terça-feira, 13 de maio de 2014

Visitando anotações de viagem!

Olá! Os escritos no blog têm sido mais espaçados, neste trimestre, mas minhas observações culinárias seguem rotineiras: tomo notas em uma cadernetinha que guardo na bolsa e, cá e lá, sinto que há semente para um novo texto. Uma das coisas boas deste meu novo hábito é a pratica da escrita com caneta, em folha pautada - há quanto tempo eu vinha escrevendo nos teclados...outra descoberta nascida das notas é a intimidade com os registros em forma de diário,  costume surgido em viagem, especie de roteiro de sabores vivenciados.

Sim, vivenciados. Mais do que sentirmos um sabor, o que fazemos quando comemos algo é um processo que abrange nossa fisiologia, nossa psique,  nossa historia pessoal e coletiva, nossas memórias de infância e aquelas de alcova, nossa Literatura, e por aí vai...o sabor conta de nós tempos depois de uma experiência gustativa, porque o sentimos- e o registramos- com todo nosso ser, ele passa a existir como parte de nós. Talvez seja algo parecido com o êxtase do apaixonamento misturado à força calma e perdurante do amor, e não é exagero...o sabor carimba uma cena, e vamos associar esta ou aquela paisagem com a memória afetiva do que comemos ali, e com quem, com qual estado de espirito- sozinhos ou acompanhados, melancolicos, íngremes ou alegres?

Pois é,  uma das notas de cadernetas antigas  me remetia a uma visita à Queijaria Mas Alba, na provincia de Girona, na Catalunha, onde fui para escrever sobre a culinária regional. Folheava, dia desses, notas do período,  e foi incrível perceber como o sabor tambem fotografa- e nos fotografa. Me dei conta de que, ao contar o que sentia enquanto saboreava uma lauta refeição entre amigos-os proprietarios da hospedaria e Queijaria Mas Alba e um grande amigo da familia-, contei de como me senti na cena, através das receitas preparadas pelo grupo. Para além de fascinante a experiência,  o que havia naquela celebração era mágica, era harmonia, era entusiasmo, e pude perceber a riqueza do momento mesmo que os integrantes conversassem em Catalão. O idioma, na cozinha e na sala de jantar, era outro: o idioma era o sabor construido em conjunto, na atmosfera de forno-e-fogao, e partilhado entre risadas e boas conversas.

Há muito o que contar, e as novidades vêm a galope, mas hoje, relendo cadernetas antigas, mais uma vez senti a força revolucionária que o ato de saborear exerce em nossa intimidade. Por sua vez, quando escrevemos sobre isto, a evocação das memórias surgidas pelo texto gera em nós sensações semelhantes àquelas de quando experimentamos o prato, porque temos a lembrança ja interiorizada. Então, a vivência do que comemos conta sobre a cena, e conta sobre nós,  também. E, no caso das anotações manuscritas, este contar nasce com a nossa letra. Daí o beneficio de um diário de impressões culinárias. Ja experimentou??

E como temos um belo arsenal para a imaginação em nosso cérebro, todo este processo funciona quando lemos sobre sabores desconhecidos-criamos a figura do que estamos lendo, pela voz de um narrador interno, só nosso. Isto é especialmente verdade para mim ao "devorar" o livro de memorias culinárias de Josep Pla, escritor catalão de grande e merecido destaque no Sec. XX, "Lo que hemos comido".

Sobre o livro de Pla? Ah, esta é uma outra conversa...!

E você:  como percebe os sabores marcantes de sua historia?

Com carinho, agradeço a visita,

Betina







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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina