terça-feira, 23 de maio de 2017

Somos feitos de raízes e de lonjuras


E enquanto preparo os posts sobre o Queijos e Vinhos de sexta-feira passada, as denominações de origem e as indicações geográficas protegidas, os vinhos da enóloga portuguesa da Bairrada, Filipa Pato, eis que surge uma ideia. 

Falei ontem sobre o Michael Pollan e seu livro "Cozinhar-uma história natural da transformação." Falar a respeito de sua obra, e sobretudo de sua forma de perceber a cozinha e o alimento, é acessar a necessidade do consumo consciente dos produtos do local e da estação. 
E hoje ganhei uma quantidade generosa de Carambolas. Com letra maiúscula, mesmo, feito nome de gente, de tão forte a personalidade. No amarelo vibrante, no aroma, no gosto, na textura e, por que não dizer, no silêncio macio de quando cortamos suas fatias estreladas.

A carambola veio do pomar  de uma casa de leitores muito queridos,  da minha cidade, Porto Alegre. Sempre  nesta época do ano, outono no Hemisfério Sul, seu perfume chega para me visitar. 
Pois bem, recebi este presente como algo muito valioso: um produto do local e da estação, de um pomar conhecido e cuidado com zelo. Pode parecer algo simples, e é, mas, pensando mais além, exatamente por isso é um presente tão pleno de significado. Um produto que tem viço, que cintila de tão novo, que não viajou lonjuras para chegar a mim, que está na época de ser colhido e presenteado.
A natureza no seu estado mais alegre. 

Deu vontade de planejar uma nova geleia, unindo a fruta ao cálice de bom Jerez, este sim um viajante em terras estrangeiras. Vou unir, ao espírito do nosso território, pelas carambolas, um vento novo, espanhol. A força de nossas raízes em contraste com a energia que vem de longe. 

Raízes e lonjuras: é do que somos feitos. Precisamos da constância e da viagem, somos Eu-cotidiano e Eu-viajante.  E assim as comidas, os quitutes, os doces, as bebidas. O que comemos e o que somos: sempre  uma mistura entre o nosso território e os outros lugares. Que sigamos, nessa união, mantendo a raiz  da história da família e, ao mesmo tempo, sendo desafiados por ares diferentes dos nossos. Criar receitas com produtos locais e sazonais faz com que me sinta fazendo uma cozinha autóctone, verdadeira, no sentido do cuidado com a origem dos ingredientes. Acrescentar um tom imigrante, como o Jerez, traz o sentimento de "nacionalidade da comida", de que fala Laura Esquivel, como mencionei em um post anterior.

Depois de abrir a sacola de frutas, tomou conta da cozinha o cheiro profundo da carambola. A intensidade do aroma me transportou para  uma geleia que ganhei, há quatro anos, feita com frutas do mesmo pomar. Escrevi sobre o doce e sua receita, aqui no blog, em 2013, e compartilho a leitura. 

Leia a postagem antiga aqui!

Com carinho,
Betina

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