domingo, 21 de maio de 2017

Atravessando fronteiras sem viajar: degustação e aprendizado no encontro com Filipa Pato

A enóloga Filipa Pato, conversando
sobre seus vinhos "sem maquilhagem",
na Vinho & Arte (20/05)
Degustar vinhos de um território como a Bairrada, de Filipa Pato, conhecer queijos deste ou daquele país, descobrir este ou aquele prato típico, como os cardápios da cozinha vulcânica de La Garrotxa, na província catalã de Girona: experiências que se tornam profundas em nossas bagagens. Se há algo que aproxima o Humano, de qualquer região que venha no mundo, é o comer e o beber, atos que nos universalizam. Expandimos nossas fronteiras geográficas e temporais, através do que comemos e bebemos. No instante em que adentramos o conhecimento sobre um terroir, através do cálice de vinho ou de um pedaço de queijo ou de um azeite de oliva no pão, estamos atravessando caminhos, nos aproximando de outras terras, outros produtores e comensais.

 O  interessante é que as trocas são plenas da emoção de pertencimento ao local que visitamos; as pessoas da região, que nos acolhem em suas mesas, fazem de nossa visita uma oportunidade para nos sentirmos parte, através das receitas que oferecem, com produtos locais e tradições peculiares. "A fraternidade do fogão é uma das mais fortes", refere a escritora mexicana Laura Esquivel, no livro que citei há alguns dias, "Íntimas suculências-tratado filosófico de cozinha". E acrescenta, algumas linhas depois: "Com essa solidariedade, enfim, podemos conseguir que o mundo inteiro seja nosso ventre e compartilhar isso que nos faz seres humanos e que nos dá, como pátria e nacionalidade, uma herança interminável de sabores e aromas que são passado, ou seja, nos dá a nacionalidade da comida, que é nacionalidade e patrimônio universal". As referências são ao ensaio El Rosa Mexicano, p. 109-111 da obra referida. 

O que me encanta é perceber que podemos visitar terras e culturas distantes, nos sentirmos parte de sua história e de sua ancestralidade, sentirmos sua natureza através de nossos cinco sentidos: tudo através de seu vinho, de seu queijo ou de outros de seus produtos. Podemos não viajar para a Bairrada, mas através de um encontro com a enóloga Filipa Pato e com seus vinhos, como o de ontem, é possível conhecer sua região, vivenciar os vinhedos através de seus relatos, conhecer os métodos de elaboração ao longo de sua prosa. Ao degustarmos os vinhos desenvolvidos por ela, com as uvas de suas terras e com as tradições ancestrais que Filipa liga à inovação e permanente aperfeiçoamento, somos parte deste cenário. Ao longo dos cálices degustados, nossos sentidos viajam para a Bairrada, e nos tornamos viajantes em uma condição especial: o pertencimento temporário. 

O mesmo acontece quando saboreamos queijos feitos em uma região específica, ou embutidos, ou azeites, ou vinagres balsâmicos, ou tal e tal produto cuja origem é definida. As denominações de origem, atribuições a territórios delimitados, servem para demarcar especialidades, entre outras funções; poderíamos pensar que isso estabelece limites e que, então, separa a 'irmandade do fogão' a que se refere Laura Esquivel. No meu sentir, ocorre o contrário: é exatamente por demarcar os espaços de terroir, as atividades de produtores locais e a força das tradições enogastronômicas ancestrais que a irmandade se torna mais sólida. Ao conhecermos e experimentarmos esses produtos, mesmo sendo estrangeiros ao seu círculo geográfico e cultural, assumimos o que Esquivel refere como "a nacionalidade da comida". Enquanto saboreamos e descobrimos com nossos sentidos, estamos ligados ao local, seus moradores e a todos que, assim como nós, experimentaram a iguaria.

Você sabe o que quer dizer Denominação de Origem Controlada, Denominação de Origem Protegida, Indicação Geográfica Protegida e outras definições semelhantes? Estou preparando o post para conversarmos sobre o tema.

Seguimos a prosa, nos próximos dias!

Com carinho,
Betina
Um dos momentos da degustação: os brancos "FP branco: Bical e Arinto" e
"Nossa Calcário Branco".

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina