quarta-feira, 31 de julho de 2013

"As tramas do sabor": Desafio do Blog!



Boa tarde! 

Aproveitando o título da oficina sensorial, "As tramas do sabor", trago um desafio:

Responda, em escrita livre, as cinco perguntas...

1) Qual a diferença entre gosto e sabor?

2) E o que é o sabor?

3) O sabor pode ser compreendido como uma trama de diferentes fios? Por quê? 

4) Quais são estes 'fios' que, tramados, compõem o que percebemos como sabor? 

5) Que elementos subjetivos fazem parte da trama do sabor?

Participe, enviando as respostas até dia 15 de agosto para bmariant@terra.com.br .

Solicitamos:
Arquivo em Word, TNR12, espaço 1,5 , máximo de cinco laudas: o texto completo deverá conter as respostas às cinco perguntas.

                                    As melhores respostas concorrem à uma vaga na oficina                                          sensorial do dia 24 de agosto!

 Com carinho,
  Betina



terça-feira, 30 de julho de 2013

Oficina Sensorial: As Tramas do Sabor!

Olá, Amigos! Desejando partilhar minhas descobertas, estudos e percepções com vocês, montei a "Maria das Claras- Cozinha e Felicidade". 
O trabalho de concepção foi elaborado pela PortoDG, empresa que desenvolve os projetos da Casa Editorial Luminara, desde o início. Uma equipe sensacional! A Évelyn Bisconsin e o Eduardo Seghesio escutaram minhas ideias, pensaram junto comigo em perguntas, em soluções, em expectativas...e, principalmente, em sabores!!!

Mas então, o que é: 
Uma escola? 
Um selo editorial?
Um projeto-trajeto?
Um sarau culinário?
Uma roda de amigos?
Uma conversa na mesa da copa?

Um pouco de tudo, e outras ideias que vêm por aí...

Bom, talvez uma 'Escola dos Sentidos', dedicada a quem goste de cozinhar e também a quem goste de saborear 'as frutas de sua paixão', lembrando da frase de Santayana do post anterior.

Venham conhecer, participar de nossas atividades! 

Abaixo, o convite!

Se quiserem esclarecimentos, escrevam-me: bmariant@terra.com.br ! As inscrições ocorrerão pelo e-mail, também!

Com carinho,
Betina


Reflexão de Santayana: a dimensão das forças, as frutas da paixão, o lugar no mundo...

Bom dia!
Seguindo o caminho iniciado pela postagem anterior, de meu artigo no site suíço  "The Rambling Epicure"...
 Pois nos últimos dias tenho me perguntado quais seriam as minhas respostas ao desafio proposto pela autora M.F.K.Fisher na abertura de seu livro "The Gastronomical Me":
[Para ser feliz, você deve ter conhecido a dimensão de suas forças, experimentado as frutas de sua paixão e aprendido qual é seu lugar no mundo]
Santayana
(tradução livre- Betina MC)
Bom, estes três pilares reunidos na frase de Santayana são de atormentar. Para ser feliz devo ter experimentado as frutas de minha paixão

Ao lado da busca pela dimensão de minhas forças e por saber meu lugar no mundo, está a minha paixão pelo alimento, a consciência do sabor e da satisfação que desperta em meu mundo de prazer. Devo saber que sabor, que textura, que cor, que som, que cheiro, que gosto me fazem feliz, devo experimentar tantos figos, ou damascos, ou estes ou aqueles alimentos, até descobrir quais os de minha paixão.

Devo experimentar as sensações que o alimento provoca, como meus sentidos reagem às suas propriedades, que memórias renascem em cada despertar dos sentidos, que prazeres me tomam, e assim por diante... devo experimentar a vida do alimento, para descobrir a vida em mim e a vida em cada sabor descoberto pelo meu olfato, meu tato, minha visão, minha audição, meu paladar, minhas emoções, minhas lembranças...

Aprender a saborear nos enriquece de felicidade, nos enriquece de nossa consciência sobre nós mesmos, sobre o que gostamos, sobre o que faz vibrar nosso organismo. Vibrar não apenas em resposta à fome pela nutrição, mas também em resposta à fome pelo amor, pela proteção, pela segurança, como escreve M.F.K. Fisher, no prefácio do livro "The Gastronomical Me". 

Ter experimentado as frutas de minha paixão significa, em minha leitura, ter experimentado o que meprazer, regozijo

Quando aprendemos, com o alimento, a despertar a vida dentro de nós, também conhecemos mais de nós mesmos. A beleza está em explorarmos nossa força interna ao saborearmos as frutas de nossa paixão,  tanto quanto ao conhecermos a dimensão de nossas forças e ao aprendermos nosso lugar no mundo

O autor desta frase é, sim,  pungente na expressão de nossas buscas pela felicidade. Há vários dias, me pergunto respostas possíveis. Entretanto, a autora, Mary Frances Kennedy Fisher, acerta a mira em nossa perplexidade subterrânea, ao escolher esta sentença para abrir seu livro de  registros autobiográficos e de reflexões intimistas e familiares.

Sem dúvida, uma leitura transformadora, em mim.

E vocês: quais as frutas de sua paixão?

Com carinho,
Betina



domingo, 28 de julho de 2013

Meu artigo no site suíço "The Rambling Epicure" Visitem o site!

Bom dia, queridos amigos! 

Compartilho meu artigo no site suíço  "The Rambling Epicure", editado pela escritora Jonell Galloway! Estou muito feliz com a oportunidade de colaborar com este site, tem sido um desafio prazeroso pensar em novos temas, escrever, compartilhar meus escritos  com outros idiomas e perspectivas!

Visitem o "The Rambling Epicure", um site sobre Cultura Gastronômica e Alimentação Consciente, com colaboradores de várias partes do mundo! 

Um bom domingo!

Com carinho,
Betina

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Homenagem de Hoje: Nossas Avós!

"Pequeno Alfarrábio de Acepipes e Doçuras", capítulo 'Nossas Avós'!

 Hoje, fiquei pensando na homenagem às avós, a escrever aqui no blog...Seus legados nas memórias de cozinha, nos sabores, na 'memória nas mãos', nas anotações: todos são registros valiosíssimos no meu encanto pela culinária. E foi por isto que fiz um capítulo no "Pequeno Alfarrábio de Acepipes e Doçuras', para compartilhar esta vivência atávica de evocar as avós nas cenas de forno-e-fogão. E, por sugestão da designer Évelyn Bisconsin, que criou o projeto gráfico do livro, o capítulo chama-se 'Nossas Avós', porque a homenagem é dedicada às avós de tantos de nós, que fizeram do cozinhar um processo alquímico, na nossa imaginação de criança...

Na abertura do capítulo, as receitas da Vó Alda, escritas por ela, datadas, assinadas e finalizadas com esmero: "Fim", dizia ela, ao concluir as instruções. Tão lindo foi receber estas receitas, pela  prima Carmem Lescano, que decidi colocar as relíquias na porta de entrada do capítulo, como um acolhedor 'Bem-vindo!'

 Pois partilhei as lembranças de minhas avós porque, de alguma forma, buscam traduzir emoções perenes que nutrimos pelas nossas avós: o aconchego, a transmissão de sabedoria e de experiência... o olhar que ensina e que acolhe as nossas escapadelas à beira do fogão...Quem não pegou um pedaço do bolo ainda quente, recém-saído do forno, sem a mãe saber? "Bolo quente dá dor de barriga!!!", mas a vó, com aquele riso manso, dá o pedaço de bolo com o ar de cumplicidade típico...E não?

Esta força emotiva é tão tradicional que há um dito culinário a respeito: "Vó é mãe com açúcar"...A doçura que há na relação entre as avós e os netos é esperada, é ancestral. A escritora americana M.F.K Fisher começa seu famoso livro, "The Gastronomical Me" ('O 'Eu"Gastronômico'), com um texto em que conta sobre as geléias feitas por sua avó e por sua mãe, nos verões, na casa da avó. E conta que uma de suas primeiras memórias de cozinha data de seus quatro anos: o preparo e a embalagem dos doces e, no 'durante' da feitura, a provinha que a avó dava a ela, em sua cor, cheiro, textura...

