sexta-feira, 19 de julho de 2013

"Laranja pra doooooce, Senhora?"



Há tempos, passa pela rua do consultório uma senhora vendendo laranjas, que clama, em alto e bom som, "LARANJA PRA DOOOOCE!!!!". Pois ela faz parte da melodia do bairro, junto ao afiador de facas, com sua música pungente, ou junto ao vendedor de doces caseiros, e a tantas outras figuras que  já se tornaram parte do nosso cotidiano. 

Numa certa sexta-feira de junho, a tal senhora abordou a mãe, que, de início, recusou e agradeceu. No entanto, mudou de ideia a tempo..."por que não?", pensou consigo, indo atrás da senhorinha. E, claro, aproveitou para perguntar seu 'como-se-faz'. Detalhe: para estes doces, costuma-se vender apenas a porção branca destas laranjas, que é espessa, firme e de gosto amargo. A casca é raspada, a parte interna extraída e a camada branca é 'preparada' para a venda. De preferência, com as devidas instruções...

Pois a senhora contou que é preciso deixar as laranjas  imersas (sempre se referindo à porção branca, apenas), trocando a água em torno de quatro vezes por dia, durante dois a três dias, para tirar o amargor intenso desta parte da fruta. Quando o processo é concluído, ela corta uma cruz na parte superior da camada branca e, então, dá uma fervura em todas elas. Faz uma calda, deixando-as envolvidas ali, em fogo baixo, por em torno de duas horas.
Ao final, temos um doce único, em traje de gala: um laranja nobre e cintilante, firme como um vestido bem modelado; há um sabor amargo, sim, mas este é equilibrado com uma doçura prazerosa, resultante do contraste entre o amargor da fruta e o doce da calda... A mordida é consistente, traz a constelação de sensações que esta sobremesa provoca: além da firmeza, percebe-se que a textura da calda fica impregnada nas laranjas, dando uma impressão duradoura ao morder. O perfume é robusto, caloroso, mas de um dourado sóbrio.

Dica: pode-se servir, dentro das laranjas, uma bola de sorvete de creme ou de chocolate amargo, como se o doce fosse o próprio recipiente. Além do sabor especial do conjunto, teremos também uma apresentação charmosa e original...

Bom proveito!!!
Com afeto,
Betina





2 comentários:

  1. Betina!!!
    Suspeitíssima pra opinar pois AMO este doce! Além disso conta que era uma das maravilhas que a mãe fazia, então...
    Agora, lendo teu texto todo este sentir foi literalmente ampliado: eu comi o doce pelo sabor da tua escrita!!!
    Bjssss

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    1. Lena, querida!!! Que prazer receber tua visita ao blog, ainda mais com este comentário tão carinhoso! Obrigada!!!!
      Fiquei imaginando como devia ser especial o doce da Tia Cenira, com toda a melodia que ela tinha na cozinha, nos quitutes...Cheguei a imaginar o cheirinho que a cozinha ficava durante o preparo!!!

      Gracias pelo depoimento, sempre me toca muito saber que tal doce ou quitute era a especialidade de alguém, era uma de suas maravilhas: isto traz aquilo que amo: "As histórias do como-se-faz"!!

      Grande beijo, fiquei emocionada!

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina