nossas compreensões sobre elementos de "um dia comum na vida normal" neste período da História da Humanidade.

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Clique aqui!

Com carinho,
Betina




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