sexta-feira, 26 de julho de 2013

Homenagem de Hoje: Nossas Avós!

"Pequeno Alfarrábio de Acepipes e Doçuras", capítulo 'Nossas Avós'!

 Hoje, fiquei pensando na homenagem às avós, a escrever aqui no blog...Seus legados nas memórias de cozinha, nos sabores, na 'memória nas mãos', nas anotações: todos são registros valiosíssimos no meu encanto pela culinária. E foi por isto que fiz um capítulo no "Pequeno Alfarrábio de Acepipes e Doçuras', para compartilhar esta vivência atávica de evocar as avós nas cenas de forno-e-fogão. E, por sugestão da designer Évelyn Bisconsin, que criou o projeto gráfico do livro, o capítulo chama-se 'Nossas Avós', porque a homenagem é dedicada às avós de tantos de nós, que fizeram do cozinhar um processo alquímico, na nossa imaginação de criança...

Na abertura do capítulo, as receitas da Vó Alda, escritas por ela, datadas, assinadas e finalizadas com esmero: "Fim", dizia ela, ao concluir as instruções. Tão lindo foi receber estas receitas, pela  prima Carmem Lescano, que decidi colocar as relíquias na porta de entrada do capítulo, como um acolhedor 'Bem-vindo!'

 Pois partilhei as lembranças de minhas avós porque, de alguma forma, buscam traduzir emoções perenes que nutrimos pelas nossas avós: o aconchego, a transmissão de sabedoria e de experiência... o olhar que ensina e que acolhe as nossas escapadelas à beira do fogão...Quem não pegou um pedaço do bolo ainda quente, recém-saído do forno, sem a mãe saber? "Bolo quente dá dor de barriga!!!", mas a vó, com aquele riso manso, dá o pedaço de bolo com o ar de cumplicidade típico...E não?

Esta força emotiva é tão tradicional que há um dito culinário a respeito: "Vó é mãe com açúcar"...A doçura que há na relação entre as avós e os netos é esperada, é ancestral. A escritora americana M.F.K Fisher começa seu famoso livro, "The Gastronomical Me" ('O 'Eu"Gastronômico'), com um texto em que conta sobre as geléias feitas por sua avó e por sua mãe, nos verões, na casa da avó. E conta que uma de suas primeiras memórias de cozinha data de seus quatro anos: o preparo e a embalagem dos doces e, no 'durante' da feitura, a provinha que a avó dava a ela, em sua cor, cheiro, textura...

E sempre alguém tem uma história de sua avó, dos sabores que só "ELA" sabia fazer, irreproduzíveis pelas gerações seguintes...É simples: a força está em sua presença na lembrança do sabor, muito mais do que nos ingredientes por si, muito mais do que na mistura. Seguimos a receita, mas não fica igual, então nos contentamos com o 'mais perto possível do que a vó fazia': nosso propósito, de fato, está em não alcançar a perfeição, deixar o quitute com aquele 'mas-falta-alguma-coisa-ainda...". Falta sim, a AVÓ!

Como já contei algumas vezes, não peguei as receitas da Vó Léia, provavelmente por um motivo consistente: acreditávamos, lá no fundo, que ela sempre estaria ali para fazer suas delícias, não precisávamos aprender. Queríamos que estivesse para sempre ali, nas receitas que só ela fazia com 'aquele toque'. Claro, isto bem lá no fundo, nos campos do inconsciente. Por exemplo, não peguei a receita da chimia de uvas que ela fazia, mas lembro com vigor  de seu empenho, à frente da chama, girando e girando a colher de pau na panela...enquanto isso, na cozinha, sobrevoava o cheirinho demorado daquela doçura de cor roxa, cintilante e viçosa...Será que alguém ficou com a receita da Vó? Sempre me pergunto...

Lembro dos outros doces, do sabor de cada memória. Se fecho os olhos, consigo sentir a vida dos grumos dourados, na ambrosia da Vó Alda...

Há um espaço não-geográfico, um tempo abstrato, um entrelaçamento dos sentidos com as lembranças e com as emoções, quando evocamos os registros afetivos de nossas avós. Há magia nas receitas que não temos, que permanecem como um mistério irresoluto nas histórias de família. Há uma beleza única nas receitas escritas com suas letras detalhadas, em cadernos com linhas ou em folhas avulsas dentro de outros cadernos. E, para mim, o nome desta beleza é 'VIDA', a vida destas figuras que são perenes dentro de nós, através de nosso fazer culinário, através de nossas conversas de forno-e-fogão, através do 'como-se-faz' que as avós nos ensinaram...um 'como-se-faz' que seguimos reproduzindo, tempo afora, como um modo de mantê-las vivas no ato de mexer a chimia com colher de pau...

Hoje, no nosso fazer de seus acepipes e doçuras, ali estão elas, as Nossas Avós!

Com carinho,
Betina






2 comentários:

  1. Lindo texto e lindas memórias de tuas avós!
    Lendo,lembrei da minha avó, Adélia (avó Chininha), tia da tua avó Alda, quando vinha para a minha casa fazer pão caseiro e me dava um pedacinho de massa para eu fazer o "meu pão"! Ela fazia para mim bichinhos, bonecas... O que eu fazia parecia um "pão de centeio" (massa escura) e eu ainda queria que assassem para comer... Nunca esqueço!

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    1. Que lindo lembrares, Carminha!!! Estes registros ficam tão fortes que fazem parte de nossas mãos, da nossa pele. É a lembrança da criança brincando, e esta memória tem um valor inestimável!

      Gracias pela visita!
      Beijos!
      Betina

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina