sábado, 6 de julho de 2013

Aula de culinária na ferragem!!!

 

Dia desses, fui com a mãe à ferragem, na vizinhança, para finalizar a compra dos ingredientes para o doce. 
Ahn, na ferragem? 
Sim, estávamos preparando o Doce de Abóbora, daquele que leva 'cal virgem' para a porção externa ficar durinha, enquanto por dentro ele fica macio.
No balcão, atendeu-nos um senhor simpático, já de meia-idade; ao fundo, uma senhora bem alegre e despachada, que parecia ser sua esposa, estava atenta à nossa solicitação. 
O diálogo foi mais ou menos assim...

"Mãe- Boa tarde! Vocês têm cal para doce?
Senhor- Sim, daquelas ali, na estante.
Mãe- Mas há uma outra, que vem num envelopinho, não? De colocar direto no doce?"

Foi quando a senhora, ao fundo, entrou na conversa...

"Senhora-Acho que sei o que vocês estão procurando. Aquela não temos mais, é raríssimo de encontrar. A que se usa mesmo é esta, a do potinho. Ela é forte, tem que saber usar.

Mãe-E como a senhora faz?

Senhora-Bom, para uma bacia de abóbora, uso umas duas pedras de cal, se vou deixar de molho por duas horas. Se a abóbora vai passar a noite de molho na água com cal, aí se usa uma só pedrinha. Então, depende do tempo: quanto mais tempo a abóbora fica de molho, menor a quantidade de cal, senão o doce fica duro demais, e o processo perde o sentido.Os pedaços têm que ficar duros por fora e macios por dentro. E depende da quantidade, também: se é pra  meia bacia de doce, vou usar uma só pedrinha de cal, também, e não muito grande. 
Eu faço assim: primeiro, vejo a quantidade de abóbora, daí o quanto de água. Digamos que seja para uma bacia inteira, uso a mesma medida de água na panela. Coloco a cal ali, na água, e ela vai dar uns estouros, como umas explosõezinhas, que logo param. Dissolvo bem a cal na água, e então coloco os pedaços de abóbora ali. Mas cuidado: não pode furar a abóbora antes de ir para a água com cal, só depois de lavar e de passar umas três ou quatro águas! Deixo duas horas os pedaços de abóbora de molho na água com cal. Passado o período, troco a água umas três vezes, quantas quiser. Umas três ou quatro está bem. Umas quatro águas, digamos, para tirar bem a cal da superfície, quatro lavagens. E aí faço a calda. Furo os pedaços dela com um garfo, furo bem, e coloco estes pedaços na calda, quando esta ferver. Deixo cozinhando por duas, três horas, a senhora vai saber pela textura,quando o doce estiver pronto. Lembra que, se for pra deixar a abóbora 'dormindo' na água com cal, é uma pedrinha só. E tem que cuidar que no rótulo esteja escrito que é cal para uso culinário, como esta aqui. Faz tudo de luva, para não ter risco de se machucar com a cal. 
O doce fica bem direitinho, a senhora faz assim como estou explicando, sempre cuidando a quantidade de pedrinhas da cal que vai usar...quanto mais tempo do doce na água, menos cal; quanto menos quantidade de doce, menos cal...e assim por diante, seguindo esta lógica."

Saímos da ferragem bem faceiras, com nosso potinho de cal para 'uso em culinária', como dizia no rótulo...E o mais precioso de tudo: saímos dali com uma bela aula de cozinha em alguns minutos, a senhora nos contando seu 'como-se-faz' do doce de abóbora. 
São estas cenas que me encantam, este jeito de contar a receita como uma história, um 'faz-assim, faz assado' que é parte de quem conta, tão intrínseco que parece carimbado na pele. Seu jeito espontâneo de intervir na conversa, explicando o tim-tim por tim-tim do processo de uso da cal, nos deu a sensação de que aquela sabedoria está ali, pronta para ser contada, com uma naturalidade muito acolhedora. Por alguns instantes, senti como se estivéssemos todos nas velhas 'conversas na mesa da copa'. Junto com ela, o senhor falava, também, ou fazia com a cabeça um sinal afirmativo, bem feliz.

E sabem o que fiquei pensando? Que estes relatos, estas cenas, estão vivos por aí, disponíveis em nosso dia-a-dia. Basta que tenhamos atenção e foco no agora...podemos usufruir das 'Histórias do como-se-faz', mesmo nos lugares mais insólitos para uma aula de culinária. Como na ferragem, por exemplo...

Saí de  lá dizendo: 'com certeza, esta cena será um post do blog!'

:)

Obrigada pela visita!

Com carinho,
Betina



2 comentários:

  1. Maria Helena Martinssábado, 06 julho, 2013

    Betina, lembrei de minha avó Lucinda: fazia um doce de abóbora maravilhoso. E era assim, com cal. Mas sem tantos cuidados: acho que naquele tempo não havia cal pra " uso culinário". Até porque onde a gente buscava cal era nos prédios em construção perto de casa ...
    Beijo, Maria Helena

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    1. Querida Maria Helena! Obrigada!!
      Fiz um post em homenagem à tua colaboração! Fiquei lisonjeada com a visita e com o despertar desta tua memória! Gracias!!

      Beijos,
      Betina

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina