sábado, 29 de junho de 2013

A origem do "Nhoque da Sorte", colaboração da Prima Lu Diniz!

Olá!!! 

A partilha, neste blog, é a maior riqueza desta vivência 'cibernética' de forno-e-fogão!
A mim sempre parece que tenho, nos leitores, comensais de uma boa conversa na mesa da copa, em que alguém aprecia uma receita, e então lembra de outra com um dos ingredientes...uma conversa de lembranças, de sabores, de impressões, de risadas, de histórias, de horizontes...conversas de cozinha, daquelas que duram hoooooras,
e,  n´algum momento, alguém pergunta...

"...mas de onde mesmo vem aquela tradição de comer nhoque no dia 29?" 

Na nossa 'mesa' de hoje, há uma leitora que conta a resposta! Pois é uma prima querida, a Lúcia Diniz, filha da Tia Jacila e sobrinha da Vó Léia!
A Lúcia conhece histórias da família, causos de 'aqui e acolá', adora um bate-papo e, disse ela, ADORA um desafio! 
Então, um especial agradecimento à querida Prima Lu Diniz, que respondeu a proposta que indaguei na manhã deste 29: qual a origem da tradição do Nhoque da Sorte, dos dias 29?

"Conta a lenda que São Pantaleão, num certo dia 29 de dezembro, vestido de andarilho, perambulava por um vilarejo da Itália. Faminto, bateu a porta de uma casa e pediu comida. A família era grande e tinha pouca comida, mas apesar disso, eles não se importaram em dividir o seu nhoque com o andarilho, cabendo a cada um 7 massinhas. São Pantaleão comeu, agradeceu a acolhida e se foi. Quando foram recolher os pratos, descobriram que embaixo de cada um havia bastante dinheiro. Por isso, tradicionalmente, todo dia 29 é dia do nhoque da fortuna ou da sorte, acompanhado do famoso ritual de colocar dinheiro embaixo do prato, comer os primeiros sete pedacinhos em , fazer um pedido para cada um deles e depois, comer à vontade.

A simpatia é simples: coloca-se uma nota de qualquer valor sob o prato com nhoque. Pode ser dólar, real ou qualquer moeda estrangeira. Em seguida fique de e concentre-se para iniciar o ritual. No prato, separe sete nhoques e coma um a um. Para cada nhoque, faça um pedido diferente. Depois, sente-se e saboreie o restante do prato, de preferência com um bom vinho italiano. O dinheiro colocado sob o prato deve ficar guardado até o próximo dia 29, para garantir a fartura. Outros dizem que deve ser dado a alguém que necessite ou usado quando for feita nova simpatia."

No próximo 29 de julho, apliquem a simpatia!
E continuem participando das prosas e desafios do nosso blog!

Com carinho,
Betina



Desafio do dia 29!

Hoje é dia 29, dia do Nhoque!!! 

E vocês sabem por quê?

 Algum leitor se aventura a nos contar a tradição do "Nhoque da Sorte", aqui no Serendipity in Cucina?

:)

Com carinho,
Betina


quinta-feira, 27 de junho de 2013

Bananas Assadas, um doce de inverno...

Pois a receita que escolhi, do livro "Mediterranean Food", da Elizabeth David, foi a de um doce de bananas,  muito simples de fazer! E, ao que me pareceu na leitura, muito saboroso...Farei no final de semana, mas já adianto o 'como-se-faz': 


Bananas Assadas

Pelo que li, descasco e divido as bananas ao comprido,  então cortando ao meio cada metade. Coloco as metades em uma assadeira com manteiga, açúcar mascavo, os sucos de uma laranja e de um limão, noz moscada e canela, uma colherinha (das de café) de mel, e um cálice de rum. Acrescento as raspas de um limão no topo da mistura, assando a receita por 30 minutos em forno moderado. Ao final, obtenho um molho espesso, engrossado, semelhante a um xarope. 

           Que tal, para um dia frio de inverno? Esta é daquelas receitas que aquecem a casa...imaginem o cheiro 'quente' que a mistura, em alquimia no forno, vai espalhando pela cozinha...os ingredientes escolhidos têm uma força anímica, evocam em nós a memória de aconchego, de afeto, de prazer. A consistência, próxima a um manjar, dá a sensação de um sossego macio, no conforto de uma boa conversa na mesa da copa. Quero só ver a vida que sairá do forno, exalando deleite...

             O trecho da receita, na página, é muito curtinho. A autora, por exemplo, não diz quantas bananas usar, ou as medidas de manteiga, açúcar mascavo, especiarias...Deixa que cada um faça sua versão, adequando as quantidades aos gostos da família. Suas receitas são 'contadas', como em uma boa conversa entre amigos. Estou adorando o livro!

Com carinho,
Betina

Fonte: "A Few Sweets", pg.169.
Mediterranean Food, in "Elizabeth David Classics"
Elizabeth David
ISBN: 1 90-2304 276
Grub Street, London, 1999.

Tim-tim: hoje, 1 ano e 3 meses!

Olá!

Hoje o nosso "Serendipity in Cucina" completa 1 ano e 3 meses, chegando aos 14.000 acessos, oriundos de muitos países. Compartilhar com comensais de mesas espalhadas mundo afora é uma grande alegria! Acrescenta-se outro ingrediente fundamental ao tim-tim:  à satisfação de dividir, com os amigos-leitores que participam da rotina do blog, ideias, receitas e conversas de cozinha, comentários, histórias do 'como-se-faz', e assim por diante...

Muito obrigada pelas visitas, leitores!

Estou aqui, escolhendo uma doçura para registrar, do livro de Cozinha Mediterrânea, o primeiro a ser publicado pela autora  inglesa Elizabeth David, em 1950. Ela, ensaísta culinária de grande relevância mundial no campo da escrita de cozinha ("Food Writing"), destacou-se por explorar a cozinha de vários países europeus, levando novos conhecimentos aos ingleses a partir de sua escrita, com descrições ricas de cenários e de ingredientes típicos dos locais que visitava. Desbravar seus textos tem sido um aprendizado interessantíssimo, tanto pelo conteúdo que a autora traz, quanto pela forma como escreve sobre o universo de cores, sabores e impressões de suas viagens gastronômicas. 

Estou aqui, folheando o livro, escolhendo a receita para o próximo post...

Tim-tim!

Com carinho,
Betina

terça-feira, 25 de junho de 2013

Ligar o som pra quê???

A Angélica prestigiando o lançamento do
 "Pequeno Alfarrábio de Acepipes e Doçuras",
em dezembro 2012
Em homenagem ao lindo comentário da querida Angelica Shigihara, ao post de ontem, compartilho-o com vocês, leitores. A Angelica é Argentina, Artista, Arteira e Arteterapeuta. E uma Amiga do coração! 


"Música é vibração... e na cozinha há vibração sonora de talheres, líquidos submergindo em pastosas substâncias, borbulhando transformações... 
sons que se apegam em cheiros e sabores... uma festa sensorial... arte completa.. quando vierem os espectadores/consumidores/compartilhadores dos manjares... A cozinha é mesmo arte-completa..."
Ange Shigihara


Pois é...lendo o trecho, fiquei pensando que bom mesmo é deixar a cozinha tocar sua própria música... Afinal de contas, com tanta riqueza de melodias possíveis, ligar o som pra quê???
 E como ouviríamos o sussurro fofoqueiro da cebola refogando, se não fosse no silêncio?


Obrigada pela visita!

Com carinho,

Betina




a trilha sonora da cozinha!

E esta é uma belíssima trilha sonora para ouvir na cozinha, enquanto preparamos quitutes! A culinária, para mim, é um encontro do sujeito consigo mesmo, em primeiro lugar. E de encontro com os demais, ao cozinharmos com gente que nos traz felicidade, ao partilharmos a refeição...

