segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Do prazer de comer aos prazeres da mesa!

Olá!!! Outubro foi um mês turbulento e corrido, o que provocou uma ausência minha aqui no blog, com apenas cinco textos publicados durante todo o período...Que barbaridade!
Hoje, 05 de novembro, estou retomando o ritmo, combinando comigo mesma escrever (quase) diariamente. Lembra de quando escrevi 'Amadora por Paixão'? Pois é, em que armadilha me coloquei: acabei deixando meu hobby 'de lado' em prol da rotina e das atribulações que, vez ou outra, acometem a gente por inteiro. Parece mentira, mas há tempos em que não sobra espaço para a criação, para a escrita, ou para o prazer puro e simples de curtir uma boa refeição. E todos estes aspectos são indispensáveis para as reflexões culinárias.
Até o dia em que o horizonte se acalma, as mãos sentem desejo de escrever de novo, o apetite (pelas palavras e pela mesa) ressurge. E eis que estou aqui.
Bom, começo contando da leitura que comecei neste feriado, há muito esperada: 'A Fisiologia do Gosto', de Jean Anthelme Brillat-Savarin. O livro que tenho em mãos é uma tradução comentada, do original fancês para o Inglês, feita pela escritora Mary Frances Kennedy Fisher (M.F.K.Fisher), com um exímio trabalho feito por ela. A tradutora também escreveu diversas obras no campo da escrita culinária, sendo um de seus mais conhecidos a compilação de seus trabalhos, sob o nome de "The Art of Eating" (A Arte de Comer). Eu fiquei exultante ao saber que ela tinha traduzido Brillat-Savarin para o Inglês, e encomendei o livro, há meses atrás.

Do autor:
Jean-Anthelme Brillat-Savarin (1755-1826) estudou Direito, Química e Medicina, antes de tornar-se prefeito de sua cidade de Belley, na França. Durante a Revolução Francesa, passou por um período de exílio; depois disto, assumiu o cargo de juiz em Paris, onde passou os últimos 25 anos de sua vida escrevendo 'A Fisiologia do Gosto'. Divide o livro no que chama de 'meditações', abordando uma série de temas relacionados aos prazeres da mesa e das vicissitudes humanas em torno do comer e do saborear. A obra foi publicada, pela primeira vez, em 1825 e continuamente impressa desde então. Ocupa um espaço único no campo da escrita culinária (o campo conhecido, hoje em dia, em âmbito internacional, como 'Food Writing'; aliás, a tradutora Mary Frances é a criadora deste gênero). Este 'espaço único' deve-se ao fato de o autor ter reunido, em seu trabalho, uma coleção histórica, filosófica e epícura de receitas, reflexões, anedotas e e passagens em tudo o que se refere à Gastronomia. Do surgimento dos restaurantes ao sabor e sensibilidade, passando por capítulos sobre a dieta e o peso, sobre a digestão, sobre a diferença entre o prazer de comer e os prazeres da mesa: todos são tópicos de profundo refletir do autor.

Como é de costume em livros curiosos, resolvi ler de modo desordenado, num indo-e-vindo que me permita divagar sobre algum tema, voltar ao anterior, degustar o início e o final do livro num dia e as porções centrais em outro, podendo mudar de ideia sobre a ordem durante o percurso. Por quê? Este zigue-zague me permite ampliar a reflexão, relacionar os temas com as vivências cotidianas, inverter e quebrar protocolos definidos pelo sumário-coisa que adoro experimentar quando conheço novas cidades sem prender-me aos mapas. Coisa que, nunca contei por aqui, adoro fazer com alguns livros, também!

Então, dei partida à minha leitura na página 188, Meditação 14: 'Dos Prazeres da Mesa'.
Um dos parágrafos de que mais gostei:

"(...)Nas primeiras etapas da refeição, no início da festa, todos comem com fome, falando pouco, prestando pouca atenção ao que ocorre ao redor; não importando sua posição ou status, o homem ignora tudo para devotar-se à grande tarefa em suas mãos. Entretanto, assim que estes desejos são satisfeitos, o intelecto faz-se perceber, a conversa tem início, uma nova ordem de comportamento se define. E  ele, que era não mais do que alguém que se alimenta, até então, torna-se uma companhia prazerosa-em maior ou em menor intensidade, de acordo com sua habilidade natural."

Brillat-Savarin está falando sobre as diferenças entre o Prazer de Comer, de ordem biológica, e os Prazeres da Mesa, de natureza exclusivamente humana. Em que reside o contraste? No fato de que os últimos relacionam-se ao prazer refletido e compartilhado com os amigos, família, colegas, amores. Nossa dimensão humana, que pensa, sente e socializa, expressa-se pela vivência prazerosa ligada à alimentação, e o comer nos satisfaz para além da fome: a plenitude de uma refeição compartilhada ocorre nos vários domínios do nosso existir.

Por isto, ressalto sempre a importância de prestar atenção no saborear, algo de que, em tempos de correrias, acabamos esquecendo....!

Amanhã conto mais...

Gracias pela visita!

Abraço,
Betina


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