E sempre alguém tem uma história de sua avó, dos sabores que só "ELA" sabia fazer, irreproduzíveis pelas gerações seguintes...É simples: a força está em sua presença na lembrança do sabor, muito mais do que nos ingredientes por si, muito mais do que na mistura. Seguimos a receita, mas não fica igual, então nos contentamos com o 'mais perto possível do que a vó fazia': nosso propósito, de fato, está em não alcançar a perfeição, deixar o quitute com aquele 'mas-falta-alguma-coisa-ainda...". Falta sim, a AVÓ!

Como já contei algumas vezes, não peguei as receitas da Vó Léia, provavelmente por um motivo consistente: acreditávamos, lá no fundo, que ela sempre estaria ali para fazer suas delícias, não precisávamos aprender. Queríamos que estivesse para sempre ali, nas receitas que só ela fazia com 'aquele toque'. Claro, isto bem lá no fundo, nos campos do inconsciente. Por exemplo, não peguei a receita da chimia de uvas que ela fazia, mas lembro com vigor  de seu empenho, à frente da chama, girando e girando a colher de pau na panela...enquanto isso, na cozinha, sobrevoava o cheirinho demorado daquela doçura de cor roxa, cintilante e viçosa...Será que alguém ficou com a receita da Vó? Sempre me pergunto...

Lembro dos outros doces, do sabor de cada memória. Se fecho os olhos, consigo sentir a vida dos grumos dourados, na ambrosia da Vó Alda...

Há um espaço não-geográfico, um tempo abstrato, um entrelaçamento dos sentidos com as lembranças e com as emoções, quando evocamos os registros afetivos de nossas avós. Há magia nas receitas que não temos, que permanecem como um mistério irresoluto nas histórias de família. Há uma beleza única nas receitas escritas com suas letras detalhadas, em cadernos com linhas ou em folhas avulsas dentro de outros cadernos. E, para mim, o nome desta beleza é 'VIDA', a vida destas figuras que são perenes dentro de nós, através de nosso fazer culinário, através de nossas conversas de forno-e-fogão, através do 'como-se-faz' que as avós nos ensinaram...um 'como-se-faz' que seguimos reproduzindo, tempo afora, como um modo de mantê-las vivas no ato de mexer a chimia com colher de pau...

Hoje, no nosso fazer de seus acepipes e doçuras, ali estão elas, as Nossas Avós!

Com carinho,
Betina






quarta-feira, 24 de julho de 2013

Afrodite, de Isabel Allende: ponto de partida para reflexões...

E por falar em livro de cozinha...esta semana ainda quero contar de outra obra que me trouxe um novo despertar para a vivência dos sentidos na culinária: Afrodite, da Isabel Allende. Li no verão de 1999, tendo sido este meu primeiro passo para a escrita de forno-e-fogão.

Ponto chave da leitura? Para mim, os ingredientes como sujeitos da frase, com toda sua sensualidade e evocação de nossas percepções sensoriais, emotivas...

É uma das principais referências no meu processo de cozinha perceptiva, ou seja...na minha educação dos sentidos para aprimorar a  vivência do 'comer bem' e do bem comer'...

Bom, o que acham: é possível 'educar os sentidos'?

E mais...há diferença entre 'comer bem' e 'bem comer'? Estas duas perspectivas podem conviver em harmonia, na nossa rotina? O que vocês podem mudar, em seu dia-a-dia, para melhorar este equilíbrio?

Para mim, a chave está nos nossos cinco sentidos, em nosso sentir, na nossa conscientização do prazer de comer bem. E de bem comer...

Com carinho,
Betina

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Conversando sobre 'Avental- Prazeres Frugais', livro de Joyce Pascowitch!


Pois foi deste livro que escolhi a receita da sopa de maçã com gengibre! E o dito, pequeno, leve, prático e despojado, fez história no meu gosto pela cozinha. Quadradinho, de capa dura e com desenhos suaves, é mesmo daqueles livros leais que nos acompanham perto das panelas. Bom, nem precisa: uma olhadinha na receita da página tal, uma inspiração aqui, outra ali, troca este ingrediente por aquele e...hummmmm!!! Tá pronto! Rápido, está eleito o cardápio para o jantar romântico, para o almoço com amigos, para aquela tarde de chuva em silêncio, curtindo memórias. O "Avental-Prazeres Frugais", da Joyce Pascowitch, é assim, manso, faceiro, bem disposto a uma aventura dos sabores, planejada ou de última hora...