Do encontro comigo, vários componentes fazem parte; entre eles, a música, que cria um ambiente especial, único. A cozinha muda até de cor, dependendo desta ou daquela melodia que toca enquanto preparamos o almoço. Ora solar, ora cinzenta, ora do tom de verde  num campo estendido, tocando o horizonte: a música serve nosso sentido da audição. Como o sabor é um fenômeno multifatorial, que envolve mais de um sentido nosso, além da memória, da cognição, do estado de humor, é possível compreender a música como um dos ingredientes para o nosso cozinhar, um ingrediente  que de fato interfere no sabor final. Por quê? Está conectado ao bem-estar que a culinária proporciona. Acredito piamente: quando cozinhamos felizes, cozinhamos melhor. O que ouvimos, quando estamos na cena 'forno-e-fogão, fica carimbado em nossas emoções. Coincidência ou não,  o que ouvimos quando estamos cozinhando é traduzido no resultado final: o sabor da comida. 

Então, vamos escolher belas músicas para nossa próxima aventura culinária! 

Com carinho,
Betina

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Reflexões da semana...


Olá!

Com as manifestações da semana, em nosso Brasil, optei por silenciar o blog, por uns dias. Um silêncio para respeitar os gritos de mudança. Sim, também há barbárie, mas não é sobre ela que devemos conversar. E sim, sim mesmo, é da mudança de consciência que chegou. Acompanhada do inverno, frio e chuva. E gritos, reivindicações, perplexidade. Muita perplexidade na fisionomia de todos nós, que estamos mudando. Perplexidade em quem não quer melhorias, também, olhando pra tudo sem saber o que fazer. Estou sendo eufemista, eu bem sei. Bom, há muito a refletir, mas este é um blog de culinária e bem-viver, e quero deixar a polêmica de fora.

E fico pensando: por que me sinto calada na escrita, esta semana? Parece um tempo de espera, de um não-fazer. De sentir a transformação caminhante. E de observar seu destino.

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Sentada à mesa da copa, com meu caderno e uma taça de chá quente, escrevo à mão:

'Coisas boas aconteceram, como o convite para participar do site "The Rambling Epicure", de que contei no domingo. O fim de semana comemorando o Dia dos Namorados, com o meu Amor. Café da manhã de hotel, sempre uma mágica especial no meu imaginário, mesmo quando não saio da cidade. Os primeiros passos para o próximo livro, devagarinho. E sabores que, ainda num almoço apressado e fora de hora, despertaram-me uma alegria boa de sentir: baguete da Barbarella, de Presunto de Parma com tomate, de mordida crocante, o croc-croc imperdível de um sanduíche como este. Em certo êxtase, eu olhava para a rua, pela porta de vidro, assistindo o corre-corre das gentes fugindo da chuva, um cenário cinzento, um horário que parecia não ter qualquer viço, pelas duas da tarde. De surpresa, a força do sabor me arrebatou, talvez pela pungência do Parma, pelo contraste com o tomate fresco. Quem sabe, apenas pelo fato de dar vida aos sentidos, ainda que num almoço de 20 minutinhos...Acompanhando, um expresso duplo, forte, amargo, pulsante. Para uma pausa rápida, o lugar é sensacional: Vita Juice, em Porto Alegre. Saí do barzinho bem feliz, pronta para a tarde de trabalho! E o almoço de destaque da semana foi hoje: o reencontro com uma grande amiga de infância, depois de vários anos sem nos encontrarmos, pelas correrias da vida maluca. Pedimos refeições leves, atualizamos a conversa dos últimos tempos, rimos, brindamos. Pratos que se tornam carimbos de memória de nossas vivências. Entreguei a ela meu livro, com dedicatória, fizemos uma maratona para colocar a pauta de assuntos em dia, e muitas risadas. 
A amizade é sempre um espaço de constância; um afeto perene que, não importando os cronogramas e geografias complicados da vida, está sempre ali. Em geral, contado nas conversas na mesa da copa. E nas mesas da vida afora.'

Bom, esta foi minha semana, no microcosmo de alegrias aqui e ali, de pequenas felicidades que contemplam a rotina.

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No macrocosmo, a mudança acontecendo, o país acordando, gritando pelo que quer. Finalmente! Esta transformação de consciência está linda de ver, participar deste momento do Brasil é um privilégio.

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Fico por aqui, hoje.

Com carinho,
Betina

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Começando um novo tempo!

Pouco mais, pouco menos, há um ano atrás conheci o site suíço The Rambling Epicure, idealizado e editado pela escritora Jonell Galloway, e passei a visitar os escritos. Jonell é 'food writer', sim, mas seu trabalho é vasto: do 'como-se-faz' às Artes ligadas à Gastronomia, e então ao bem-viver, aos horizontes, e tantas outras vertentes. 'A Arte do comer/beber/viajar/viver consciente' é o subtítulo do site, acompanhando o título, que comunica ( em minha leitura) a ideia do epicurista que divaga, que reflete. O site é simplesmente belíssimo em imagens e conteúdo, uma fatia prazerosa da rotina! 

Há alguns dias, escrevi à autora, em resposta à abertura de possibilidade de participar do quadro de escritores, proposta a candidatos de todo o mundo. Perguntei qual categoria estava aberta, que documentos deveria enviar, o que era exigido como pré-requisito. Não insisti, contudo: parecia uma perspectiva muito distante. Tinha feito minha parte, pedindo informações preliminares, mas ficaria por ali...

Na última quinta-feira, Jonell escreveu-me, convidando para participar do "The Rambling Epicure", referindo que havia visitado meu blog e que apreciava as leituras! Foi em seguida que definimos o que eu escreveria, e então recebi a senha e...Tim-tim! Uma alegre, alegríssima celebração! 

E eu pergunto: em que instante, dentro de nós, acontece este movimento que nos atira frente ao novo, ao desconhecido, e nos dá força para enfrentar o salto no escuro? Quando escrevi, pedindo informações, foi por este movimento insólito que me sacudiu, me "disse": Vai! Pois bem. "E agora?", refleti, logo depois de escrever. Confesso, já fiz isto tantas e tantas vezes, na maior parte delas com boas respostas.

 Este impulso de dar partida à mudança não me é tão estranho; entretanto, a cada novo desafio sinto como se nunca tivesse atravessado uma situação semelhante. E recuo, entre a surpresa e a pulsão pelo caminhar. Recuo, assustada pelo passo em avanço, mesmo antes da resposta. Não recuo da definição, mas do impulso de seguir. Guardo em mim a memória  do primeiro ímpeto, o vigor da iniciativa. Depois, silencio o recuo, e espero, em branco. Foi neste aguardo que recebi o convite da autora para que eu escrevesse no seu site. 

Este 'tempo de maturação' é um grande prêmio: quando temos a iniciativa, estamos no 'agora'; quando esperamos, estamos no 'agora', vivendo o que se apresenta, sem conjeturas ou devaneios. A pergunta "de onde vem a força para dar o passo?" é de difícil resposta. Acredito que a força venha de nossa parte que, quando criança, aprendeu a brincar. Espontânea e vivaz, esta parte nos move na direção de nossos objetivos mais profundos, sabendo que o momento para a ação é único: o presente. 

Há muito a refletir, ainda. Hoje, o post é de agradecimento à autora Jonell Galloway, por seu convite, que muito me honrou. Hoje, o post é de partilha com os amigos-leitores-comensais, por este salto no escuro. 

Com carinho, 
Betina 

domingo, 9 de junho de 2013

A maquinaria dos sentidos: criando boas lembranças!


