sábado, 25 de janeiro de 2014

Salada de feijões: uma experiência revolucionária...

Olá! Hoje é um dia chuvoso e fresquinho em Porto Alegre, um sossego neste verão quase inescrupuloso que estamos vivendo...Pois almocei no restaurante  Le Bistrot, que nos finais de semana oferece uma mesa de entradinhas espetacular, além das saladas e pratos quentes super saborosos. Nesta época do ano, me apetecem muito mais pratos frios, e principalmente verduras e legumes. E sabe o que mais? Adoro quando um cardápio se adequa ao clima do dia, e foi o que percebi hoje. Entre outras saladas que me despertaram, estava uma, para meu paladar, inimaginável, mas muito apropriada para um dia chuvoso de verão: salada de feijões. Por puro preconceito, e nem sei por que, eu nunca me serviria de salada de feijões, em outros tempos. E hoje me vi desafiada, já que tenho pesquisado este tema culinário aqui para o 'Serendipity in Cucina'. Mais do que desafiada, me senti 'em missão', devendo provar a salada para contar aos leitores minhas impressões. 

A bem da verdade, quando nos tornamos pesquisadores, exploradores de um campo, os fenômenos adquirem um diferente contorno: ao invés de olhar para a salada como algo que nunca me apeteceria, me propus a experimentá-la com curiosidade, disposta a identificar suas características e potenciais, disposta a degustar seu sabor, simplesmente. Confesso: tenho relutância em gostar de saladas de massa, ou daquelas com arroz ou...com feijões. Já parto do princípio que são ideias que não combinam, para meu gosto. E relutava em mudar esta concepção, até começar a estudar sobre o capítulo 'saladas', em vários livros de diversas origens e autores. É fundamental estarmos disponíveis para as sugestões de um cardápio, e podemos incluir receitas em nosso caderno quando abrimos lugar para o novo. Quando escrevi, há uns dias atrás, sobre a Salada Niçoise, referi que uma das versões nos livros era com feijões, e posso afirmar que pensei 'nuuuunca arriscaria', mas com muita curiosidade pela estranheza da combinação.

Fui de coração aberto para o experimento, e adorei a salada de feijões!!!! Continha feijões brancos e vermelhos; cebolas pequenas, cortadas em rodelas finas;  tomate concassé (tomate picadinho, sem pele e sem semente), e salsinha. Uma lindeza a combinação das cores e formas, o equilíbrio da textura  firme dos feijões branco e vermelho com aquela do tomate, macia. Cores predominantes: branco e vermelho denso, com pinceladas de verde. Conheci o inusitado prazer de saborear o feijão em uma salada, algo para mim, até então, impensável. Por puro preconceito, admito, para mim feijão era feijão-prato quente e forte- e salada é salada-prato frio e leve. Para nós, brasileiros, 'feijão' é mais do que um ingrediente na culinária, é um símbolo de muita força  cultural (pensemos no 'arroz com feijão', 'feijoada', 'caldinho de feijão': sabores viçosos, corpulentos, invernais..). Puro preconceito e inflexibilidade, até começar a estudar as possibilidades que temos em uma receita de salada!!!! O tempero era simples: um bom azeite de oliva e um vinagre suave, e foi usado na medida certa, sem sobrecarregar o conjunto. Brincando com a palavra, foi usado com temperança, o que faz muita diferença no resultado final de um prato. 

Adorei ter saboreado uma nova combinação, e mais: amei ter incluído, no meu caderno de cozinha, esta ideia. Em linhas gerais, percebi como a pesquisa, a observação e o propósito curioso nos tornam mais abertos para a ampliação de nosso cardápio de refeições e, por que não dizer, ao nosso cardápio de vida. Esta página dos livros culinários, que eu sempre passava com certo descaso, torna-se página de investigação e criatividade, e já penso em quais outras misturas posso inventar com os feijões, quais temperos cabem nas misturas, etc.

