sábado, 13 de maio de 2017

Curso de Iniciante em degustação da Vinho & Arte: vivências do Eu-Viajante



Participei, ontem à noite, do curso de degustação de vinhos para iniciantes, como referi no post anterior, ministrado pela enóloga Maria Amélia Duarte Flores, proprietária da Vinho & Arte. E uma das alegrias que a experiência me proporcionou foi a sensação ser viajante em minha própria cidade, no meu cotidiano. Desde o momento em que cheguei ao Hotel Plaza São Rafael, onde fica a Vinho & Arte, senti como se estivesse fora de qualquer agenda do dia, estrangeira em um espaço desconhecido, entre pessoas desconhecidas. A impressão foi muito próxima ao transe de viajante que tive algumas vezes, ao viajar sozinha: estranhamento. Pois é possível vivenciá-lo mesmo se permanecermos em nosso habitat, já que a questão de explorar o novo não está associada ao onde nem ao quando, mas ao como vamos nos permitir sair do mapa de sempre e arriscar uma aventura ao inusitado.

Nas viagens,  em geral conseguimos extrapolar fronteiras das agendas turísticas a que nos propomos, e então fazemos descobertas incríveis de restaurantes, praças, ruas, cenários. É muito interessante como somos resistentes a ultrapassar fronteiras da nossa rotina. Talvez por isso eu tenha levado tanto tempo para me inscrever a um dos cursos sobre vinho desta 'adega-escola', cuja programação acompanho regularmente. Ontem, senti a força do Eu-Viajante quando caminha por uma rota que não conhece, pela satisfação de um novo percurso a ser vivenciado.


Houve outro elemento que ontem me entusiasmou: a curiosidade pelo aprendizado. Para mim, isto é de arrepiar. Gosto muito de vinhos, mas conheço muito pouco. Leio aqui e ali, aprendo detalhes nos jantares e conversas, vou reunindo informações e tomando nota do que desejo aprofundar. E deixo na gaveta do 'um dia...". Sinto falta de saber mais sobre enologia, porque a escrita no blog de certa forma perde com este desconhecimento. Para além disso, o convívio, a partilha, o saboreio em conjunto, as percepções sobre essa ou aquela característica de um vinho, de um terroir, de uma uva: todos são elementos que agregam alegria a uma refeição em conjunto. Aprender, conhecer, curiosar são aspectos muito presentes no meu temperamento, e a simples ideia de que estava a caminho de novas descobertas sobre um assunto interessante já me trazia vontade de chegar logo. Queria escrever as notas na caderneta, degustar, prestar atenção. Esse ânimo foi bem semelhante ao que senti em outras ocasiões, como no dia em que estava a caminho da queijaria Mas Alba para acompanhar a prática na manufatura de queijos, em 2014.

O impacto do termo "Curso iniciante em degustação" enseja, em si, o começo de um percurso a seguir, e isso é, para mim, fonte de entusiasmo perene. Lembrei, a caminho do hotel, que tinha feito algumas aulas no pátio de uma livraria em Pisa, logo que cheguei na cidade para o estágio, em 2004. Havia sido na primeira semana de junho daquele ano. Eu entendia o idioma, recordo de ter ficado com registros do curso sobre vinhos italianos, mas com certeza o que aprendi lá foi uma noção tão inicial, e numa outra língua, que não considerei como iniciação de fato. Já vinha lendo e reunindo alguns conhecimentos, e também aprendendo bastante no último ano, mas de modo informal. 

Então, essa vivência de 'primeira aula' de algo na vida, que sempre me desperta entusiasmo, tive ontem. E escrevi bastante, como é meu habitual nos cursos. A caneta corre sozinha enquanto escuto. 


O propósito desse post não é o de transmitir o que anotei, ou o que a  enóloga Maria Amélia ensinou. Esse aprendizado liga-se diretamente à toda experiência de estar lá, é uma riqueza poder ouvir, escrever, degustar e compreender, estar na circunstância e perceber os detalhes. A reunião de elementos cognitivos e perceptivos contribui muito para construirmos as bases de uma nova descoberta, e foi o que me aconteceu. O que quero contar é do sentimento de abrir um novo assunto a partir do ensino leve, descontraído, e, sobretudo, muito consistente da ministrante. Um aspecto necessário nesses cursos de degustação, que é a atenção aos cinco sentidos, foi conduzido como desafiante brincadeira sensorial com os vinhos. 



O roteiro de temas seguiu o programado, mas não de forma burocrática, emoldurada. Esse elemento foi notável: havia o encadeamento natural dos pontos a serem seguidos, e tudo foi feito com a fluência de quem tem o savoir faire de tantos anos de atividade profissional no mundo do vinho. Muito prazerosa a sincronia com que as explicações foram dadas, os vinhos servidos, as experiências sensoriais conduzidas e partilhadas com os demais 'alunos', ao comentarmos as impressões de cada etapa. Pude conhecer as particularidades da História do vinho, as lendas e percursos ao longo da História da Humanidade, além de ouvir sobre os tipos de uvas, o conceito de terroir e a noção de identidade que nele existe, os elementos técnicos da produção vinícola em várias partes do mundo, e muitas outras reflexões e tópicos que eu desconhecia. 
Na degustação, foram oferecidos os vinhos destacados no post anterior, acompanhados de petiscos para acompanhar o processo. Comparações entre os vinhos, estratégias de percepção, atenção total aos sentidos, sentimento de descoberta: caminhos que ontem percorri. 

Uma das melhores possibilidades que a escrita nos blogs de cozinha e viagens promove é a comunicação com especialistas neste ou naquele campo. É sempre muito rico o conhecimento de pessoas que são exímias em sua área de atuação e, através de seu ofício, compartilham com o mundo a sua bagagem. Seja através da produção de queijos, como no caso do queijeiro Martí Huguet, da realização de uma cozinha viva e autêntica, como a dos chefs gironinos, ou da transmissão de conhecimentos adquiridos pelo estudo, pelo trabalho e pelas experiências com o universo da uva e do vinho, como é o caso da enóloga: como escritora do blog, me sinto sempre parte de um circuito virtuoso de partilha. 

Busco visitar, conhecer, encontrar as pessoas que vivem de seu produto ou de sua cozinha ou de seu percurso de formação, faço novos amigos nestas buscas, escrevo sobre sua forma de realizar algo capaz de gerar memórias em quem consome seu produto, e este é um constante movimento de reciprocidade. Divulgo o resultado e minhas impressões, quando sinto que recebi algo valioso que merece ser contado; espalho, através do que escrevo neste blog, quando sinto que o trabalho é feito com amor, com dedicação, com vida dentro do propósito. E o tema a escrever  pode ser os queijos do Martí Huguet, as geleias da Carme Sarduní, o piquenique do restaurante Les Cols, o carinho da família CapdeVilla, proprietários do Hotel Tarull no balneário de Tossa de Mar, os ensinamentos da enóloga Maria Amélia Duarte Flores, em Porto Alegre: sempre que minha experiência indicar que recebi o ofício com zelo, alegria e competência, vou passar adiante e recomendar. 
Por isso, fiz questão de fazer este post de hoje, porque ontem saí do curso com o sentimento de felicidade por um novo percurso de aprendizado. E essa aquisição, sem dúvida, vem da expertise da ministrante e da excelente estrutura da Vinho & Arte.

Recomendo!

Em breve, escreverei sobre o curso de Queijos e Vinhos que será realizado por ela dia 19/05/2017.
Aguardem!!!

Com carinho,
Betina


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