A obra resulta do conjunto de 60 receitas da coluna "Avental", colhidas e escritas pela autora na Folha, entre 1997 e 1999. Leveza, simplicidade, gosto pelo 'comer bem' (sem engordar muito), mistura de Mediterrâneo e Oriente, dicas saborosíssimas de chefs, anfitriões, nutricionistas, quituteiras, além dos desenhinhos graciosos e dos capítulos divididos pelas estações do ano...todos são detalhes encantadores do 'Avental'! Com a apresentação da escritora Nina Horta, de quem sou fã, o livro nos leva para uma atmosfera de cozinha prática e alegre, com dicas que, num click, deixam a casa toda num cheirinho de temperos e de 'tim-tim!!!"...

Enfim...Adoro este 'Avental'! Alguns ingredientes conheci por suas páginas, pois comprei o livro num tempo em que novos sabores, misturas e combinações provocavam surpresas, as delicatessens e os mercados estimulavam ousadias gastronômicas, e meu cozinhar revestia-se de uma nova alquimia. Colorida, viçosa, contemporânea. Prestar atenção aos sentidos, elaborar um cardápio em casa, planejar uma jantinha diferente: o tom da culinária tornou-se ainda mais vibrante, e este livro participou do minhas invenções nas caçarolas, na época.

A autora conta o 'como-se-faz' das receitas através de sua escrita prazerosa e leve; reflete, nos textos, a atmosfera dos quitutes que compõem a obra. Guardo belas lembranças destas páginas! Para mim, o sabor de uma refeição bem vivida está nas memórias que deixa em nossos sentidos, e em nosso 'sentir'...

Acima de tudo, é um livro que, só de folhear, já traz felicidade! 

E não é o que buscamos nas aventuras de cozinha?

Com carinho,
Betina

Dados: "Avental-Prazeres Frugais', de Joyce Pascowitch.
Publifolha, São Paulo, 1999


Almoço de Inverno: sopa de maçã com gengibre!

Olá! 
Hoje a prosa é pra contar que, neste fim de semana, abri um daqueles livros de receitas que passam teeeempos na estante, esquecidos, até que, num 'Plim!', por algum motivo, voltam ao uso...

Pois estou me referindo ao "Avental- Prazeres Frugais", da Joyce Pascovich, editado pela Publifolha em 1999. É uma obra pequenina em tamanho, mas 'de peso' em ideias. Os capítulos são quatro, representando as estações: em cada um, quitutes e comidinhas especiais para tal e tal época do ano. Os desenhos são bárbaros, unindo simplicidade e aconchego, as páginas têm texto e figuras com uma bela harmonia, numa forma bem arejada; o livro é quadrado, de capa dura, e de uma escrita leve e coloquial, como numa boa conversa de cozinha. 

Pois foi da leitura do capítulo 'Outono' que surgiu a vontade, nos frios de 2000, de fazer a sopa de maçã com gengibre da página 85. Embora esteja no 'Outono', esta sopa é bem invernal e acorda todas as nossas sensações. O mais importante: com saúde! 

Relembramos esta receita há poucos dias, quando o frio chegou pra valer em Porto Alegre, e agendamos a realização para sábado ou domingo. Ontem, resgatei  o livro  da estante da copa, e há quanto tempo não o lia!
Pronto, cheguei na página certa!

O 'como-se-faz', com nossa adaptação...4 maçãs, uns 10cm de gengibre e em torno de 800ml de água. Batemos tudo no liquidificador, levando à panela até a mistura reduzir. O resultado é uma sopa de tom perolado e um brilho suave, com uma consistência encorpada e textura lembrando o veludo. Do aroma, posso dizer que é um profundo quente, cuja opulência ocupa toda a cozinha, como uma névoa de sabor...A maçã refrescante contrasta com o gengibre forte, visceral, e o equilíbrio é a vida desta receita. 

Num dia gelado como hoje, esta sopa aquece nossa anima, feito uma manta que nos acolhe e protege...Outro ponto favorável é que os ingredientes são saudáveis, associando saúde e prazer no silêncio  das colheradas...

Fizemos algumas leves modificações em relação à receita do livro, deixando de acrescentar caldo de carne ou pimenta preta. Assim, maçã e gengibre combinam-se na rica melodia de nos aquecer com frescor. Os ingredientes são de fácil acesso, o preparo é simples, e, ao final, recebemos um sabor único e intimista. A maçã traz quietude e leveza, enquanto o gengibre nos fornece energia e vigor!

Ideia deliciosa para um almoço de inverno, com lareira acesa e um dia cinzento pela janela...

Com carinho,
Betina


sábado, 20 de julho de 2013

Feliz Dia do Amigo!!!


Esta árvore, localizada em Buenos Aires, é um profundo símbolo da amizade para mim. Amplia-se em raízes e em folhas, espraia-se, arredonda-se em círculo acolhedor. Espicha-se para alcançar lonjuras, faz sombra mansa e rendada. Sua força está na essência: ao mesmo tempo, sólida e etérea, enraizada e celeste. Esta árvore me desperta acalento...um afeto perene...um silêncio amigo e confortante...uma conversa de vento que passa, apenas...uma brisa cantante. 

Vontade de estender uma toalha de piquenique e sentar ali no chão, com as amizades que são assim, feito esta árvore: conforto de raízes  firmes dentro da gente. Vontade de abrir a cesta, partilhar o lanche e as risadas. Vontade de ver o dia passando pelas fendas entre os galhos, entre os verdes, dividindo com os amigos as horas de bem-viver.

Feliz Dia do Amigo!!!

Com carinho,
Betina

sexta-feira, 19 de julho de 2013

"Laranja pra doooooce, Senhora?"



Há tempos, passa pela rua do consultório uma senhora vendendo laranjas, que clama, em alto e bom som, "LARANJA PRA DOOOOCE!!!!". Pois ela faz parte da melodia do bairro, junto ao afiador de facas, com sua música pungente, ou junto ao vendedor de doces caseiros, e a tantas outras figuras que  já se tornaram parte do nosso cotidiano. 

Numa certa sexta-feira de junho, a tal senhora abordou a mãe, que, de início, recusou e agradeceu. No entanto, mudou de ideia a tempo..."por que não?", pensou consigo, indo atrás da senhorinha. E, claro, aproveitou para perguntar seu 'como-se-faz'. Detalhe: para estes doces, costuma-se vender apenas a porção branca destas laranjas, que é espessa, firme e de gosto amargo. A casca é raspada, a parte interna extraída e a camada branca é 'preparada' para a venda. De preferência, com as devidas instruções...

Pois a senhora contou que é preciso deixar as laranjas  imersas (sempre se referindo à porção branca, apenas), trocando a água em torno de quatro vezes por dia, durante dois a três dias, para tirar o amargor intenso desta parte da fruta. Quando o processo é concluído, ela corta uma cruz na parte superior da camada branca e, então, dá uma fervura em todas elas. Faz uma calda, deixando-as envolvidas ali, em fogo baixo, por em torno de duas horas.
Ao final, temos um doce único, em traje de gala: um laranja nobre e cintilante, firme como um vestido bem modelado; há um sabor amargo, sim, mas este é equilibrado com uma doçura prazerosa, resultante do contraste entre o amargor da fruta e o doce da calda... A mordida é consistente, traz a constelação de sensações que esta sobremesa provoca: além da firmeza, percebe-se que a textura da calda fica impregnada nas laranjas, dando uma impressão duradoura ao morder. O perfume é robusto, caloroso, mas de um dourado sóbrio.

Dica: pode-se servir, dentro das laranjas, uma bola de sorvete de creme ou de chocolate amargo, como se o doce fosse o próprio recipiente. Além do sabor especial do conjunto, teremos também uma apresentação charmosa e original...

Bom proveito!!!
Com afeto,
Betina





sexta-feira, 12 de julho de 2013

O Doce de Abóbora revisitado

Olá!
Lembram do post sobre o nosso 'como-se-faz' do Doce de Abóbora, no sábado? Pois deixei incógnita a apresentação final...

Numa panela, colocamos os pedaços do doce, unindo o suco de 4 laranjas, a raspa de 1 limão siciliano e uns 2-3cm de gengibre (que devem ser ralados). Deixamos o conjunto ferver; neste ponto, abaixamos o fogo. A mistura deve permanecer em fogo baixo por em torno de uma hora, para que a abóbora incorpore bem o cítrico profundo da calda. 
Deixamos esfriar, colocando os pedaços em uma peça delicada e transparente, que expresse o viço deste doce, sua consistência e personalidade. 
O resultado é o aroma de um pátio úmido, amanhecendo. No sabor, não prevalece a força de um único ingrediente: a alquimia entre todos forma um novo elemento, diverso da representação de cada um, sozinho. A abóbora já preparada em sua calda, o suco das laranjas, a raspa do Limão Siciliano e o gengibre formam a reação química durante o tempo de fogo: saem da panela, ao final, como se fossem amigos de longa data. 
Claro, este é diferente do clássico, por receber novos elementos no preparo. 
Afinal de contas, inventar é preciso...!

Bom proveito!

Com afeto,
Betina


domingo, 7 de julho de 2013

Homenagem ao nosso "Mercadão"...

Esta é uma manhã triste, após o incêndio do nosso "Mercadão", em Porto Alegre. O "Serendipity in Cucina" faz uma homenagem aos sabores, lugares, aromas e à pulsação deste nosso território de histórias, lembranças, partilha, ingredientes especiais ou pitorescos...Esperando que nosso Mercado Público logo se revitalize, trago aqui meus registros de um passeio que fiz por lá, no último fevereiro.

A primeira memória que tenho do Mercado Público é de criança, com o Vô Hélio, na banca 40. Lembro do dia em que nos levou lá (eu e meu irmão), para conhecermos a 'salada de fruta com sorvete do Mercadão'...(Ainda se chama 'Bomba Royal'?). O vô, que era historiador do Rio Grande do Sul, quis nos apresentar o sabor deste patrimônio histórico e cultural da cidade, desde cedo. E chego a lembrar de nosso passeio! 

E me lembro, também, das tantas outras visitas ao Mercadão, para tomar um lanche, um cafezinho, para comprar especialidades culinárias...me lembro as idas ao Mercado para almoçar no Gambrinus ou, simplesmente, para caminhar pelos corredores, desvendando seus ingredientes, vendo o movimento, me divertindo na azáfama entre as bancas...

Bom, minha homenagem ao Mercadão... pela riqueza afetiva, histórica e cultural que desperta em nós, Portoalegrenses...pelo significado nas 'Histórias do como-se-faz' de nossas receitas e costumes...

Quantas saborices elaboradas com os ingredientes da Banca 43? E das tantas outras bancas...

Qual sua história culinária trazida do Mercado Público?

Com carinho,
Betina





sábado, 6 de julho de 2013

Doce de Abóbora: e o nosso 'como-se-faz'...?


 E então, aqui apresento as fotos de nossa experiência com o Doce de Abóbora, conforme as sugestões da senhora da Ferragem quanto ao uso da cal!
Foi uma aventura e tanto esta, abrindo janelas para outras histórias, dicas, receitas...
Espero que saboreiem este doce, tão pleno de lembranças para tantos de nós!
Com carinho,
Betina

Bom...mãos à obra!!!
:)

1) Para meia vasilha de abóbora, um pedaço de cal...
2) A cal dissolvendo na água...
3) Os pedaços de abóbora são colocados de molho na água com cal...
4)...e permanecem ali por duas horas...
5)...no final do processo, a abóbora passa por 4 lavagens de água...
6) Na última lavagem!
7) Pedaços de abóbora esperando a chegada do garfo...
8)Furando os pedaços, para deixar a calda entrar no doce...
9) Feita a calda (4 xícaras de açúcar, 2 xícaras de água),
deixamos que ferva.  Assim que ferver, colocamos a panela em fogo
baixo e soltamos ali os pedaços de abóbora.
10) Os pedaços ficam na calda por em torno de duas horas...
11) processo em andamento...
12)...e o doce começa a dizer a que veio!!!
13) Chegando na reta final! 
14) E pronto na panela...Aguardem cenas vindouras...!

E outra história do 'como-se-faz': partilhando!

