segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A Poesia do Bem-Querer

Boa noite! Começo o ano firmando propósitos,  revisando emoções,  tecendo caminhos, e, claro, produzindo novas receitas...Em cada um dos campos de vida, existe minha busca pelo afeto. Este, sempre ali, na mesa da copa, farta de comidinhas e de amigos degustando, presente no calor que fica quando há magia, quando há amor no que fazemos. Para mim, é essencial que haja a poesia, o encanto, a força que se instala quando escolhemos um percurso pelo qual seguir,  um idioma a aprender, um talento a cultivar. 

Um exemplo. Comecei a estudar Italiano em fevereiro de 2003, pelo gosto que tinha pela Itália, por sua cultura e sua língua. Não havia um motivo prático, objetivo, não faria nada com aquele saber. Era por gosto, 'punto e basta'. E então descobri a possibilidade do estágio, e um estímulo seguiu-se ao outro,dali por diante. Pois a felicidade que eu sentia -e ainda sinto - na vivência do italiano tem a ver com a cola do afeto. Anteontem, resolvi recomeçar a estudá-lo depois de tempos, decidi  retomar as aulas. E  me vi numa faceirice incrível de novo, como na primeira vez, comprando o caderno e as canetinhas coloridas, a gramática...

Reencontrar meu prazer com este idioma foi como saborear um quitute que me faz feliz, como abraçar um velho amigo. E é este afeto que me motiva ao caminho, preciso sentir este amor pelo que estou estudando, produzindo, ou quando estou trabalhando. Preciso sentir esta 'liga' com a massa do pão, com seu preparo, com cada detalhe da receita. E, o mais importante, me é vital  sentir esse afeto nas convivências. Não se trata apenas de algo que valorizo nas relações, considero de fato vital o cultivo do carinho, do sorriso que aproxima, do afago de um doce feito em casa e servido a quem visita. Por isto me tocou tanto o bolo que a Anilda levou à celebração de lançamento do livro: ali está a cola do aconchego, que atravessa as idades num abraço apertado. Não importa quanto tempo passou, se dez ou vinte anos: naquele instante, o afeto quebrou os relógios e o foi o bolo quem bateu as horas. 

No dia 31, fiz o 'Pão da Luminara', a receita que ganhei da amiga Valéria, em Pisa, e que está no meu livro, "Pequeno Alfarrábio de Acepipes e Doçuras" (exatamente como ela me passou). Neste trajeto que o 'como-se-faz' percorre, está a transmissão do afeto, do 'calor' da receita. Faço de um modo diferente, rasgando o salame e 'encrustrando" os pedacinhos na massa, mas a essência é a do "pão da Valéria" ou "Impignolata" ou o "Pão da Luminara". Quando pronto, partilhei o prazer com a família, na manhã do primeiro dia de 2013. Uma partilha de mim, das minhas expectativas e sonhos para o ano, do meu carinho pelo fazer culinário, do meu amor pelos que receberam o pão. Ou o bolo,  ou este ou aquele acepipe, em qualquer data. 

Sei que falar em afeto é chover no molhado, mais ainda se estamos falando em cozinha, território de pleno deleite e de bem-querer. Mas nunca é demais. Diz o escritor Mia Couto: "Cozinhar é um modo de amar os outros". Em frente às panelas, damos vida aos ingredientes, temperos, texturas. Vida que alguém recebe quando saboreia, quando se alimenta. Somos nós ali, no bolo que fazemos para cortar as fatias. Quando servimos, parte de nós vai para o comensal. Então, cozinhar e oferecer o que fizemos é  uma partilha de nós. Precisa do Amor na receita, para que haja a liga e o bolo aconteça no calor do forno.

O afeto faz com que tudo esteja pleno, vicejante: nossos projetos, quereres, cultivos, quitutes....

É assim que começo meu 2013! 

E você?

Feliz Ano Novo!!!

Abraço, e obrigada pela visita!






Betina Mariante Cardoso


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