quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Sobre "A Fisiologia do Gosto", de Brillat-Savarin: folheando sabores



Pois a postagem anterior surge de um instante mágico: esperando o almoço chegar, coloquei sobre a mesa uma das minhas leituras culinárias favoritas: "A Fisiologia do Gosto", de Brillat-Savarin, livro de que já falei algumas vezes aqui no blog. E, quando vi, era a obra que ocupava o espaço de prato principal, posicionada sobre o jogo americano de palha leve. O guardanapo de tecido, um xadrezinho preto e branco, exibia-se de soslaio, na intimidade da mesa posta. Num relance, percebi no conjunto uma harmonia de cores, de sensações, de prazeres. Porque, se a Literatura nos alimenta, isto é ainda mais real quando falamos nestes escritos sobre a fisiologia do gosto. 

O livro é da editora Companhia das Letras, e meu exemplar é de 95. 

O texto nos faz adentrar no cerne de temas alimentares, vezes cotidianos, vezes inusitados, mas todos os capítulos (que o autor chama de "Meditações") são interessantíssimos, por serem uma reflexão apurada sobre o comer, o saciar, o saborear, e por aí vai. 

Fundamental é a leitura sobre os sentidos, de peculiar abordagem feita por Brillat-Savarin. Agora, há também que avançar os olhos para "Do Apetite", "Teoria da Fritura", "Da sede", "Sobre o fim do mundo", "As Damas", "A Digestão", "Da influência da dieta sobre o repouso, o sono e os sonhos", "Mitologia Gastronômica", e tantos outros. Quem folhear o livro, vai se surpreender- e eu apostaria isto- com os títulos e subtítulos, e não poderá interromper o paginar afoito, buscando outros assuntos e seus nomes curiosos. Por exemplo? "Virtude erótica das trufas", Influência da Gastronomia sobre a felicidade conjugal", "Influência financeira do peru", "efeitos da Gastronomia sobre a sociabilidade"...O índice parece, ao menos para mim, o mapa de uma cidade desconhecida que desejo explorar de canto a canto: leio a chamada "Longevidade anunciada aos gastrônomos", e fico imaginando o que o autor terá a dizer de tão único neste quesito. O índice também é como um  cardápio, vamos degustando cada nome, sentindo a vida de cada sabor imaginado, de cada título.

Esta obra é pura filosofia, através dos assuntos da mesa. Na orelha, encontramos: "(..) um elogio à amizade, à moderação, à delicadeza e à elegância, temperado com certa linguagem científica da época e com o indisfarçável prazer da boa mesa e pratos refinados".

E foi, num ato casual e repentino, que deixei o livro ocupar o centro da mesa enquanto o almoço não vinha. Acarinhando as páginas na passagem lenta de uma a uma, percebi que as "Meditações" do autor nos conduzem a percursos mágicos dentro de nós mesmos, e não apenas sobre a alimentação. É a nossa vivência humana na relação com o prazer que está ali expressa, em meu entender. 

Enfim, é uma leitura a ser vivenciada, esta. Com mastigares lentos, saboreantes, gostos reais ou imaginários, consistências muy particulares. E com força anímica para sentir o texto, com sua delicadeza e profundidade.

Depois de ter lido um dos capítulos, meu almoço chegou, e saboreei com demora cada nuance. Acho que 'sentir o sabor' vai bem além da referência aos sentidos presentes no comer: trata-se do sentimento que nasce, em nós, ao degustarmos a refeição também com nossas emoções, memórias, experiências, aspectos envolvidos neste conceito.

Bom, acho que o sabor é, sim, uma forma de sentimento pela comida. E esta obra nos faz pensar sobre isto.


Bom proveito!

Com carinho,
Betina

                     

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