Agora que já conversamos sobre o amor, a fome e outros quetais, está na hora de pensarmos na questão prática do Dia dos Namorados, próxima quarta-feira. Entre os que comemoraremos, há sempre quem prefira sair para jantar fora; outros, por sua vez, escolhem preparar a 'ceia' no conforto de casa, inventando moda na cozinha ou seguindo alguma receita especial. Há os casais que partilham o café da manhã, ou o almoço, ou um chocolate quente n´algum momento do dia.

Bom, se a celebração reflete a identidade do par, qualquer das alternativas é válida, o espírito é, de fato, comemorar a união com sabor e prazer! E, como é de praxe nas celebrações, as comidinhas sempre estão presentes, na forma de quitutes, de doçuras, de pratos elaborados, de pequenas delícias que beliscamos aqui e ali...é como se 'carimbassem' o encontro com suas propriedades; como se dessem, ao nosso momento de encanto com o amor, uma memória especial.  O que os alimentos nos fazem vivenciar, através dos sentidos, abre em nós uma janela: ficamos mais receptivos às emoções, sentimentos, percepções, por vários motivos. A meu ver, principalmente porque o que saboreamos nos conecta diretamente com nosso agora, com quem somos no exato instante, e nos percebemos plenos, disponíveis às vivências e personagens da nossa cena. Já disse neste blog, muitas das minhas lembranças têm receitas próprias...

Há muito para conversar sobre o papel dos sabores na memória, e da memória nos sabores. Por enquanto, proponho um desafio: que sabor você deseja partilhar com seu amor neste Dia dos Namorados? Considerando que os alimentos 'carimbem' nossos registros, que tal escolhermos aqueles que nos estimulam sensações prazerosas, felizes, e, claro, 'picantes'? Sensações que, tempos depois, irão reverberar no bem-viver de ambos, como 'fotografias' tiradas com os cinco sentidos, restando como imagens sensoriais perenes em nossos 'arquivos'. Cada vez que escolhermos de novo aquele quitute, aquele doce, nosso corpo nos lembrará da cena de celebração em que experimentamos aquela delícia, partilhando o amor.

Somos nós, ali, criando vivências com nossa própria 'maquinaria', montando nosso próprio álbum de memórias vividas e sentidas!

Com carinho,
Betina

sábado, 8 de junho de 2013

'Matar a fome' versus 'Saborear'

Hoje, na sobremesa do almoço, comi um doce que me dá uma alegria sublime: figo cristalizado! E, confesso, saboreei devagarinho, com  atenção a todas as suas propriedades: carnoso, macio e suculento por dentro, crocantezinho por fora, de uma doçura elegante, típica dos figos cristalizados...Ao som da mordida, o sussurro dos grãos de açúcar que revestem meu doce favorito. A cor sóbria, o gosto doce e levemente ácido, o aroma calmo: todos os sentidos em ação. Pois vivenciei o enlevo do figo sem parcimônia, entregue à sua mágica, e, embora o primeiro impulso fosse o de comer o segundo, não repeti. Bom, fiquei pensando em como um saborear pleno e atento é rico, em como é possível satisfazer nossos desejos quando estamos inteiros no presente. Pode ser que isto não sacie a fome, mas promove uma plenitude bem mais duradoura, a meu ver.

Se estamos presentes em nossa refeição, fazemos muito mais do que simplesmente matar a fome: saciamos o desejo, satisfazemos a vontade. Consideremos o seguinte: matar a fome alimenta apenas nosso Cérebro mais primitivo, o Reptiliano, que precisa ingerir alimento para a sobrevivência; saciar o desejo responde às necessidades do Cérebro Límbico; satisfazer a vontade contempla o Neocórtex, o cérebro que só nós, humanos, temos. Então, quando sinto vontade de comer um figo cristalizado- e o faço com entrega a cada mordida, sentindo prazer, felicidade, plenitude e um certo regozijo pela permissão ao ato- estou indo muito além do simples e primordial 'matar a fome': estou saboreando. E este saborear, para mim, é equivalente à satisfação do amor, que envolve desde as vivências sexuais até às anímicas, dentro do relacionamento amoroso. 