E vejam só! Enquanto eu escrevia o post anterior, a Maria Helena, também minha prima, deixou sua memória do 'como-se-faz' da sua Avó Lucinda!

E não é uma trama fabulosa esta das "Histórias do como-se-faz"?


"Betina, lembrei de minha avó Lucinda: fazia um doce de abóbora maravilhoso. E era assim, com cal. Mas sem tantos cuidados: acho que naquele tempo não havia cal pra " uso culinário". Até porque onde a gente buscava cal era nos prédios em construção perto de casa ...

Beijo, Maria Helena"

Agradeço à Maria Helena pela colaboração! Esta partilha é o propósito do blog!

Com carinho,
Betina

Doce de Abóbora: outras "Histórias do como-se-faz"!!

 Sabem quem veio fazer uma visita ao Blog, e deixou outra ideia para o 'como-se-faz' do Doce de Abóbora? A Prima Carmem Lescano! Ela, no ano passado, fez uma colaboração preciosíssima para o "Pequeno Alfarrábio de Acepipes e Doçuras": quatro receitas de doces manuscritas e assinadas pela Vó Alda, com data e tudo! Pois contei aqui, no "Serendipity in Cucina",  quando recebi as receitas!

Hoje ela vem contando o 'como-se-faz' do Doce de Abóbora pela Lelinha, sua mãe, que era também uma doceira de mão cheia!

Betina, a mãe, quando não conseguia cal para fazer o doce de abóbora, colocava as mesmas em camadas com açúcar, assim: uma camada de abóbora, umas boas colheradas de açúcar, sucessivamente, e ficava de um dia para o outro. Depois, cozinhava o doce e ficava com aquela ‘casquinhapor fora e macio por dentro. Mais uma maneira de Martins fazer doce!
Beijos

E é assim que a trama das histórias vai sendo construída...uma conta daqui, outra dali, as possibilidades vão se entremeando, e o caderno de receitas, que antes desconhecia esta doçura, fica cheio de ideias...

Uma homenagem à Carmem Lescano (Carminha) que colaborou com esta novidade, e à querida Lelinha, prima da Vó Alda, que teve um modo bárbaro de solucionar a receita, quando não tivesse cal. É assim que nasce a Serendipity: não tem um ingrediente, usa outro, e cria-se um novo 'como-se-faz'!

E qual o seu?

Gracias pela visita!

Com carinho,
Betina

Aula de culinária na ferragem!!!

 

Dia desses, fui com a mãe à ferragem, na vizinhança, para finalizar a compra dos ingredientes para o doce. 
Ahn, na ferragem? 
Sim, estávamos preparando o Doce de Abóbora, daquele que leva 'cal virgem' para a porção externa ficar durinha, enquanto por dentro ele fica macio.
No balcão, atendeu-nos um senhor simpático, já de meia-idade; ao fundo, uma senhora bem alegre e despachada, que parecia ser sua esposa, estava atenta à nossa solicitação. 
O diálogo foi mais ou menos assim...

"Mãe- Boa tarde! Vocês têm cal para doce?
Senhor- Sim, daquelas ali, na estante.
Mãe- Mas há uma outra, que vem num envelopinho, não? De colocar direto no doce?"

Foi quando a senhora, ao fundo, entrou na conversa...

"Senhora-Acho que sei o que vocês estão procurando. Aquela não temos mais, é raríssimo de encontrar. A que se usa mesmo é esta, a do potinho. Ela é forte, tem que saber usar.

Mãe-E como a senhora faz?

Senhora-Bom, para uma bacia de abóbora, uso umas duas pedras de cal, se vou deixar de molho por duas horas. Se a abóbora vai passar a noite de molho na água com cal, aí se usa uma só pedrinha. Então, depende do tempo: quanto mais tempo a abóbora fica de molho, menor a quantidade de cal, senão o doce fica duro demais, e o processo perde o sentido.Os pedaços têm que ficar duros por fora e macios por dentro. E depende da quantidade, também: se é pra  meia bacia de doce, vou usar uma só pedrinha de cal, também, e não muito grande. 
Eu faço assim: primeiro, vejo a quantidade de abóbora, daí o quanto de água. Digamos que seja para uma bacia inteira, uso a mesma medida de água na panela. Coloco a cal ali, na água, e ela vai dar uns estouros, como umas explosõezinhas, que logo param. Dissolvo bem a cal na água, e então coloco os pedaços de abóbora ali. Mas cuidado: não pode furar a abóbora antes de ir para a água com cal, só depois de lavar e de passar umas três ou quatro águas! Deixo duas horas os pedaços de abóbora de molho na água com cal. Passado o período, troco a água umas três vezes, quantas quiser. Umas três ou quatro está bem. Umas quatro águas, digamos, para tirar bem a cal da superfície, quatro lavagens. E aí faço a calda. Furo os pedaços dela com um garfo, furo bem, e coloco estes pedaços na calda, quando esta ferver. Deixo cozinhando por duas, três horas, a senhora vai saber pela textura,quando o doce estiver pronto. Lembra que, se for pra deixar a abóbora 'dormindo' na água com cal, é uma pedrinha só. E tem que cuidar que no rótulo esteja escrito que é cal para uso culinário, como esta aqui. Faz tudo de luva, para não ter risco de se machucar com a cal. 
O doce fica bem direitinho, a senhora faz assim como estou explicando, sempre cuidando a quantidade de pedrinhas da cal que vai usar...quanto mais tempo do doce na água, menos cal; quanto menos quantidade de doce, menos cal...e assim por diante, seguindo esta lógica."

Saímos da ferragem bem faceiras, com nosso potinho de cal para 'uso em culinária', como dizia no rótulo...E o mais precioso de tudo: saímos dali com uma bela aula de cozinha em alguns minutos, a senhora nos contando seu 'como-se-faz' do doce de abóbora. 
São estas cenas que me encantam, este jeito de contar a receita como uma história, um 'faz-assim, faz assado' que é parte de quem conta, tão intrínseco que parece carimbado na pele. Seu jeito espontâneo de intervir na conversa, explicando o tim-tim por tim-tim do processo de uso da cal, nos deu a sensação de que aquela sabedoria está ali, pronta para ser contada, com uma naturalidade muito acolhedora. Por alguns instantes, senti como se estivéssemos todos nas velhas 'conversas na mesa da copa'. Junto com ela, o senhor falava, também, ou fazia com a cabeça um sinal afirmativo, bem feliz.

E sabem o que fiquei pensando? Que estes relatos, estas cenas, estão vivos por aí, disponíveis em nosso dia-a-dia. Basta que tenhamos atenção e foco no agora...podemos usufruir das 'Histórias do como-se-faz', mesmo nos lugares mais insólitos para uma aula de culinária. Como na ferragem, por exemplo...

Saí de  lá dizendo: 'com certeza, esta cena será um post do blog!'

:)

Obrigada pela visita!

Com carinho,
Betina



segunda-feira, 1 de julho de 2013

Férias de julho!!!

E o mês de julho chega em Porto Alegre, garboso em seu traje de inverno. Para mim, sempre traz a lembrança das 'Férias de Julho', no colégio. 

De tarde, um filme bom na TV, o frio, o cobertor, e um lanche caseiro: torrada com requeijão, mortadela e queijo derretido, feita no 'Bom-Apetite' e... uma caneca de chocolate quente! No relógio, um passar das horas bem manso, lânguido, até. Pela janela, a vida correndo seu curso normal, os sons da rotina lá fora. Ali dentro de casa, a mordida crocante na torrada era a trilha sonora do tempo livre, um deleite tão único que chego a sentir seu cheiro, saindo do Bom-Apetite (lembram dele?)...E a torrada era feita de
 'pão d´água', daqueles que vinham da padaria num papel pardo e cuja 'ponta' era motivo de disputa. E não?

Tinha também a fumacinha doce e macia que se insinuava pelas bordas da caneca, saindo em silêncio pra ninguém ouvir... 

Ficava, por toda a atmosfera, o aroma de 'lanche da tarde'. Único e insubstituível. Por quê? Digamos que remonta, em mim, a memória do sabor que esta época tem: sabor de 'férias de julho'!

E pra vocês, leitores, qual era a delícia das férias de inverno?

Desejo que tenham um ótimo Julho!

Com carinho,
Betina