quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Entre paixões e sabores...(Parte I)


O que eu quis dizer quando mencionei a comparação entre
 'gostar' x 'saborear' e 'paixão' x 'amor'? Bom, fazia referência aos resultados do trabalho desenvolvido pela Psiquiatra e Neurocientista italiana Donatella Marazziti, que publicou, na Itália, em 2004, o Best Seller La Natura dell´Amore ( Rizzoli, 2004). Tive o prazer de traduzir o livro em 2006 para o Português, com um grande aprendizado sobre as pesquisas realizadas pela autora e seu Grupo de Pesquisa na Universidade de Pisa, Itália, desde 1995. 

Donatella realizou, ao lado do trabalho científico, uma belíssima busca sobre o tema do amor em seus diversos matizes-do histórico ao bioquímico-, e compilou o conjunto de descobertas científicas e fundamentação teórica em seu livro. Tudo numa linguagem clara e acessível, dirigida não só aos profissionais especializados, mas também ao público em geral. Esta é uma das grandes riquezas da obra, a meu ver: a possibilidade de levar a uma ampla gama de leitores os achados científicos e suas explicações (e aplicações) em nossa 'vida real', fora do Laboratório...Explicações interessantíssimas sobre as bases neurobiológicas da paixão, do amor e do caminho que o primeiro percorre até o segundo...Quando percorre...Quando não percorre...Quando chega ao segundo sem passar pelo primeiro...Quando não passa por nenhum dos dois...e assim por diante!

Tudo bem, mas o que tudo isto tem a ver com nosso olhar culinário? Muito! Considerando que paixão, amor, prazer, emoções, sabores, apetites, pensamentos e desejos são todos dimensões de nossa Humanidade, podemos falar deles de modo paralelo, sim...Começando pelo seguinte: cada um destes fatores nasce em 'nossos cérebros' (Reptiliano, Límbico e Neocórtex) * a partir das informações dadas pelos nossos cinco sentidos. Estes, então, captam o mundo externo e o traduzem quimicamente, através de nossas ferramentas anatômicas e fisiológicas, em emoções, sentimentos, prazer, dor, desejos, sabores, vontades...Como assim? 

Nossos cinco sentidos trazem as informações sobre o 'mundo de fora', através de uma estrutura chamada Tálamo, ao nosso Sistema Límbico, formado por diversas estruturas essenciais. Entre estas, encontra-se a amígdala cerebral, que será a responsável pela tempestade bioquímica da paixão. A beleza disto está no fato de que é esta Amígdala que define se 'gosta' ou se 'não gosta' dos registros que recebe, oriundos dos cinco sentidos. Algo que, bem simplificado, é explicado da seguinte forma: 'SIM, PODE ENTRAR!' ou 'NÃO, NÃO PODE ENTRAR!". Um desfecho dicotômico, capaz de nos levar das alturas do Paraíso às profundezas do Inferno no terreno das emoções, caso a resposta seja positiva. Quando a dita-cuja resolve dizer que 'gosta' daquele perfume do candidato, ou da textura de sua pele, ou da cor dos olhos, ou da voz, ou do beijo, está dada a largada! Por quê? Se ela 'gosta', ela busca a confirmação no Hipocampo, outra estrutura límbica, o qual detém nossa memória emocional de longa duração. O Hipocampo confirma que a 'memória' trazida pelos sentidos coincide com registros vivenciais marcantes, e dá o 'OK' para a Amígdala seguir com seu disparate...Esta, entusiasmada, faz uma orquestra, mandando informações para todos os lados. 

E é uma enxurrada de informações neuroquímicas, Neurotransmissores produzidos a mil para dar conta daquela demanda enlouquecida que é o apaixonamento. O nosso cérebro- e o nosso corpo- só querem saber do apaixonado, e nada mais, naquele período inicial, importa tanto quanto os momentos idílicos com nosso 'amor eterno'. Isto chama-se 'sequestro neuronal': todos os centros, estruturas, substâncias, funcionando para responder à intensidade do apaixonamento. Tudo isto sem que nossa parte pensante tome conhecimento da farra. Nossa parte pensante? O 'Neocortex', que é capaz de avaliar os detalhes, as repercussões, os prejuízos, as possibilidades de cada situação; dizer se algo nos faz bem ou não, dar os porquês, mandar parar a festa, que o barulho está demais e os vizinhos estão reclamando...! Diríamos que é semelhante a quando os pais chegam em casa e os filhos, adolescentes, estão dando uma festança sem que eles soubessem, ou sequer desconfiassem, de nada. Quando tomam conhecimento, já é tarde demais!!!

E não é assim na paixão? Não esperamos que nossa 'parte pensante' mande o ofício autorizando, vamos logo começando o baile. Quando percebemos a extensão da avalanche, pela entrada em cena do Neocórtex, temos que arrumar os estragos, acalmar as tempestades, avaliar o que vale e o que não vale a pena arriscar. Tudo pelas propriedades de estabelecer juízo crítico, de dar detalhes sobre as possibilidades e decisões a tomar, de tecer considerações, de refletir, de processar a emoção em Sentimento, todas estas são atribuições do Neocórtex... Uma trabalheira, um 'Salve-se quem puder'!!!! Predominam os Neurotransmissores Dopamina, Noradrenalina e Serotonina, responsáveis por comportamentos específicos no apaixonado, bem como pelas respostas físicas (taquicardia, suor, palpitação, diminuição do apetite e do sono, aumento da energia, etc...). Entretanto, esta experiência é  algo de tamanha beleza que não abrimos mão. 'Vale a pena o desgaste, pelo menos uma vez na vida', é algo que digo, que dizemos, em geral. E sim, é uma etapa necessária: considerando-se  o amor como um organismo, que tem suas idades, é preciso viver cada uma delas para que se completem os ciclos, no desenvolvimento contínuo  ao longo de nossa jornada. 