E é por isto que, no meu sentir, apenas 'matar a fome' é insuficiente, nas refeições ou numa relação entre o par romântico. Perceber o sabor demorado, as nuances nas texturas, nos cheiros, no gosto, as emoções e os sentimentos na convivência, na partilha ( ou no degustar de um prato) todos são aspectos da experiência humana. Repito, este é o meu sentir, respeitando todas as opiniões diversas. Minha saciedade é muito mais plena quando saboreio lentamente, conhecendo com atenção as características do figo cristalizado, do que quando como um alimento só para 'matar a fome'. A fome não conhece sabor, uma experiência multifatorial que só nós, humanos, podemos sentir. Por quê? sabor envolve consciência, memória, sentimentos, percepções, além da satisfação dos sentidos. 

A fome não conhece diferenciação, iguala todos os alimentos,  qualificando-os como o conjunto de substâncias que satisfazem o preenchimento de uma necessidade, de um vazio. A fome não conhece o prazer sublime, porque não há diferenças no conteúdo do que se ingere, desde que seja contemplada a necessidade fisiológica de alimentação, para sobrevivência. Não há vontade, não há prazer no saciar a fome: há a mera resposta do organismo em alimentar-se, com o que quer que seja. Não há o saborear, rico de motivações, memórias, qualidades únicas de um alimento específico. 'Matar a fome' iguala o todo, desconsiderando as diferenças, desconsiderando as propriedades de nossos sentidos em esmiuçar a riqueza de um sabor, em suas complexidades. 

O saborear é outra coisa: ele alimenta necessidades do corpo, sim, mas também de nosso universo subjetivo. Sinto-me muito mais saciada quando saboreio o figo cristalizado com vagar, vivenciando todas as sensações e lembranças que proporciona, do que quando faço uma refeição para 'matar a fome'. E é como sinto o amor, numa relação a dois. Há, sim, a plenitude inegável do prazer fisiológico, e este quesito é imprescindível, pois, fisiologicamente, é o que dá a qualidade de vínculo ao casal. Sabe-se, por pesquisas neurocientíficas, por exemplo, que as relações sexuais promovem a liberação da substância Ocitocina, que se entende ser responsável pelo vínculo entre o casal, quando associada à vontade de ambos os parceiros de construírem juntos um caminho. Esta vontade é o componente de nosso Neocortex, estritamente humano. É o fato de sentirmos 'vontade de' estar juntos que nos qualifica como humanos, além do saciar o apetite sexual e do 'matar' o desejo. 

Por isto, hoje, saboreando meu figo cristalizado, senti uma satisfação anímica, num deleite vagaroso e pleno. Foi quando pensei no que tinha escrito pela manhã, sobre o saborear como um elemento de ligação entre as Artes Culinárias e os 'ofícios românticos'. Foi quando pensei, também, que eu raramente como apenas para 'matar a fome', procurando fazer escolhas por alimentos saudáveis, prazerosos, feitos com amor. Para mim, a verdade é que 'matar a fome' leva a uma saciedade incompleta, insuficiente, por não envolver as outras porções de nossa humanidade, por contemplar apenas uma fatia de nosso ser. 

Na minha opinião, é aqui que o 'saborear' do amor sai ganhando... é o amor que nos permite viver, com demora, um prazer simples e, ao mesmo tempo, tão rico em experiências.

Leia também:
  Nossos três cérebros por um chocolate quente!
Com carinho,
Betina







Do simples saborear!


A proximidade do Dia dos Namorados traz tantas e tantas reflexões sobre o amor. Bom, bendito amor! E é claro que, nesta nossa conversa, nem penso em referir alguma nova ideia sobre o tema...Amor, cada um sabe do seu, isso é fato.Então, à pergunta 'o que é o amor?', hoje, respondo por mim: o amor é simples. 

