segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Devaneando sobre "Hors D´oevre"...

Acepipes são minha perdição na cozinha...E, confesso, nos restaurantes também. Tenho encantos, justamente porque 'abrem' a refeição, despertam o paladar para o que vem a seguir...Nos livros de receitas, muitas vezes, inauguram as páginas, incitando o leitor a percorrer os capítulos, um a um, embalados pelo entusiasmo do início. E o que é 'Antipasto'- 'antes da refeição-, e 'Hors D´oevre'- 'fora da obra'-, para mim é a etapa primordial do prazer à mesa. A bem da verdade, é o despertar do apetite, pelo sabor convidativo dos quitutes da entrada, a provocação aos sentidos, o degustar sem-pressa de iguarias que nos surpreendem, demorando-se na boca. 

A escritora chilena Isabel Allende, no seu livro "Afrodite", faz uma bela abertura ao capítulo de "Hors
D´oevre", comparando esta etapa aos beijos e preliminares de um encontro amoroso. Pois acho que outra comparação válida seria pensar nas entradas como a vivência inicial de um relacionamento afetivo, em que o casal começa a conhecer os sabores e sutilezas entre si...em que a aproximação gradual vai 'abrindo o apetite' para o que segue, deixando ambos com a curiosidade e o desejo de prosseguir às etapas seguintes da relação. Este momento não deveria durar nem pouco tempo, que apressasse os  momentos vindouros, nem muito, que desanimasse os 'comensais' para o 'prato principal', o amor em essência. As entradinhas seriam, nesta comparação, a descoberta que um faz do outro, o mistério, a vontade de provar os vários sabores do antipasto/relacionamento.

Há um misto de entusiasmo e espanto, um desejo de provar de tudo, saboreando devagarinho cada elemento...No entanto, se permanecemos nesta parte da refeição, sem evoluirmos para as seguintes, desanimamos nosso paladar, antes desperto. Por quê? Bom, ao experimentarmos as entradas, sabemos que a seguir haverá algo intenso, consistente, e esperamos pelo prosseguir...quando este prosseguir demora, o estímulo aos sentidos fica atenuado, pois carece dos elementos 'novidade', 'surpresa', 'descoberta', 'curiosidade'. Custando a chegar o prato principal, começamos a repetir os aperitivos, e o sabor da longa espera cansa o paladar. De outro modo, uma entrada rápida demais, logo seguida pela refeição, deixa o comensal sem  a calma necessária para acordar o prazer aos sabores, e a pressa inquieta a etapa que deveria ser mansa, delicada, de aproximação.

Tudo tem seu tempo próprio de existir, e a graça é valorizarmos a duração de cada vivência: sem antecipar as seguintes, ou  sem alongar cada uma em demasia. 
Tempo, tempero e prazer em doses exatas, nas refeições e nos amores...

Com carinho,
Betina


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