sábado, 30 de março de 2013

O prazer na rotina?

E por que refiro os pequenos prazeres? Bom, sentir-me feliz com os acontecimentos rotineiros torna a felicidade mais acessível, mais viável. Tenho uma escolha: posso vivenciá-la apenas desfrutando de banquetes onerosos e extrapolantes, como faziam na Roma Antiga, ou posso degustar um belo café-da-manhã, antes do trabalho. Claro, o exemplo é extremo, mas a ideia desta comparação maluca é mostrar que, sentindo prazer nos detalhes cotidianos, o bem-estar psicofísico que a felicidade provoca fica muito mais fácil de alcançar.

E vamos além disto: sentir este prazer 'retilíneo' é fundamental, mas também é necessário criarmos situações de novidade, estímulos diversos, que 'despertem' o cérebro para o desconhecido, não acomodando nosso gozo nos prazeres de sempre. Estímulos diversos, mas sem exageros. Complicado, hein?

Não, é simples. A gente é que complica. Somos um pouco como os antigos romanos, querendo tudo em quantidade e intensidade, satisfação máxima, luxúria, comida em excesso, lazer no volume mais alto, para contrapor nossa rotina adoidada de trabalho. Temos pouco tempo para a diversão, então é preciso desfrutar ao extremo cada oportunidade: noitadas, viagens, orgias alimentares...A meu ver, entra aqui a importância de mudar o ponto de vista, de diminuir o volume, de escutar o prazer como um som ambiente, que pode fazer parte do nosso dia-a-dia. Não há por que esperar por um feriadão ou pelas férias para 'curtir a vida', e então voltar para a rotina atribulada e ficar esbaforido de stress até a próxima folga. Com isto, não quero dizer, em hipótese alguma, que férias e feriadões não sejam fundamentais: são, sim, imprescindíveis. 

Quero dizer que não são suficientes. Este é o ponto.

Esperar para sentir felicidade em umas férias de arromba? Um desperdício, pois há necessidade biológica de senti-la cotidianamente, e uma rotina prazerosa pode propiciar isto. Estabelecer uma atividade lúdica, que nos faça felizes, é um modo de estimular nosso cérebro a produzir substâncias ligadas ao prazer e ao bem-estar. Para mim, as vivências de cozinha são um exemplo disto, como fazer um bolo, fazer pão, montar uma mesa de lanche da tarde. Escrever também é um exemplo disto. 

Experiências prazerosas melhoram nossa imunidade, nossa disposição para o dia de trabalho, nosso bem-viver. Fazemos com prazer, fazemos bem-feito, desenvolvemos expertise, há o aumento de nossa percepção de auto-eficácia e sentimos ainda mais prazer. Repetimos, e a sensação de felicidade aumenta, irradia-se para outras tarefas da rotina, ficamos de bem conosco. Estamos abrindo um espaço em nosso dia para o que nos motiva, e a raiz da palavra motivação é 'movimento': fazemos bem, nos faz bem, e queremos fazer mais, mobilizamos esforços para incluir esta atividade como novo hábito. Essencial. No entanto, se este prazer torna-se exacerbado, funciona também como um vício, como uma droga, e deixa de ser saudável. Como em tudo, vale a dosagem, o equilíbrio. Se uma receita pede duas xícaras de açúcar, não colocamos quatro xícaras, apenas porque nos agrada o gosto doce. É imperativo respeitar medidas na culinária. E na vida, também. O prazer é maléfico em quantidades muito altas, assim como sua ausência também é prejudicial à saúde. 

Equilíbrio, equilíbrio.

E por falar em equilíbrio, aqui vai uma pitada do contrário: o romano Apicius, a quem se atribui o primeiro livro de receitas de cozinha da História, usou grande parte de sua imensa fortuna em estrepolias gastronômicas impensáveis. Fez milhares de banquetes, viagens, loucuras, em prol de comer do bom e do melhor, esbanjou uma fortuna em ingredientes caríssimos...Gastou tanto, mas tanto, que  lhe sobrou o que considerou pouco para que pudesse continuar vivendo com tal abundância. Contudo, o que restou de sua fortuna era ainda bastante, mas Apicius queria sempre mais, e mais, e mais... Queria não ter limites, mas teve medo de tê-los, dali em diante. Então, envenenou-se. Cometeu este ato por acreditar que empobreceria e não conseguiria manter-se, alimentar-se, saciar a gula que pautava sua existência. Pelo jeito, abdicou da vida, para não abdicar da gula.

O saborear é mais duradouro quando não é afoito, quando não precisa de grandes porções para a satisfação. E, como no dito popular, 'tudo o que é demais, enjoa'. Pode até não enjoar, mas, a partir de um determinado ponto, sacia a demanda fisiológica pelo prazer, e torna-se excesso. Como em Apicius...

Há outros dois quesitos importantes, em se tratando de felicidade: 

1) O papel das novidades na vivência do prazer;
2) As relações que fazem parte da nossa rotina: cônjuge, familiares, amigos, colegas, chefes, funcionários, prestadores de serviço, e assim por diante. Há diversas formas de tornarmos nosso dia melhor, estabelecendo um bom convívio com quem é parte de nossa jornada. 

E esta é uma outra parte da conversa...

Por enquanto, fico por aqui.

Obrigada pela visita!

Abraços,
Betina

Fonte: "Fique de bem com seu cérebro"-Suzana Herculano-Houzel. Ed. Sextante.


2 comentários:

  1. Mto legal, Betina!!!! Exatamente o q eu precisava refletir neste momento de minha vida. bjus

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    1. Querida Beth! Obrigada por teu retorno!! sempre ótimo receber tua visita!!!!!!!!! Beijos!

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina