quarta-feira, 14 de maio de 2014

...e por falar em sabores: releituras possíveis!

Depois do texto de ontem, sobre os registros de sabores em uma caderneta, numa viagem ou mesmo na rotina, pensei nas receitas que temos internalizadas, mas sem qualquer anotação.  Mais uma vez, a lembrança de que não temos muitas das receitas da Vó Leia  por escrito, tendo que "tocar de ouvido" ou, na melhor das hipóteses,  tendo que recorrer à 'memoria das mãos', como na Pizza de sardinha. Pois procurando reeditar as saborices da Vó,  fui encontrando riquezas pelo caminho. Uma destas foi receber as dicas da Dona 'Lola' sobre os figos cristalizados, no final do ano passado, resultando em uma experiência muito prazerosa de revisitar os figos da Vó. A mãe reproduziu o doce de laranjas azedas, também com os toques da Dona 'Lola', e ficou parecidissimo ao original...fizemos a torta de amendoim com ovos moles e ameixa, há dois anos, adivinhando as quantidades...

E por aí vamos...descobrir, reinventar, fazer a olho, recordar: todos são resultados da ausência de registros escritos, e, ainda bem, da presença da memória,  individual e coletiva, deste ou daquele prato, deste ou daquele doce. Disse ontem, e de fato acredito nisto: o sabor nos fotografa, sim. O sabor captura uma imagem fiel de nós,  de nossas emoções à primeira mordida. Ficamos carimbados nele e, num próximo encontro, mesmo que muito tempo depois, nos reencontramos com a  memoria que temos dele. E com a memória de nossas percepções mais escondidas. É um encontro conosco, no fim das contas, com nosso saborear mais profundo e com a vivência que ele traduz.

Releitura dos figos cristalizados da Vó Léia
Há outro ponto muito especial neste resgate: a receita montada "a várias mãos", pela composição das lembranças de tias e primas que conheciam as delicias feitas pela Vó e, muitas vezes, lembram ainda do "como-se-faz". Para mim, este é um dos melhores aspectos de redes sociais como o Facebook, a possibilidade desta partilha online de detalhes culinários que habitam os registros familiares, na azáfama do cotidiano que vivemos hoje. Nem sempre é possivel organizar o reencontro 'ao vivo', mas como é precioso lançar uma pergunta sobre as medidas de uma receita e, em seguidinha, colher respostas e lembranças de uma prima, dicas de outra, comentários de uma amiga da vida toda que conheceu a Vó. Tudo em tempo real, primas e tias pelo lado da Vó Leia e pelo lado do Vo Hélio, como se estivéssemos naquelas conversas na mesa da copa. De um modo virtual, se instala a realidade da partilha: das recordações,  dos sabores vivenciados, das mesas de café da tarde em que a chimia de uva reinava, viçosa, sobre a fatia do
 pão-de- meio-quilo, com  o miolo macio e a casquinha crocante.

Os figos, na panela...
O doce de laranjas azedas...
...o mesmo doce, em foco!
A pizza de sardinha...
 Todas as reedições dos quitutes da Vó envolveram o compartilhamento de resgates e de prazeres sentidos na memória, sempre houve a colaboração  de alguém que deu uma receita parecida, de outro que disse "faz-assim, faz-assado", de um sabor que conta a propria história através dos registros coletivos, na familia.

Gracias a todos que participam, quer trazendo detalhes, quer partilhando a leitura de minhas revisitas...

A próxima receita? Será a chimia de uva, classica da Vó, de que ja descobri as medidas por lançar a pergunta no Facebook...aproveito para agradecer à prima Lucia Fiorenzano, por ter me dado a pista! Quem mais se aventura a colaborar, contando dicas do preparo?

Obrigada pela visita!
Com carinho,
Betina

terça-feira, 13 de maio de 2014

Visitando anotações de viagem!

Olá! Os escritos no blog têm sido mais espaçados, neste trimestre, mas minhas observações culinárias seguem rotineiras: tomo notas em uma cadernetinha que guardo na bolsa e, cá e lá, sinto que há semente para um novo texto. Uma das coisas boas deste meu novo hábito é a pratica da escrita com caneta, em folha pautada - há quanto tempo eu vinha escrevendo nos teclados...outra descoberta nascida das notas é a intimidade com os registros em forma de diário,  costume surgido em viagem, especie de roteiro de sabores vivenciados.

Sim, vivenciados. Mais do que sentirmos um sabor, o que fazemos quando comemos algo é um processo que abrange nossa fisiologia, nossa psique,  nossa historia pessoal e coletiva, nossas memórias de infância e aquelas de alcova, nossa Literatura, e por aí vai...o sabor conta de nós tempos depois de uma experiência gustativa, porque o sentimos- e o registramos- com todo nosso ser, ele passa a existir como parte de nós. Talvez seja algo parecido com o êxtase do apaixonamento misturado à força calma e perdurante do amor, e não é exagero...o sabor carimba uma cena, e vamos associar esta ou aquela paisagem com a memória afetiva do que comemos ali, e com quem, com qual estado de espirito- sozinhos ou acompanhados, melancolicos, íngremes ou alegres?

Pois é,  uma das notas de cadernetas antigas  me remetia a uma visita à Queijaria Mas Alba, na provincia de Girona, na Catalunha, onde fui para escrever sobre a culinária regional. Folheava, dia desses, notas do período,  e foi incrível perceber como o sabor tambem fotografa- e nos fotografa. Me dei conta de que, ao contar o que sentia enquanto saboreava uma lauta refeição entre amigos-os proprietarios da hospedaria e Queijaria Mas Alba e um grande amigo da familia-, contei de como me senti na cena, através das receitas preparadas pelo grupo. Para além de fascinante a experiência,  o que havia naquela celebração era mágica, era harmonia, era entusiasmo, e pude perceber a riqueza do momento mesmo que os integrantes conversassem em Catalão. O idioma, na cozinha e na sala de jantar, era outro: o idioma era o sabor construido em conjunto, na atmosfera de forno-e-fogao, e partilhado entre risadas e boas conversas.

Há muito o que contar, e as novidades vêm a galope, mas hoje, relendo cadernetas antigas, mais uma vez senti a força revolucionária que o ato de saborear exerce em nossa intimidade. Por sua vez, quando escrevemos sobre isto, a evocação das memórias surgidas pelo texto gera em nós sensações semelhantes àquelas de quando experimentamos o prato, porque temos a lembrança ja interiorizada. Então, a vivência do que comemos conta sobre a cena, e conta sobre nós,  também. E, no caso das anotações manuscritas, este contar nasce com a nossa letra. Daí o beneficio de um diário de impressões culinárias. Ja experimentou??

E como temos um belo arsenal para a imaginação em nosso cérebro, todo este processo funciona quando lemos sobre sabores desconhecidos-criamos a figura do que estamos lendo, pela voz de um narrador interno, só nosso. Isto é especialmente verdade para mim ao "devorar" o livro de memorias culinárias de Josep Pla, escritor catalão de grande e merecido destaque no Sec. XX, "Lo que hemos comido".

Sobre o livro de Pla? Ah, esta é uma outra conversa...!

E você:  como percebe os sabores marcantes de sua historia?

Com carinho, agradeço a visita,

Betina