De acordo com a autora, Donatella Marazziti, é importantíssimo vivermos a paixão para chegarmos à etapa do vínculo, que é, em última instância, o 'saborear' lento e detalhado do amor duradouro. Claro, há quem viva cada uma das etapas a seu modo, com sua cronologia, sua intensidade, e por aí vai. Não se trata de ser certo de um jeito e errado de outro, mas sim de uma seqüência biológica que trilhamos naturalmente, com nossas características individuais, sim, mas principalmente seguindo aquelas de nossa espécie, neste primeiro estágio.

Mas esta loucura tem duração média, pelas pesquisas científicas, de um ano e oito meses a três anos...

E o que vem depois?

A etapa do vínculo (ou 'apego', pela Literatura Científica) é o evoluir do apaixonamento. Uma das principais características é a transformação do perfil bioquímico. Este passa da predominância dos Neurotransmissores citados para aquela do Neuropeptídeo Oxitocina, liberado durante as relações sexuais do casal. Pois a Oxitocina é a mesma substância liberada pela mãe na amamentação. De acordo com as referências científicas, esta é a responsável, na esfera bioquímica, pelo apego mãe-bebê. Trocando em miúdos: a substância, no casal, é a responsável pelo vínculo, pelo estabelecimento de uma relação em que ambos 'decidem' seguir juntos. 

Conhecendo dificuldades, impasses, defeitos um do outro, decidem unir suas vidas e formar uma união baseada na figura real de ambos, e já diminuindo as construções idealizadas do apaixonamento. Isto ocorre não apenas pela oxitocina e seus efeitos (atribui-se a ela também a predisposição à fidelidade, entre outros), mas também pela associação deste efeito bioquímico e da vontade de estarem juntos, de seguirem juntos. Esta vontade é 'traduzida' pelo Neocórtex, que já passou pelas turbulências da paixão, quando foi 'o último a saber', já nos deu todo o mapa detalhado dos riscos e benefícios... E então diz: 'Olha, acho que esse é um cara legal, que vai procurar te fazer feliz, quer uma construção conjunta, vocês se gostam, é prazeroso estar junto, fazem bem um ao outro. O sexo é fantástico, há respeito mútuo, etc, etc, etc...Enfim, já podemos começar a falar em Amor. Segue em frente!'

É a junção dos termos 'vontade de estar juntos' e 'liberação de oxitocina pela relação sexual' que, através de um caminho fisiológico, nos propicia uma série de benefícios para a saúde: bem-estar psico-físico, sensação de prazer duradouro (e sem os sobressaltos da paixão), proteção cardiovascular e imunológica, entre outros. 

Há tanto o que dizer sobre o trabalho da autora Donatella Marazziti, tantas nuances que seria impossível me alongar aqui. Assim, simplifiquei ao máximo. Entretanto, dei as primeiras pinceladas para chegar ao motivo desta prosa: pensar sobre a diferença entre 'gostar' e 'saborear', considerando esta comparação entre 'paixão' e 'amor'. Deixo bem claro: esta ideia é pura abstração minha, exercício de reflexão que me proponho a partilhar com os leitores, correndo o sério risco de estar tecendo uma comparação descabida. Paciência...

Enfim, qual a importância de falar, neste blog culinário, em emoções, vivências, sentimentos, dores e prazeres da vida? Para mim, a escolha por este rumo foi, desde o início, pelo desejo de conversar sobre temas que envolvem nossa Humanidade mais profunda, pela metáfora da cozinha. Entram assuntos como os 'Prazeres da Mesa', a 'comensalidade', as 'heranças afetivas pelos sabores e receitas', o saborear de um Doce de Vó, as memórias emocionais, sensoriais, as paixões e os amores, as viagens ( e as bagagens deliciosas que trazemos)...E  os horizontes de reflexões e experiências, propiciados pelo tudo que confessamos à beira do fogão: para nós mesmos, para as cassarolas, para alguém da família ou para um grande amigo. 

Em meu sentir, poucos momentos são tão verdadeiros como aqueles passados na cozinha, com nossos silêncios ou com quem amamos.  Por isto, paixão e amor estão ao lado de gostar e saborear, nesta semana. Trata-se de prosa culinária? Cabe lembrar, desde já: os mesmos sistemas orgânicos que processam paixões e amores, em nós, tornam possíveis o saborear, com prazer e demora, nossa receita de bolo de chocolate predileta...


Amanhã, prossigo com a parte II. Por enquanto, duas dicas: 
O post "A Química da paixão (por um crème brûlée...) conta mais sobre essa força do apaixonamento em nosso cérebro; outro escrito que traz a Neurobiologia nos circuitos de prazer é o
 Nossos três cérebros por um chocolate quente! Boas leituras!

Abraço, e obrigada pela visita!
Betina Mariante Cardoso




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