sábado, 8 de junho de 2013

'Matar a fome' versus 'Saborear'

Hoje, na sobremesa do almoço, comi um doce que me dá uma alegria sublime: figo cristalizado! E, confesso, saboreei devagarinho, com  atenção a todas as suas propriedades: carnoso, macio e suculento por dentro, crocantezinho por fora, de uma doçura elegante, típica dos figos cristalizados...Ao som da mordida, o sussurro dos grãos de açúcar que revestem meu doce favorito. A cor sóbria, o gosto doce e levemente ácido, o aroma calmo: todos os sentidos em ação. Pois vivenciei o enlevo do figo sem parcimônia, entregue à sua mágica, e, embora o primeiro impulso fosse o de comer o segundo, não repeti. Bom, fiquei pensando em como um saborear pleno e atento é rico, em como é possível satisfazer nossos desejos quando estamos inteiros no presente. Pode ser que isto não sacie a fome, mas promove uma plenitude bem mais duradoura, a meu ver.

Se estamos presentes em nossa refeição, fazemos muito mais do que simplesmente matar a fome: saciamos o desejo, satisfazemos a vontade. Consideremos o seguinte: matar a fome alimenta apenas nosso Cérebro mais primitivo, o Reptiliano, que precisa ingerir alimento para a sobrevivência; saciar o desejo responde às necessidades do Cérebro Límbico; satisfazer a vontade contempla o Neocórtex, o cérebro que só nós, humanos, temos. Então, quando sinto vontade de comer um figo cristalizado- e o faço com entrega a cada mordida, sentindo prazer, felicidade, plenitude e um certo regozijo pela permissão ao ato- estou indo muito além do simples e primordial 'matar a fome': estou saboreando. E este saborear, para mim, é equivalente à satisfação do amor, que envolve desde as vivências sexuais até às anímicas, dentro do relacionamento amoroso. 

E é por isto que, no meu sentir, apenas 'matar a fome' é insuficiente, nas refeições ou numa relação entre o par romântico. Perceber o sabor demorado, as nuances nas texturas, nos cheiros, no gosto, as emoções e os sentimentos na convivência, na partilha ( ou no degustar de um prato) todos são aspectos da experiência humana. Repito, este é o meu sentir, respeitando todas as opiniões diversas. Minha saciedade é muito mais plena quando saboreio lentamente, conhecendo com atenção as características do figo cristalizado, do que quando como um alimento só para 'matar a fome'. A fome não conhece sabor, uma experiência multifatorial que só nós, humanos, podemos sentir. Por quê? sabor envolve consciência, memória, sentimentos, percepções, além da satisfação dos sentidos. 

A fome não conhece diferenciação, iguala todos os alimentos,  qualificando-os como o conjunto de substâncias que satisfazem o preenchimento de uma necessidade, de um vazio. A fome não conhece o prazer sublime, porque não há diferenças no conteúdo do que se ingere, desde que seja contemplada a necessidade fisiológica de alimentação, para sobrevivência. Não há vontade, não há prazer no saciar a fome: há a mera resposta do organismo em alimentar-se, com o que quer que seja. Não há o saborear, rico de motivações, memórias, qualidades únicas de um alimento específico. 'Matar a fome' iguala o todo, desconsiderando as diferenças, desconsiderando as propriedades de nossos sentidos em esmiuçar a riqueza de um sabor, em suas complexidades. 

O saborear é outra coisa: ele alimenta necessidades do corpo, sim, mas também de nosso universo subjetivo. Sinto-me muito mais saciada quando saboreio o figo cristalizado com vagar, vivenciando todas as sensações e lembranças que proporciona, do que quando faço uma refeição para 'matar a fome'. E é como sinto o amor, numa relação a dois. Há, sim, a plenitude inegável do prazer fisiológico, e este quesito é imprescindível, pois, fisiologicamente, é o que dá a qualidade de vínculo ao casal. Sabe-se, por pesquisas neurocientíficas, por exemplo, que as relações sexuais promovem a liberação da substância Ocitocina, que se entende ser responsável pelo vínculo entre o casal, quando associada à vontade de ambos os parceiros de construírem juntos um caminho. Esta vontade é o componente de nosso Neocortex, estritamente humano. É o fato de sentirmos 'vontade de' estar juntos que nos qualifica como humanos, além do saciar o apetite sexual e do 'matar' o desejo. 

Por isto, hoje, saboreando meu figo cristalizado, senti uma satisfação anímica, num deleite vagaroso e pleno. Foi quando pensei no que tinha escrito pela manhã, sobre o saborear como um elemento de ligação entre as Artes Culinárias e os 'ofícios românticos'. Foi quando pensei, também, que eu raramente como apenas para 'matar a fome', procurando fazer escolhas por alimentos saudáveis, prazerosos, feitos com amor. Para mim, a verdade é que 'matar a fome' leva a uma saciedade incompleta, insuficiente, por não envolver as outras porções de nossa humanidade, por contemplar apenas uma fatia de nosso ser. 

Na minha opinião, é aqui que o 'saborear' do amor sai ganhando... é o amor que nos permite viver, com demora, um prazer simples e, ao mesmo tempo, tão rico em experiências.

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Com carinho,
Betina







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