quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O cheiro do Azul.....

Deu-se um evento curioso  nesta semana, e quis compartilhar aqui no "Serendipity in Cucina". Lembram da Evelise Viganico, a Artistra Plástica e Arte-Educadora de quem contei quando tivemos a Oficina de Origami na Escola de Hobby, no ano passado?

Pois a Evelise, conversando sobre desenho num bate-papo daqueles em que uma ideia leva à outra e à outra e à próxima, começou a falar sobre cores. E o rumo da prosa, dali em diante, foi bárbaro, pelas dicas e reflexões que ela propôs.

A mais fabulosa, a meu ver: 'qual o cheiro da cor verde? E do azul? Do amarelo, então?...E assim por diante.

Este entrelaçamento entre os sentidos é importantíssimo, quando pensamos no aprofundamento de nossas percepções. Como já referi algumas vezes por essas páginas, nossos cinco sentidos conectam nosso mundo externo ao interno, ligam-se às nossas emoções, despertam nossos sistemas mais secretos para a paixão, o sabor, a vida em cores, aromas, gostos, texturas, sons...Assim, desenvolvê-los com afinco aprimora nosso sentir, amplia as vivências, enriquece nosso campo simbólico. E tantas outras importâncias que há neste 'treinamento' que é a sensibilização para o sensorial.

E este é o ponto, aqui. Enquanto a Evelise falava sobre as cores no desenho, sobre as ditas 'cores análogas' e sobre as 'harmonizações' possíveis para a criação de um trabalho artístico, fiquei encantada em perceber o quanto a linguagem que usamos na Gastronomia se aplicava neste outro contexto. E o por quê? Estamos, mais uma vez, no universo das sensações. São prazeres diversos, captados por antenas diferentes em nós, mas, no frigir dos ovos, nosso Humano é tomado em cheio. Em que aspecto? A meu ver, no SENTIR. E de que modo? Através dos SENTIDOS.

Frente ao desafio de perceber o cheiro do azul, ou o gosto do vermelho, nossos registros nos informam, associam, traduzem, lembram-se de suas fontes. Em mim, ou em você, leitor. Do mesmo modo como podemos aprimorar nossa capacidade de distinguir gostos, aromas, texturas, sons, também podemos ampliar nossa sensibilidade ao desenho, suas cores, seus sombreados, seu estilo, seu material, conforme me explicou a Evelise. Temos a nosso favor a dita plasticidade cerebral, que nos permite o aprendizado, a aquisição de aptidões e seu aprimoramento. E isto se dá em relação a nossos sentidos, também. Bom, e se fizermos exercícios cruzados, ativaremos ainda mais nossos circuitos, estabelecendo conexões novas, atravessando oceanos dentro de nós.

 A propósito, já se perguntou qual o sabor do macio?

A aula que tive, por pura Serendipity, foi interessantíssima. E, curiosa que sou, fui ao livro "Neurogastronomy" (Neurogastronomia), do Gordon M. Shepherd. Lembra-se de quando escrevi sobre este autor?

Pois ele fala, na página 137 de seu livro, sobre uma pesquisa desenvolvida no campo da intersecção entre a visão e o olfato. Refere, em linhas gerais, que temos a expectativa de um cheiro em uma cor devido aos nossos condicionamentos, entre uma das explicações. Fala também sobre os tipos de olfato, as correlações possíveis entre as cores e os aromas, e assim por diante. No âmbito neurobiológico, há muito a investigar, mas  já adianto: o livro traz conhecimentos válidos sobre a vivência gastronômica.

Da mesma forma como estudar a Neurobiologia do Amor não ofusca seu brilho e sua poesia (pois o que sentimos, sentimos...), também acredito: conhecer as compreensões dos fenômenos  da paixão, do sabor, do prazer de um aroma do molho de vermelhíssimos tomates sobre a macarronada amarelo-ouro,  tudo isto aumenta nossa consciência sobre nós mesmos. Sabermos o que acontece em nós, e por que acontece, nos leva a aprimorar cada vez mais nossas aptidões, gostos, percepções. Conhecer estes meandros permite-nos este aprimoramento de nosso campo do sentir, do 'ver o mundo' e, sem dúvida, nos leva a ampliar círculo do que nos dá prazer. E a Artes Visuais são um excelente aliado nesta descoberta. Amplia-se também nosso campo semântico, colocando mais palavras à nossa disposição, acordando novas ideias e a forma de expressá-las.

Enfim...A meu ver, unir as atribuições dos sentidos é algo que nos amplia e nos torna mais felizes, mais vivos...

E ainda há um outro benefício neste treinamento: conhecer o 'como-se-faz' das receitas, pela observação sistemática de como se comporta cada etapa, de acordo com uma das orientações da Dona Irma Rombauer. Se aprendemos como deve ficar, visualmente, cada fase do bolo, teremos grandes chances de acertá-lo cada vez mais. E esta habilidade podemos treinar no dia-a-dia, neste precioso Laboratório de Vida que é a cozinha...

Bom proveito!

Abraços,
Betina


2 comentários:

  1. adorei. Aonde achar algo sobre Neuro-cores", o sobre esta interligação dos sentidos entre si? lembro de un experimento: degustar uma folha de menta cheirando meio limão... ou comer um morango cheirando chocolate quente... com certeza percebemos a soma dos sentidos como uma percepção só... ingredientes que vem por canais diferentes somam-se e degustamos limão com menta, ou morango ao chocolate... acho q a gastronomia bem poderia , assim como já acontece com outras ciencias, unir-se e experimentar estas vivencias sensoriais... nhãm... e mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm.....

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Querida Ange! Há tanto o que conversar sobre estas ideias! Estamos, aos pouquinhos, trabalhando nisto! Aguarde................! Beijos!!!

      Excluir

Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina