quinta-feira, 4 de maio de 2017

A fermentação natural como resgate, Michael Pollan, Laura Esquivel, Slow Food e outras ideias sobre a mesa

Eu tinha lido um pouco sobre a Massa Madre no ano passado, o suficiente para ficar curiosa por seu processo de realização. E quando li a respeito, uma frase me surgiu: "o amor é massa madre." Era para ser título de um texto futuro, então deixei a ideia fermentando. 
A necessidade de cuidado diário, de realimentação da massa, de disciplina e de foco, de prazer pelo destino de cada porção do Levain em um novo pão feito em casa: todos esses elementos me faziam associar a prática com os atributos que o amor promove em nós. Não apenas o romântico, mas a maior parte de suas expressões. 

Acontece que o ano andou, e durante o Mestrado pesquisei muito sobre a cozinha como espaço físico e simbólico na literatura e percebi que haveria um universo a conhecer, em se tratando do "fazer o pão." Ao longo da pesquisa, me aproximei das reflexões de diversos autores, entre eles o pesquisador e escritor americano Michael Pollan, de quem já escrevi esta semana. E foi com seu trabalho que fiquei ainda mais motivada a levar adiante o projeto da Massa Madre. Em seu livro "Cozinhar- uma história natural da transformação", Pollan diz: "Decidi aprender a assar pães porque estava determinado a conhecer o pão. Se, ao longo desse processo, eu conseguisse assar um pão decente, ótimo; mas minha motivação, francamente, era mais a curiosidade jornalística do que um desejo profundo de fazer meu próprio pão. Eu só queria sentir o processo, metendo a mão na massa em casa ou em qualquer padaria que me aceitasse."

Assim como referido por ele, meu propósito ao decidir começar o processo de fermentação lenta em casa teve origem no interesse em conhecer como tudo funcionava. Curiosidade, desejo de escrever sobre o tema, de compartilhar tais novidades com leitores que também ficassem curiosos e levassem adiante a prática. Me identifiquei com o termo "curiosidade jornalísitica" no sentido de perceber, em meu desejo de fazer o pão desde o fermento, a vontade de conhecer a fundo todas as etapas da aventura. Observar, tomar nota dos detalhes, seguir a evolução do passo-a-passo. Aprender algo para escrever sobre suas entranhas é parte de quem eu sou: acima de tudo, pela minha característica de ser curiosa.

Sinto gosto de participar das coisas do mundo, de saber os porquês, as raízes. Como era, como passou a ser, como será. Nas transições temporais entre o antes e o depois, o ancestral me provoca, fico morrendo de vontade de ir até lá onde algo teve início, espiar a vida nas mãos dos antepassados e voltar para contar como faziam. E já que essa viagem não é possível, me interessei de modo profundo e anímico pelo universo da cozinha, quase uma trilha aos nossos ancestrais, dentro de nós mesmos.

Fazer o próprio fermento, fazer o próprio pão, descobrir como se faz queijo fresco em casa, produzir a geléia de laranja. E chegar a um objetivo delicioso, mas prosaico: oferecer, no café da tarde, sobre a tábua de madeira, meu pão rústico, o queijinho recém-feito e o pote com o doce. O porquê deste querer? Encontrei reflexões interessantes para justificar esse desejo, a partir da leitura da obra ensaística "Íntimas suculências", da escritora mexicana Laura Esquivel. Laura é autora também do renomado romance "Como água para chocolate". 

No texto "O Maná sagrado", em "Íntimas suculências", ela refere: "O sentido profundo da alimentação em alguma medida tem a ver com nossa sede de eternidade, cifrada na manutenção cotidiana da vida." e "O desfrute da comida tem laivos de vida eterna. Por isso é fundamental não só o ato em si de comer, também o é a cerimônia que implica preparar e compartilhar os alimentos." Das diversas expressões da autora nos ensaios, uma das que mais me toca é esta:
"Creio que para nenhum de nós seja estranho pensar que através dos aromas que compartilhamos com nossos semelhantes, dos sabores dos alimentos e da substancial presença da divindade neles, como seres humanos podemos ter, dia-a-dia, uma pequena antecipação do paraíso.".

Quando me refiro à ancestralidade, estou falando na presença do ritual do cozinhar, cuja representação existe em todos nós. A existência de um ritual pode ser compreendida como a celebração de uma memória ancestral, por parte de um grupo e em cada um, como homo sapiens. Tal entendimento tem associação com o cozinhar e com o partilhar o alimento, com a reunião da família em torno da comida e com a repetição das práticas culinárias que, mesmo evoluindo ao longo do tempo, remontam o primordial tornar o cru em cozido.

 E por que isso é importante, em nosso Terceiro Milênio?

No ensaio que dá nome ao livro, "Íntimas suculências-tratado filosófico de cozinha", Laura Esquivel traz uma reflexão que nos possibilita pensar respostas possíveis para essa pergunta. Falando sobre o Novo Humano, que chegasse ao fim do século passado- e do milênio passado- com preparo para construir um novo tempo, Esquivel disse: 
"Esse novo teria que saber de onde vem e para onde vai. Teria que estar em comunhão alimentícia com o seu passado, conectar-se com sua origem, e isso já não é possível. Perdeu-se o rito. A cerimônia. A modernidade acabou com ela. O homem está perdido em um labirinto de produtos idênticos. (...).Nós, Seres Humanos, buscamos desesperadamente a saída.
Existe um fio para nos conduzir a ela e este é nem mais nem menos que a nostalgia pelo passado. A nostalgia tem a ver com tudo o que perdemos, com os ritos, com o íntimo, com o pulsional, com o feminino. Nos urge recuperar uma relação mais individual e mais humana com a natureza. (...) Resgatar o poder criativo do fogo e levá-lo ao lar. Recuperar a cozinha como um espaço de conhecimento onde se faz arte e vida. Onde se unem os produtos da terra com os do ar, o presente com o passado."

Na reflexão deste post, a ideia é incluir, no ato culinário, a riqueza do rito, do ancestral, do passado, agregando essa essência ao presente. Não me refiro a negar toda a evolução que atingimos, até nossos tempos de século XXI, como forma de atingir esse objetivo. Refiro-me, isto sim, a incluir em nossa prática cotidiana elementos que nos conectem com nossa humanidade mais profunda, integrando presente e passado na elaboração do alimento. 

No próximo post, sigo este caminho, falando mais no Michael Pollan, no movimento Slow Food e nas práticas que proporcionam o pensar e realizar a desaceleração, a partilha e o saborear em nosso mundo ultraveloz. Ainda bem, hoje temos maior consciência da necessidade de tocar a vida com as mãos, lentamente.

Acredito que o atual destaque à fermentação natural para o pão tenha forte raiz nesse retorno ao antigo e ao lento dentro de nós. 
Tomara.

Com carinho,
Betina


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