Acho que, se estamos em viagem, nos propomos mais a novidades como esta de hoje, a ousar nos restaurantes, pedindo quitutes fora dos padrões rotineiros. Me arrependo até hoje de não ter tido mais abertura à experiência de saborear o Haggis, prato tradicional da cozinha escocesa, quando fui à Edimburgo para um congresso, em 2006. Tenho convicção de que não apreciaria, mas meu arrependimento foi de não ter tido coragem e disponibilidade para pedir um destes in loco. Considero que estas experiências, como viajantes ou em nossa condição cotidiana, ampliem nosso cérebro. Como assim?  Novos ingredientes podem significar, para o cérebro, mais elementos a conhecer, a identificar, a reconhecer, a armazenar e a evocar no futuro, em uma nova experiência culinária ou no pedido em um restaurante. 

Penso na importância de assimilarmos novos ingredientes em nosso campo de sabores pela comparação com a aquisição de palavras no aprendizado de um idioma. Quanto mais aprendemos, mais ferramentas adquirimos para desenvolver a comunicação e o domínio de uma língua desconhecida, até então. Assimilar novos ingredientes diz respeito à ampliação de nosso campo de sabores, de sensações, e isto importa na construção de nossa capacidade de saborear um prato, ou mesmo de saborear uma experiência, como quando visitamos um lugar que nunca imaginamos que poderia nos agradar. Em algumas viagens, como esta que citei ou em outras, fui bastante resistente a 'elementos estranhos' nas receitas, e perdi de provar várias especialidades dos locais onde estive, pois o medo superava a curiosidade culinária. Claro, sempre se deve provar com parcimônia e respeito à saúde, à higiene e às intolerâncias alimentares, sem dúvida, mas muitas vezes, quando em viagem, resisti a pratos típicos por pura resistência. A mesma que eu tinha até hoje quanto a usar feijões na salada. 

Bom, fica a reflexão e, como ideia, a proposta de uma salada semelhante: que ingredientes você combinaria com os feijões? E qual tempero usaria?

E para você, qual elemento ou combinação é impensável, como era para mim a salada de feijões?

Bom Proveito!

Com carinho,
Betina


2 comentários:

  1. Betina, tenho resistência a alguns alimentos: saladas com arroz ou massa, berinjela, rabanete, arroz com leite ou arroz com pêssego.
    Arroz, para mim, é comida salgada. Não combina com doce, embora tua avó Alda e a minha mãe adorassem também arroz com pêssego.
    Na minha casa, a Semana Santa não existia para minha mãe se não tivesse arroz com pêssego.
    Berinjela e rabanete nunca comi e não faço a mínima questão.
    Então temos coisas em comum, como a resistência ou preconceito a alguns pratos.
    Ah, ia esquecendo: acho linda a comida japonesa mas não tenho coragem de comê-la. É muita coisa crua para o meu paladar.
    Beijos

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    1. Querida Carminha! Gracias pelo comentário, adorei! Lembro do arroz com pêssego, acho que era o Origoni! Fizemos aqui em casa, dia desses, em homenagem a ela!! Achei muito interessante o que contaste sobre este arroz como prato na Semana Santa, pra tia Lelinha! Incrível como em cada receita há mesmo uma história!

      Sobre a comida japonesa, tenho uma lembrança peculiar: nunca tinha comido, e tinha forte preconceito, até 98: em uma janta de reconciliação de um namoro, fui convidada a um restaurante japonês...Querendo que desse tudo certo, fui disposta a me abrir para a experiência gastronômica! E o engraçado é que gostei, de fato! Não sei se porque a janta de reconciliação foi positiva, e então a memória que ficou registrada foi feliz, ou se porque fui disposta a apreciar, ou pelos dois motivos...Desde lá, gosto da culinária japonesa, embora não seja minha favorita. O aspecto emocional e a memória também compõem a experiência do sabor, por isto talvez a experiência positiva da reconciliação tenha ficado armazenada junto do prazer de saborear a comida japonesa!

      Sobre a beringela, eu adoro! Agora, rabanete é algo que só há pouco comecei a apreciar, também quebrando resistências...e adoro arroz de leite!

      Arroz e massas, em saladas, para mim ainda são um desafio a vencer...quem sabe a partir de hoje dê certo?

      Obrigada pela visita! Beijos,
      Betina

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina