segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O tempo da demora

"Farinha e Açúcar devem ser peneirados antes de serem medidos- e, 
após medida, a Farinha deve ser peneirada três vezes. O Açúcar não deve ser peneirado novamente, a menos que a receita o peça. Estes ingredientes devem ser manuseados em separado."

Irma Rombauer 
em "The Joy of Cooking-
A compilation of reliable recipes 
with a casual culinary chat", 1931


Talvez você pergunte a si mesmo, lendo a epígrafe acima: "E quem teria tempo para peneirar a farinha tanto assim, em pleno Século XXI????" Estou de acordo, em termos. 
Indo além de nossa prosa de ontem, arrisco a seguinte ideia. Não se trata apenas do benefício para um bolo excelente. Ou do ganho pessoal com a exatidão. Ou da tal auto-eficácia de um bolo bem feito. Pois há algo a mais, no meu sentir: a oportunidade de permitir-se uma tarefa vagarosa, detalhada, em tempos de maior força da filosofia 'Slow'. Podemos escolher um bolo de caixinha, mais prático, ou uma receita de média complexidade, o que é de todo compreensível para nossa correria diária. 

Contudo, permitir-se a experiência  de uma entrega à cozinha, como esta, me parece valioso. Pela execução da tarefa em suas minúcias, pela delícia do contato com os ingredientes, pela felicidade que a Culinária dá. É uma tarde inteira de recreio, na atmosfera de forno-e-fogão: uma claridade diferente na cuca, um respiro manso, na contra-corrente da rotina agitadíssima. Um tic-tac como aqueles de antigamente, em que tic era tic, e tac era tac, fugindo da tendência atual ao tictactictactictac, em que não há espaço entre os sons, para economizar tempo. 

Sugiro um tempo para o  vagar, vezenquando. Num final de semana, num feriado, num final de tarde após o trabalho. Em que a lentidão do peneirar  uma, duas, três vezes a farinha seja uma atividade calma, relaxante, de enlevo com o fazer do bolo. Garanto: é um descanso ativo, muito valioso!

E há outro ponto: ler um livro como este, com história, dá uma riqueza adicional: a transmissão de conhecimento vivo: a autora escreve como se estivesse à beira do fogão, ensinando o passo-a-passo (quase) em voz alta. Ler a edição de 1931 é saboroso por esta perspectiva, a vivência palpável de conhecer a prosa da Dona Irma no original. É claro que na Edição de Aniversário, de 2006, temos o benefício das adaptações contemporâneas à obra...Mas, confesso: encontrar a orientação de peneirar a farinha uma vez antes da pesagem e três vezes depois desta é uma relíquia e tanto. Trasporta para uma época  em que a demora era o tempo do relógio, sugere como podemos desacelerar as atividades e aproveitá-las muito mais, com maior prazer e contato com nossas sensações, com o cenário, com nosso presente.

Fiquei pensando...Incrível ampulheta de medir a demora, a peneira de cozinha!!!

Bom Proveito!

Abraços,
Betina Mariante Cardoso

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