segunda-feira, 8 de maio de 2017

Ainda sobre a queijaria Mas Alba: a descoberta do telúrico no Eu-Viajante

Vi as cabras sendo alimentadas, assisti ao processo de transporte do leite, senti o cheiro típico e vivenciei o campo com prazer de criança. Eu, super urbana, descobri assim algo novo, nessa porção de mim que tem curiosidade por tudo. A conexão com o atávico, com a raiz de um tempo muito anterior, fazia-se presente em um espaço desconhecido para mim, o curral das cabras. Então, fomos para a lida na queijaria. Eu, cotidiana, até ali era virgem nessa espécie de experiência, e saboreei cada detalhe com olhos de novidade. Naquela tarde de sol manso, o Eu-viajante pedia lugar, desejava sentir cada estímulo, absorvia as nuances nas cores da paisagem, os aromas, o frio suave que o inverno ainda nos trazia. Martí abriu a porta, apresentou-me à capa e às botas de borracha para vestir, e seguimos para que me mostrasse tudo. 

Tomei notas na caderneta amarela:
O  ambiente é de absoluta higiene, sem parecer frio. Os equipamentos modernos, a climatização perfeita, a claridade do branco. O cheiro do leite das cabras é adocicado, puro. Um cheiro calmo, e num respiro profundo se percebe uma acidez discreta. Um cheiro branco, que se espalha pelo ambiente. O conjunto contrasta com o teto em arco, feito de tijolos, típico das masias catalãs. A peça transformada em queijaria, e a gruta abaixo, pertenciam à casa desde sua concepção, em 1746, pelo que entendi, período em que a família Huguet se instalou nesse terreno e construiu sua moradia. Desde então, as gerações vêm continuando por aqui. No pátio, uma mansidão no meio da tarde, o som de alguma máquina no campo, o céu azul com sol, a brisa leve de quase-primavera. Verdes, verdes, verdes, abelhas, passarinhos, o sino da igreja tocando às seis horas. Em mim, uma perplexidade por estar na cena, tanto eu sonhei em participar do processo. Eu, em branco. 

Durante a visita prática, mostrou-me como se forma o coalho, como interagem os componentes do leite, quantidades, alguns métodos, temperaturas de produção. Falou de cada queijo armazenado no frigorífico e daqueles que permanecem na gruta para maturação.
Observei as máquinas funcionando, o movimento do leite, a vida acontecendo.  
Depois, mostrou-me o queijo azul produzido ali, alcançando-me um instrumento para furar toda a superfície. Enquanto ele trabalhava em outro igual, me explicou: a camada azul, dada pelos fungos, precisa entrar no queijo, para dar o sabor específico. Se não se fizer isso, o azul fica todo fora e o produto perde a característica. Era um cilindro, e fui, ponto a ponto, dando voltas para contemplar os círculos imaginários que tracei. O cheiro era intenso. Entrei numa espécie de meditação naquele movimento repetido. Sem pensar, senti a força do inédito acontecendo: eu passava a fazer parte da história daquele queijo. Tornava-me parte da passagem de seu azul, viçoso e áspero por fora, para sua parte interna, clara e jovem. Uma ocasião e tanto. Era necessário empenho, disciplina. Mais ainda, era essencial estar inteira na tarefa.
Depois, lavei as formas para que o queijo fresco, feito na tarde, fosse colocado em cada uma delas. Isso seria realizado no dia seguinte. Descemos na gruta, um cheiro úmido de terra, de pedra, de cascas de queijo, de âmago.
Não sei quantas horas se passaram. Para mim, naquele turno, o mundo era ali.

Com carinho,
Betina

Abaixo, imagens múltiplas do curral das cabras e da queijaria (parte operacional, frigorífico e gruta) 































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