segunda-feira, 22 de maio de 2017

Sobre "Cozinhar- uma história natural da transformação", do Michael Pollan


Todos esses pontos que têm aparecido em nossas conversas fazem parte do meu olhar para o significado da cozinha. Me refiro  ao tema tanto no passado, em toda a nossa História da Humanidade, quanto no presente, este nosso século XXI, pleno de contradições. Desejamos a novidade a qualquer custo, mas muitos estamos resgatando o ancestral; queremos a liberdade, desde que possamos contar com a força do vínculo quando quisermos desistir de tanta liberdade assim. Assistimos a todos os programas de gastronomia na televisão, mas em casa cozinhamos cada vez menos, conforme refere o autor. E estamos cada vez mais sozinhos nas refeições, e comendo cada vez mais rápido na companhia de nossos smartphones, embora o Slow Food esteja trazendo consciência para a mesa. Nossas comidas estão belíssimas, mas  cada vez menos podemos chamá-las de comidas e cada vez mais recebemos, no prato de design ultra elaborado, formas, cores, texturas, narrativas gastronômicas e misturas incríveis. "Não coma nada que sua vó não fosse chamar de comida", é a ideia que Michael Pollan propõe. 

Este livro trouxe para mim uma compreensão profunda sobre os processos que envolvem o cozinhar, hoje em dia. Começa com uma reflexão, em tom de auto-crítica, sobre a relação do autor com a culinária, com o cozinhar para si. Aborda o que estamos vivendo na contemporaneidade, em termos de caos na relação com o comer e, sobretudo, com o comer em família. Poderíamos estar fazendo a comida a partir dos ingredientes da estação e do local, comprados no mercado. Deveríamos, até. Pollan fala do papel da mídia, da moda, e de todas as tendências que tornam a relação com o alimento um fetiche, muito mais do que um ritual a ser preservado. 

Pollan divide o livro em quatro partes, tendo como tema os quatro elementos: Fogo, água, ar e terra, nessa ordem. Na primeira, fala sobre os assados e a relação ancestral do humano com o fogo; na segunda, a água, aborda os vegetais; na terceira, o ar, disserta sobre a fermentação natural do pão, o Levain ou Massa Madre; na quarta e última, Terra, fala sobre outros processos de fermentação, como no caso dos queijos, dos vinhos, das cervejas, do chucrute. Então, chegamos ao epílogo, intitulado "o sabor das mãos".

Uma escrita ensaística, uma voz sincera em primeira pessoa e, por vezes, confessional. Relatos de experiências, entremeados com estudo e reflexão. Pollan tem parágrafos que, de tão relevantes, preciso ler e reler. É um livro vivo, em permanente fermentação natural pelo tanto que provoca e inspira no leitor. 

Leitura necessária a quem deseja fazer uma cozinha consciente, nos nossos tempos. Uma aventura da qual se sai com uma perspectiva diferente daquela com que se entrou nas primeiras páginas. Só lendo para compreender o looping que "Cozinhar- uma história natural da transformação" é capaz de promover em cada um. Complexo, profundo e de atenção demorada, o livro requer que tenhamos tempo para sentir suas linhas, para degustar ou para pensar sobre pontos de impacto, sem pressa. Uma metáfora, sem sombra de dúvida, sobre como é o tempo a dedicarmos ao comer: lento, reflexivo, pleno. A diferença é que ler 'Cozinhar' é um processo de solitude, enquanto o comer, boa parte das vezes, pede o convívio e a comensalidade. O que me parece muito semelhante na comparação entre ler a obra e comer na mesa? A dedicação integral ao momento, sem que se dê ao relógio a prioridade das nossas escolhas.

Boa leitura!
Com carinho,
Betina

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