domingo, 10 de novembro de 2013

Os figos cristalizados da Dona Lola!

Era coisa de dois meses que a Dona Lola não passava pela rua com sua sacola de frutas para vender. Foi em meados de agosto que subiu a quadra melodiando seu 'Laranja pra doooooooce!!!', e chamei-a com pressa, que não escapasse. Peguei as laranjas, perguntando seu nome e tomando nota do contato, 'Pode me chamar se quiser mais das laranjas.', ela sorriu, seguindo:

-Mas tem que lembrar: laranja é só por agora, tá terminando...abóbora ainda faço, tá na época, mas lá por novembro vou trazer os figos pro Natal!
-Os figos!-eu vibrei, logo me recordando daqueles históricos figos cristalizados de fim de ano, da Vó Léia.
-Eu trago por novembro, tem muita gente que pede. Se precisar, avisa antes, que pode ser que acabe em seguida, é muita gente pedindo, sempre por agora...
-Pois vou aproveitar que a Senhora tá aqui, então...Como é que eu preparo? Quanto de figo pra quanto de açúcar e de água? Quanto tempo no fogo?
-Bom, para uma quantidade de uns 100 figos, usa 2 kg de açúcar e água que cubra o figo. Eu já trago sem a casca, tem só que fazer uma cruz pequeninha, com a ponta de uma faca, na base de cada um. Cobre com a água, deixa duas horas em fogo baixo e depois apaga o fogo e deixa duas horas os figos ali na panela. Quando ficarem frios, reveste com o açúcar cristal. Fazendo assim, ficam uma delícia, e bonitos!!!

Um sorriso cresceu em mim: reencontrar o 'como-se-faz' dos figos da Vó, assim de surpresa, foi um presente de afeto, de história, de mágica. Agradeci, pedi que trouxesse os figos logo que começasse a vendê-los este ano.

E lá se foi a Dona Lola, com sua sacola de laranjas, percorrer a rua. 
Quarteirão a quarteirão, faz de seu serviço um reviver das histórias de família, por onde passa. Uma avó que fazia assim, uma tia que fazia assado: ali está a Dona Lola pra contar como se prepara tal doce, que a gente nem se lembra mais. Na sua voz, uma força  perene: a fala tem um calor manso, bom de ouvir.

As lembranças cintilam no ouvinte como as frutas que, viçosas, ganham vida nas mãos da senhora.
Será este seu segredo?

Com carinho,
Betina

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