terça-feira, 30 de outubro de 2012

Da falta e da colheita

Este outubro foi um tempo de reflexão. Em paralelo, novas descobertas. Meu aniversário foi dia 14, preparamos um brunch em casa e, no  processo de elaboração, brincadeiras e receitas surgiram. Escolhemos louças de diferentes formas, padrões e cores, uma para cada convidado, o que envolveu o despertar da curiosidade, do olhar novo, da prontidão para a estranheza na quebra do roteiro convencional. Os guardanapos foram de cor amarelo-ouro, unificando o conjunto, em contraste com algumas peças e em harmonia com outras. A busca pela alegria do ambiente, em detalhes vivos, traduzia a sensação feliz de preparar um festejo, em seus pormenores.

E vieram as listas de quitutes, de ingredientes, de demandas a cumprir, para que tudo desse certo. Pontos preparados com antecedência, para que a organização da festa fosse prazerosa, sem as correrias, sem o stress da montagem. Claro, não se foge muito desta armadilha: receitas deixadas para a última hora, um pão no forno à meia-noite da nova idade...E a lembrança desta ou daquela receita, programada nos planejamentos, e que faltou.

Ao mesmo tempo, neste mês, eu refletia -e muito-, sobre as esperanças pelo novo tempo, crescendo no forno com o cheiro de pão transbordando pela casa. Pensava muito sobre as receitas que cumpri no ano, sobre aquelas prometidas e as que não despertaram do livro de cozinha. Sobre as receitas que ficaram faltando, não na festa, mas no cardápio da idade anterior, e que deixam um sabor de incompletude nos anseios. Necessário sabor: graças a ele, 'seguimos o baile', procurando compreender por que não cumprimos todas as receitas listadas. Melhor ainda: eu, pelo menos, passei a refletir por que listei expectativas, por que agendei esperas, por que deixei, na idade passada, de fazer mais vezes o que tanto prego: me deixar perder pelas ruas desconhecidas, encontrando, nas laterais, surpresas e imprevistos. Sim, na idade passada, tratei de aprender a seguir mapas, criteriosamente. E me perdi de me perder na cidade estranha. 

Minto: encontrei mudanças, com certeza. Tomei novos rumos, adentrei caminhos, revisitei trajetos e me permiti arriscar vias tortuosas, tudo na idade passada. Entretanto, deixei receitas excelentes no livro-texto de  que deixo no balcão da cozinha, para fazer noutra oportunidade. Percebi, na passagem para o novo ano, a relevância de abrir a página, desbravá-la, comprar os ingredientes e preparar o quitute escolhido. Abrir a página na hora em que surge a ideia, sem postergar para outro dia a curiosidade de saber como se prepara um bolo em altas altitudes. Mesmo que eu não vá às montanhas, DEVO abrir o livro quando surge a dúvida. DEVO buscar as respostas, ou, quem sabe, os percursos até elas. 

Além disso, DEVO criar a ocasião para saborear ideias que podem ser trabalhosíssimas, como trabalhar a massa folhada, mas que nutrem, em mim, profundo acalento. É, não dá pra deixar o tempo passar, esperando o momento perfeito para a execução Penne al Ragù, que prometo há décadas tentar reproduzir, pelo risco de não atingir a experiência vivida com o original (do texto "A Anima do Penne al Ragù"). 

Na idade passada, completei etapas incríveis, e deixei outras, como todos nós. Precisei encarar o fato de ter deixado acepipes listados, com o desafio de exercitar o abandono do não-feito, do 'prá-depois'. E, se não presto atenção, vou deixando para o mês que vem (de novo) a receita do 'Saltimbocca alla Romana' ou da torta de ricota cujo 'como-se-faz' recebi de uma velha amiga.

Entrei o novo tempo refletindo bastante, processo necessário à transformação. Trabalhar a massa do pão e colocá-la no forno, na cruzada da meia-noite, foi um momento único de regozijo. Foi um jeito meu de traduzir esperanças em quem eu nasceria naquele preparo. 

Para mim, a revolução interna está na tomada de consciência, e não tanto no fazer em si. Perceber o que faltou preparar, dentre os elementos da lista da festa, significa entender que sim, houve falta, houve o que se esperou e não se cumpriu. Muitas vezes, cumpriu-se o que não era esperado ou nasceu outro modo de se preparar uma receita. Porque, percebo, está dentro de nós aceitar a falta como espaço para o crescimento, e, então, para a colheita do que decidimos nos tornar. 

Um abraço, e obrigada pela visita!

Betina Mariante Cardoso

domingo, 28 de outubro de 2012

Sabores de fim da tarde

Outubro terminando, o ano completando seu ciclo. Com que sabor desejamos começar o novo mês? Estou aqui colhendo receitas para as postagens de novembro...Uma época em que pipocam os eventos de Happy Hour, os feriados, os passeios de final de semana. E lembrei de contar que, dia desses, fiz o sanduíche de presunto de Parma e Alcachofra (texto: 'Um Paradoxo Irresistível'). Este é um quitute que, à tardinha, cai muito bem!

