domingo, 14 de abril de 2013

Do convívio rotineiro: girando o caleidoscópio!

No post anterior, falávamos de um azulejo delicado, na parede de um restaurante, lembrando-nos (quase de um jeito subliminar) do sentimento de Amor. Entre uma mesa e outra, meio tímido, entre os demais azulejos. Aquele tinha destaque, uma borda de flores graciosas, mas sua posição era discreta, de fato: destinada a quem procurasse detalhes no local, mas não ao comensal distraído ou 'desimportado'. 

Pensando bem, esta situação é muito comum em nossa vida cotidiana. Quantas vezes os afetos estão expostos, disponíveis para serem percebidos e saboreados,  mas seguimos na correria diária sem nos 'conectarmos' com a família, o amor, os amigos, os colegas?

Pois o azulejo chamou minha atenção para este olhar, para esta reflexão, a partir da surpresa que tive ao vê-lo de repente. Vi de relance, e voltei para ter certeza, depois de ter mirado aquela parede algumas vezes para tirar retratos do local.

Então, subitamente, um azulejo na parede nos lembra de que o amor existe? Não é este o ponto; quero enfatizar, apenas, que tantas vezes não prestamos atenção nos afetos, passamos correndo por eles, seguindo nossa jornada maluca de afazeres. E me incluo no problema, fazendo um 'Mea Culpa' no terreno das amizades. Já fui uma amiga beeeem mais dedicada, e, nos últimos tempos, confesso estar relapsa, pelas atribulações que a rotina nos impõe. Rotina de costas largas, esta!!! A dificuldade é que não temos como ajustar os 'fusos' entre as correrias e, de um relógio a outro, acabamos nos perdendo de quem gostamos muito. Reencontramos, lá adiante no mapa, mas há afastamentos que se tornam muito mais distantes do que a geografia determina. Não temos tempo e deixamos por isto mesmo, uma lástima. No entanto, é possível mudar este caminho.

Por exemplo?
Tanto já ouvi contar que, antigamente, as visitas eram um costume, um prazer cotidiano. E, mais interessante ainda: muitos chegavam na casa dos familiares e amigos sem avisar. Chegavam para visitar, e ponto. Já pensou que caos isto seria hoje, neste dia-a-dia frenético que enfrentamos?  Não estou defendendo o caos, mas constatando que nossos tempos têm um ritmo tão acelerado que parecem não contemplar hábitos 'passados' (embora louváveis). Faziam um bolo de chocolate, ou de frutas, enfeitavam, faziam o pacote e levavam aos donos da casa, como uma oferta em agradecimento pela tarde agradável que passariam juntos, com uma boa prosa.  Havia também quem fizesse um belo almoço ou café da tarde, sabendo que a mesa estaria repleta de vozes, risadas, afeto.  Perdemos o costume, ou nos perdemos do costume?

Felizmente, sei de muitos amigos que mantém a rotina de visitar, de receber amigos para uma boa comilança na mesa da copa.

Há alguns posts atrás, referi a importância do convívio harmonioso com familiares, amigos, colegas, chefes e funcionários, e com aqueles que fazem parte de nosso dia-a-dia. De acordo com  a Neurocientista Suzana Herculano-Houzel, em um de seus livros, "Fique de bem com seu cérebro", a confiança e a reciprocidade são a base de relacionamentos sociais plenos e saudáveis, com a participação de estruturas cerebrais destinadas a traduzi-los em bem-estar. Como assim? Por exemplo, através do circuito social do cérebro, o indivíduo tem a capacidade de se colocar no lugar dos outros, de sentir empatia, de se aproximar dos demais, de dar e de receber apoio, e tantas outras benesses. Há que se salientar o impacto positivo direto que as relações favoráveis exercem sobre o bem-viver, e este processo parece dever-se à regulação da resposta ao estresse crônico.

Além disto, as vivências prazerosas com pessoas queridas, no contexto da rotina, faz com que tenhamos uma dose constante de pequenos prazeres no meio de nosso corre-corre, atenuando o estresse e a solidão, que muitas vezes resulta de um cotidiano de trabalho intenso e de um sem-fim de afazeres diários. Acho que não nos damos conta, vamos vivendo, simplesmente, sem percebermos que é preciso partilhar, além de apenas trocarmos informações burocráticas sobre algum tema profissional. Em tempos de redes sociais, telefone celular, milhares de entretenimentos tecnológicos e de interações que percorrem longas distâncias (amigos 'ao alcance das mãos'), o isolamento poderia soar até estranho; entretanto, o escritor  italiano Stefano Benni referiu algo, em uma de suas entrevistas, de que gostei muito: "A solidão não é um problema logístico, é um problema de sentimento".

O mesmo escritor tem um conto admirável, "Mai più solo" [Nunca mais só], em que o personagem, solitário, compra um telefone celular, mas não tem quem ligue para ele. Então, finge, pelas ruas, várias conversas ao telefone, assim será visto como alguém muito bem relacionado. Ainda insatisfeito e só, compra para si outro telefone, para que com um número ligue para o outro, e assim receba ligações. Com uma conta telefônica gigantesca, endivida-se, perde os dois números e volta ao estado natural de sua solidão. Adorei este conto, que traz algo profundamente real de nosso tempo.

Alguém poderá estar só, mesmo ocupando uma sala de trabalho com outros colegas: é a atitude de aproximação e empatia que enriquece a convivência. A pausa para o cafezinho e as conversas, uma merenda que cada um leve para o intervalo, num dos dias da semana, a disponibilidade para a troca e o apoio, o afeto da partilha: todos estes são ingredientes da mudança que podemos promover em nossa vida, mesmo no espaço profissional. Encontros com amigos, com a família, com antigos colegas que não vemos mais, todos estes são momentos necessários para nossa saúde, em todos os sentidos.
Se nunca temos tempo, quem sabe os incluímos em nosso Hobby favorito, como em reuniões festivas, em que cada um cozinhe em sua rodada? Ou em nossa atividade física, combinando caminhadas no parque? E que tal retomarmos o costume das visitas, levando um quitute aos donos da casa, como era de costume?

Possibilidades existem. Muitas vezes, a mudança de paradigma nos assusta, criamos uma resistência inicial, baseada na falta de tempo, no mergulho em nossos próprios afazeres, turbulências, dificuldades. Se girarmos o caleidoscópio, mesmo de leve, veremos outra imagem, outras perspectivas. Giramos mais uma vez, e então nova imagem, e outra, outra e outra. Isto nos ajuda a perceber a riqueza que nosso cotidiano nos oferece, mas é preciso que parta de nós o ato de girar o caleidoscópio, para que as figuras sejam modificadas. Precisamos estar ali, vivos e presentes na mudança de ponto de vista. O convívio com os demais é um dos aspectos desta empreitada, com a meta da felicidade. Há tantos mais...

Hoje conversamos sobre familiares, amigos, colegas e daqueles que são parte de nossa rotina. E sobre  a relação amorosa: qual seu papel em nosso bem-viver?

A seguir cenas do próximo capítulo...

Obrigada pela visita! E um belo domingo!
Um abraço,
Betina

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina