terça-feira, 30 de maio de 2017

Algumas ideias sobre a Cozinha do século XXI

As perguntas do post anterior são as que me faço há tempos. Estudando a cozinha como espaço físico e simbólico na literatura, tema de minha Dissertação de Mestrado, conheci a obra de diversos autores de grande relevância no tema, como o já citado Michael Pollan, além da leitura do sociólogo brasileiro Carlos Alberto Dória, entre tantos outros. De todos os pesquisadores consultados, para a construção de uma perspectiva que representasse meu modo de compreender a cozinha, considero que estes dois autores constituem meus referenciais mais sólidos. É no estudo de ambos que reconheço pontos de reflexão com os quais concordo, muitas vezes. Vale também citar o italiano Carlo Petrini, fundador do movimento Slow Food, e a pesquisadora italiana Silvana Ghiazza, cujo trabalho sobre as funções da comida na literatura abriu meu leque de reflexões no tema. Ghiazza ultrapassa a questão das funções referidas, pois fala, em diversos momentos, sobre o papel metafórico da cozinha, de sua força como linguagem.

A cozinha do século XXI me parece sobretudo paradoxal. Em minha leitura, ela é, de um lado, glamourosa, atingindo patamar de obra de arte. Nesses casos, há uma exigência de perfeição que pode custar a saúde  física e psíquica do chef. E o cinema tem demonstrado, em tramas como "Pegando Fogo", "A cem passos de um sonho" e "Chef", o alto risco da Alta Gastronomia no topo da especialização, para contemplar as expectativas das Estrelas Michelin. Os reconhecidos chefs em âmbito internacional têm demandas de trabalho compatíveis com super-heróis, enquanto figuras como Jamie Oliver tornam-se, com rapidez, parte de nossa família, e frequentam a sala de nossas casas com admirável assiduidade. Esta é uma cozinha do mundo ideal, das personagens que passam a compor um universo íntimo de maravilhas inatingíveis (ou sim, atingíveis a um sacrifício enorme da vida pessoal). Há um cozinhar ultraveloz que produz resultados estéticos de beleza e prazer sublimes. Isso para dar alguns exemplos. Esta é a gastronomia dos cardápios ricos em descrições poéticas, que na prática nem sempre são fiéis ao prato solicitado. 
Este é um lado da situação, no século XXI. 

De outra parte, temos o Slow Food, fundado no século XX, mas formando raízes cada vez mais sólidas em nosso tempo. Temos a cozinha da experimentação, do valor aos cinco sentidos como forma de conhecimento de si mesmo, dos ingredientes sazonais e locais, do poder dos alimentos orgânicos e saudáveis. Agora, na minha opinião, o pulo do gato desta forma de perceber a cozinha, em nosso terceiro milênio, está na lentidão, nos ritmos mais lentos para vivenciar a cozinha com prazer e na integração com os demais. Aqui surge uma grande força: o componente afetivo presente em nossa cozinha contemporânea: a partilha agradável com quem divide a mesa conosco, o cozinhar juntos, o trocar receitas, o feito em casa, para saborear com a família. Tanto a lentidão quanto o desejo de resgatar a força familiar remontam ao papel da ancestralidade voltando ao centro da cena. 

Há muitas outras virtudes neste sentido. A questão é que o paradoxo divide, ficamos com dois grupos opostos de comportamento. 

Por hoje, fico por aqui! Amanhã, sigo a prosa a partir da apresentação de um tópico interessantíssimo  do livro "O aroma do tempo- um ensaio filosófico sobre a arte de demorar-se", de autoria de  Byung-Chul Han. 

Com carinho,
Betina

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