segunda-feira, 8 de maio de 2017

Entre queijos e paisagens: a cozinha ancestral do catalão.


E qual o sentido desta retomada de lembranças, na série de postagens sobre a cozinha ancestral?

 Considero que seja a filosofia que está ligada profundamente ao modo de o catalão tratar o alimento. Isso ocorre em todas as províncias da Catalunha, mas em especial  por parte do gironino, ou seja, nascido na província de Girona, onde a relação com a cozinha ancestral é muito profunda. Refiro-me ao respeito com que o produto da região é vivido, saboreado, prestigiado, recebendo o nome de 'produto autóctone'. A relação com a terra e com as estações do ano é de tamanha relevância que boa parte da produção de um território é tido como "produto de proximidade". Este é reconhecido pelo pequeno produtor, o distribuidor, o proprietário do estabelecimento e o cliente, expondo o alto valor do produto e da forma como foi feito. Isto ocorre assim  para todos que lidam com a comida e o comer, e tal característica responde à origem ancestral do catalão. A essência dessa forma de pensar e sentir o alimento está no vínculo com a natureza própria do local, em cada época do ano. O escritor Josep Pla referiu algo como "a cozinha catalã faz com que se coloque a paisagem dentro da panela". Para mim,  parece que o eixo que embasa o movimento Slow Food já existia  nesta região há muito mais tempo do que sua origem remonta. Começo a explicação  sobre meus sentidos para esta vivência a partir da nota que escrevi no Moleskine, logo que cheguei à Mas Alba. 
A data do registro é 17/03/2014, 13:15.

Chego à Mas Alba, queijaria e hospedaria rural. A estradinha que traz ao vilarejo de Terradelles, município de Villademulls, é convidadeira, e o portão de ferro é aberto em duas folhas. Agora, farei a visita à produção queijeira, incluindo o curral das cabras. O responsável, Martí Huguet, é quem me recebe, abrindo a casa e dizendo que eu fique à vontade para conhecer os detalhes. O dia está esplêndido: sol e brisa, e respiro mais fundo com essa magia. Uma natureza abundante, muitos e muitos passarinhos, árvores e um clima de casa de campo. Aqui dentro, o cheiro varia entre as peças: na sala de jantar, uma mistura de impressões, junção da madeira com os fiambres e o queijo duro feito com o leite das cabras. O desejo é de um pão caseiro para um sanduíche, uma taça de café e um bom silêncio em comunhão com o espaço. Martí veio me chamar, vamos de trator buscar o leite para a produção de hoje.”

Amanhã tem mais sobre minhas vivências por ali. Vou contar também sobre a importância de reconhecer, na oportunidade, uma ocasião potencial para a mudança de paradigmas.

Por enquanto, algumas fotos da queijaria e hospedaria Mas Alba. 
Com carinho,
Betina




















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