Usei pão de torta fria, aquele sem casca, bem macio, duas fatias. Em uma das faces de cada, passei creme de leite fresco, apenas uma camada fina. Espalhei o Presunto por cima de ambas, cobrindo-as. Sobre uma das fatias, espalhei pedaços dos corações de alcachofra, de modo que compusessem uma camada completa do sanduíche, e pressionei, levemente, a segunda fatia (coberta internamente com as fatias do presunto) sobre esta base. De novo, fiz uma leve pressão com as mãos sobre o sanduíche, e deixei-o repousar por alguns minutos para que ficasse úmido, até cortá-lo em losangos.

O sabor é leve e intenso, ao mesmo tempo, e combina com os finais de tarde da estação.

Bom proveito!

Betina Mariante Cardoso

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Retornando ao Blog!

Olá! Há quantos dias não escrevo...! O mês foi corrido, pleno de imprevistos e surpresas, e só hoje consegui retornar ao blog. Bom, apesar de ter atravessado situações complexas nestas (quase) três semanas sem escrever, tive momentos de celebração, comidinhas e reencontros muito felizes neste mês. Há tanto a atualizar...Amigos e família que revi, livros de escrita de cozinha que recebi de aniversário (cada um merecendo um post à parte), receitas testadas, ingredientes curiosos, a torta da Vó Léia -de discos de amendoim com ovos moles e ameixa- pela primeira vez feita pela mãe, a visita à casa da Prima Adriana para o chá de sábado, com tantas conversas em volta da mesa da copa.

E uma notícia que me entristeceu. Lembra-se do Relais dell´Ussero, o pequeno apartamento que descrevi nos textos sobre Pisa? Pois soube, dia desses, que a hospedagem fechara, abrindo apenas para aluguel.Confesso que senti um aperto de nostalgia, por saber fechado este lugar onde aprendi tanto e onde fui tão feliz, em minha quarentena e nas memórias que ficaram daquele tempo. Ainda tinha expectativa de, um dia, voltar lá como hóspede. Nos cafés da manhã no 'Caffè dell´Ussero' ,que tinha incluídos na diária, estava o personagem de minhas reflexões matutinas, o 'Budino di Riso' ou 'Risotinno dell´Ussero'. Este doce é, em linhas gerais, um bolinho de risoto doce, empanado. Uma 'saborice' fantástica!

Executei algumas receitinhas este mês. Uma delas foi a das folhas de endívia , como se fossem barquetes,recheadas com pasta de ricota e nozes. O crocante da folha se mantém, contrastando com a maciez rugosa do recheio. Várias barquetezinhas numa pequena tigela de porcelana dão um toque gracioso e refrescante ao almoço. Vale experimentar!

Há diversas lembranças, risadas, bate-papos, leituras, receitas de quitutes e divagações a atualizar...Que os novos dias tragam bons ventos de escrita!

Até breve!

Uma ótima sexta-feira!

Abraço,
Betina Mariante Cardoso









sábado, 6 de outubro de 2012

A Vó da Ambrosia de Sol


    Há alguns dias não venho em nossas páginas, que foi uma semana corrida...Neste enquanto, algo de muito significativo me tomou: recebi, de uma prima querida, a Carmem Lescano, receitas escritas pela Vó Alda, a Vó da Ambrosia de Sol. Interessante foi que, ao procurar a anotação daquele doce, ela descobriu outras quatro, com data e assinatura da Vó. Mais uma vez, fui agraciada pela Serendipity
      Foi justamente por ter buscado o registro da Ambrosia que a Carminha encontrou as outras, e isto teve muito encanto. Em nossa prosa, referiu lembrar-se das conversas de sua mãe, a Lelinha, com a Vó, em que, junto ao 'como-se-faz' da ambrosia ( " ...Eu fui pensando, tentando lembrar o que elas conversavam sobre a ambrosia. Lembro de ver a Alda falar que levava 1 kg de açúcar, 1 copo de suco de laranja. A quantidade de ovos estou em dúvida: me parece que eram 12."), rememoravam os namoros, os bailes, as amizades de seu tempo
Eram primas-irmãs, a Lelinha e a vó Alda, e suas conversas versavam sobre tantos temas, épocas, receitas e gentes que era encantador ficar ouvindo, como me contou a Carminha. Fico imaginando estas cenas, em volta da mesa da copa, com as delícias que costumavam fazer, com aquela melodia saborosa, em que uma memória puxa outra e outra ainda. Aquela melodia em que, no meio do assunto, surge a frase: 'mas como é que fazias mesmo aquele pudim de laranja?', e logo estão falando em cozinha, depois nos primos, nos filhos, nas festas...Esta era a magia dos encontros. Fico imaginando...

Há tanto o que contar...

Nesta postagem, meu agradecimento de coração à Carminha, que me presenteou com a vivência das receitas escritas com a letra da Vó, com seu nome assinado, suas preciosidades e seu jeito-muito particular-de encerrar cada anotação:

"Fim".

Aliás, foi uma riqueza sem fim esta oportunidade de sentir o papel, o registro, o toque dela ali. Uma riqueza ampliada pelo afeto com que a Carminha foi guardiã das receitas e, agora, me presenteou estas memórias.
Em breve, conto das receitas aqui. 

Um abraço,
Betina Mariante Cardoso.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Devaneando...

René Magritte


E que tal estender uma toalha sob esta árvore, receber a brisa, abrir a cesta de quitutes e sentar em volta?

Descobri meu cenário perfeito para saborear um piquenique...

Qual o seu?

Gracias pela visita!!!
Abraços, 
Betina Mariante Cardoso