domingo, 17 de novembro de 2013

Voltando para a cozinha!!!

Depois de um bom período de correrias e de mudanças de vida, voltei à cozinha, neste mês de novembro.  Diz o escritor moçambicano Mia Couto, em um de seus contos, 'Cozinhar não é serviço. Cozinhar é um modo de amar os outros': na culinária, há vida na entrega, na disponibilidade para o preparo; há pulsação  nas palmas das mãos que tocam o alimento. Fazemos a comida com amor a quem a receberá. Com amor e com desejo pelo ingrediente.

E não  é sempre que estamos afinados com o ato culinário. A meu ver, muito depende de como estamos conosco. Por exemplo, tanto para uma viagem quanto para a cozinha, é preciso que façamos conexão com nosso tempo interno: um espaço subjetivo em nós, onde é possível o livre acesso ao mundo dos sentidos e dos sentimentos. Se chovemos ou ventamos, a conexão falha, pois este espaço quer nossa presença vibrante, atenta ao alimento. Para mim, é esta atenção, esta plenitude no ato de cozinhar que permite que o amor seja transmitido ao nosso preparo. 'Entrega' é a palavra de ordem: assim como o mapa deve guiar o viajante em seu percurso, na culinária o mapa é o conjunto de nossos sentidos.
 E este é o ponto: seja para fazer algo para oferecer a outros, seja pelo fazer em si, a cozinha requer  atenção e amor, pleno e irrestrito. Isto é possível apenas quando estamos disponíveis para tal, no campo anímico, afetivo, físico. Leia-se: vezes sim, vezes não.

Bom seria se pudéssemos fazer como a Dona Lola, 'estarmos ali, e pronto'. E ela clama: 'do resto a vida se encarrega!'. Não está nem no antes, nem no depois: está cuidando de seus doces, no exato instante em que lhes dá vida. Um amor incondicional, parece. Acontece que a Dona Lola é personagem, não é tão de-verdade assim: fosse de carne-e-osso, teria amor perene para dar??

Afinal de contas, temos nossas intempéries...

Neste post, refiro-me ao amor específico que colocamos na comida, mas saliento: na origem, está nossa capacidade de amar, de dar e de receber amor.

No meu sentir, esta capacidade resulta do espaço que criamos aqui dentro, para acolher o novo. Em épocas de revolução interna -em nossa rotina, trabalhos, relacionamentos, decisões-, a bagunça é tanta que as emoções saem do lugar, se desalojam; no movimento, esvaziamos campos em nós,  dando nicho ao desconhecido. O vazio é fundamental, permite que tomemos contato com nosso mundo interno, com nosso tempo interno. É quando surge espaço para o amor, aquele de nós para nós,  e então aquele de nós para o outro.

 E ali estão o ingrediente, a cozinha, a receita, o apetite, esperando para entrar em cena.

Na culinária, a entrega ao processo traduz-se na aproximação com o comensal, com o alimento, com a comida, com a partilha de nós e do que preparamos.

Por isto vim para a cozinha só agora: enxerguei o vazio corpulento, grande, vivo. Pronto para ser tomado por uma força maior, o desejo pelo ingrediente. 

E não é deste modo que começam as paixões?

Com carinho,
Betina

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