Costumo dizer que sentimos um bem-estar amplo, quando estamos com nosso par, uma soma de dias bons, e a vontade de que continuem...E ainda melhores. Uma sensação de bem-viver aqui, dentro do peito, percorrendo o corpo... como se cada célula soubesse de nossa felicidade.  E sabe! O amor existe em cada uma das nossas células, como um código de barras identificado por elas e traduzido em bem-estar. Assim é o amor, no meu sentir.

Estar com nosso amor é uma delícia e ponto, nem precisamos pensar se é bom ou não. Pelo tal 'código de barras' das células, nosso corpo 'sabe' que sente prazer, 'sabe' que há harmonia pulsante com o par. Simples assim.

Pela neurobiologia, o amor é um estado de bem-estar psicofísico, que envolve vários de nossos sistemas fisiológicos e neuroquímicos.

Um fenômeno auto-explicativo, o amor.  Sentimos quando está ali. Sentimos quando ESTAMOS ali, presentes nele, e quando o outro está, também. O amor ocupa um espaço em nós que transcende a geografia: ao nos sentirmos juntos, ocupamos um  território subjetivo, um lar dentro de nós.

 Bom, e por que falar de amor num blog de cozinha e bem-viver? Ah, pelos sabores, temperos, ousadias, harmonizações, e muitas outras semelhanças entre as Artes Culinárias e os 'ofícios' românticos. Palavra chave desta afinidade? Para mim, o 'SABOREAR'!

E o que você está planejando para os 'sabores' do dia 12 de junho?

Com carinho,
Betina

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Enfim, notas sobre o Chutney!

E a colher diz: "Pronto!"
O "Personagem"!

Boa noite! Sei bem que ando em falta com os leitores, e o motivo é o de sempre...correria! Logo eu, que adoro falar em desaceleração, volta-e-meia adentro os tumultos da rotina e deixo o blog por uns dias! Desta vez, fiquei devendo a receita do 'Chutney de pimentão, maçã e gengibre', que anunciei há umas duas semanas...

Meu 'como-se-faz'? 
Usei duas unidades, das grandes, de pimentão vermelho, e um  vidro do pimentão assado (em conserva na água, e não no óleo); três maçãs argentinas e um pedaço de gengibre (uns 10cm). Piquei os pimentões (crus e assados) em retângulos pequenos, ralei as maçãs e piquei o gengibre em pedacinhos bem pequenos.Coloquei  em uma panela de bom tamanho. Então, acrescentei 10 colheres de sopa de açúcar mascavo e um cálice (dos de licor) de vinagre balsâmico; misturei tudo e cobri o conjunto com água, deixando cozinhar em fogo alto até ferver. Então, neste ponto, ao ferver, abaixei o fogo e mantive a panela fechada por um tempinho a mais...

Ao perceber que os pedaços de pimentão já estavam macios, abri a tampa e segui mexendo, até o chutney reduzir, ainda em fogo baixo. Quando passamos a colher de pau e esta abre uma fenda, temos o ponto final! (Já li, em algum lugar, que isto se chama 'Ponto de Estrada', pois a colher 'abre uma estrada' na receita...)

Confesso, a prática deste Chutney é uma artesania da paciência, pois cada etapa deve ser conduzida com leveza, arte, atenção e sem pressas...O bônus pela demora no preparo? A atmosfera viva que toma a casa, um cheiro pulsante. Bom, posso dizer, sem exageros, que o aroma chega a ser vermelho, por seu ardor. 

O foco na transformação dos ingredientes, em suas tonalidades, texturas, no murmúrio de seus atritos, tudo isto é um espetáculo que só podemos assistir se estivermos atentos ao processo. A combinação do pimentão vermelho com a maçã e o gengibre traz mais do que uma  nova receita, traz um novo convidado para a mesa do almoço!

Saboreado com carnes, saladas e até com sopas!!

Com carinho,
Betina