terça-feira, 2 de maio de 2017

Do pão e do fogo: despertando nossas origens

É preciso tocar o mundo ancestral, dentro de nós. E isso ocorre através dos rituais. Eles são tantas vezes embutidos no cotidiano que não paramos para pensar que essa ou aquela prática é tão, mas tão antiga, que nosso ato é pura repetição do que os antepassados faziam em seu saber empírico. Um saber perceptivo, sensorial, que os aproximava dos ritmos da natureza. 

Tocar o mundo ancestral: significa tocar a vida que existe em nossas camadas mais profundas, significa tocar a memória sábia que nos habita, acordando-a de um sono antigo.
Tocar: encostar a pele. Fazer sentir pelo sentido do tato ou pela emoção. 

E o cozinhar nos proporciona isso, entre outras atividades que a existência de um ritual contempla. No campo das práticas culinárias, uma das que mais envolve o tocar é a prática de fazer o pão. Desde quando esse alimento foi descoberto. Ao tocarmos a massa, despertamos a ancestralidade por encostarmos  nossa pele na pele do pão. Estamos, ali, ativando um ritual que existe em nosso ser, na sabedoria que temos sobre o fogo, sobre o movimento, sobre a união da farinha e da água. Não é consciente, sabemos disso em nossas células, reservatórios do nosso mundo ancestral. Pensando nessa ideia, uma vez escrevi um texto que falava sobre "a memória nas mãos". 

Pois essa memória,  que existe na pele e na dinâmica das mãos, é a guardiã dos nossos antepassados mais remotos.

Outros sentidos, como a visão e o olfato, são essenciais no fazer o pão, mas o instante de união física entre nossa existência e a do alimento está no tato, no tocar. No deixar-se tocar pela superfície da massa, ritual tão perene como o encantamento pelo fogo. Não importa se o fogão é pós-moderno, se temos instrumentos ultravelozes na cozinha, se dominamos a arte culinária: a única coisa que importa, frente à chama, é nossa lembrança da força criativa que ela representa. 

Também é por isso que cozinhamos, para resgatar o conhecimento dessa força nos registros mais viscerais, mais inacessíveis do nosso ser. 

Gracias pela visita!
Com carinho,
Betina

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