sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O sabor é uma trama...

No último sábado, 03 de Agosto, tivemos a edição experimental da Oficina "As Tramas do Sabor", com um grupo de oito pessoas dispostas a participar da vivência como 'cobaias' de um processo em etapa de descobertas. Em muitos tons: eu descobrindo aspectos meus no preparo da atividade, e cada um desvendando, em si, caminhos de percepção pelos cinco sentidos. Melhor resultado? Houve a 'entrega' dos convidados para um experimento que toca o universo sensorial e que toca, também, o território subjetivo.

Falei nos cinco sentidos e na trama que formam para compor o fenômeno do sabor, em que estão incluídos elementos adicionais como a memória, as emoções, a linguagem, a consciência. Então, o sabor que sentimos ao mastigarmos um pedaço de bolo de chocolate é diferente, em cada um de nós; estão entremeados nele nossos registros de outros tempos, nossas emoções, as palavras e seus significados, nossa percepção de prazer. A captação das informações externas a nós, bem como a interpretação destas informações, dá-se pela atuação dos cinco sentidos; em nosso cérebro, esta interpretação encontra particularidades nossas, formando uma  gama de respostas, novas memórias, experiências. E, na própria qualidade de 'experiência', o sabor passa a fazer parte de nós, de nossos registros, de quem somos.

 E fiquei pensando, então: os sentidos são uma efetiva ferramenta autobiográfica, pois  'contam' o modo como sentimos os estímulos visuais, táteis, olfativos, sonoros e gustativos; contam nosso modo de perceber o mundo, de decodificar informações. Descubro se o gosto amargo do café me causa prazer ou repulsa, então descubro do que gosto e do que não gosto. Descubro mais a meu respeito. Lembro do cheiro do tomate e de sua representação na minha vida, evoco lembranças que me identificam. Contar de como sinto este ou aquele aroma é contar de mim, de como meu organismo 'lê' aquele estímulo e do que esta leitura me faz sentir. 

Na minha sensação, o fenômeno do sabor é o ápice desta possibilidade de autoconhecimento. Através dele, encontramos não apenas como percebemos este ou aquele sentido, mas a conjunção de dois ou mais elementos, além de aspectos de nossa subjetividade, já citados. Somos inteiros no sabor que sentimos. Desta 'inteireza' vem a necessidade de prestarmos atenção no que comemos, no que saboreamos; este é um modo de focarmos em nosso corpo, em nossa fisiologia. Se comemos apressados, sem perceber os sabores, as texturas, a consistência da mordida, perdemos um pedacinho de nós na refeição, perdemos a oportunidade de nutrir para além da fome de alimento. Se comemos preocupados com problemas, com a cabeça em prazos, frustrações, agendas apertadas, deixamos de estar presentes no comer, pois não estamos atentos ao trabalho dos nossos sentidos. E é este espaço que devemos resgatar em nosso dia, o espaço-tempo da refeição. 

Você pode me perguntar: mas o que fazer se não estou acostumado a prestar atenção aos sentidos? Posso aprender esta habilidade?

E esta é a questão: pode-se aprender a perceber os sentidos, sim, pode-se aprender a saborear. A educação sensorial é um caminho para este aprendizado, aliada à motivação consciente para a evocação de emoções, memórias, para o resgate do prazer puro e simples. Para o resgate da permissão de sentir o prazer na comida. O sabor é uma trama que reúne nossas percepções e registros, traduzindo-os no deleite que o comer propicia.

Para mim, aprender a saborear é trilhar um caminho para dentro de si mesmo.

E foi sobre este tema a oficina experimental do sábado.

Aos pouquinhos, vou contando mais detalhes!

Aproveito para compartilhar a matéria sobre a subjetividade na culinária, a partir de entrevista à Jornalista Luciele Copetti, do Jornal do CELG (Centro de Estudos Luís Guedes), em julho. O CELG é o Centro de Estudos do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da UFRGS, no Hospital de Clinicas de Porto Alegre, onde fiz minha formação em Psiquiatria, Psicoterapia e o Mestrado em Psiquiatria. 

Clique aqui!, a matéria está na última página

Com carinho,
Betina

2 comentários:

  1. Excelente... ainda reverberando o sabor do aprendizagem ...

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    1. Que bom, Ange!!!!!!!!! Gracias!!! Adorei tua participação!!!!!!!!!!!!!!!!!!

      Besitos, Bê

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina