quinta-feira, 13 de setembro de 2012

"Me passa a geléia de laranja?"



E esta era a mesa em que eu tinha o café da manhã, junto aos outros hóspedes, no B&B de Edimburgo. Na antiga sala de jantar da família dos proprietários, diversos idiomas se entrelaçavam nas conversas; na atmosfera, os aromas dos croissants, geléias, pãezinhos, bolos, ovos mexidos com bacon...No início, pareceu difícil estabelecer a comunicação, todos bem reservados. Já na primeira manhã, três senhoras elegantes, vestidas para passeio, perguntavam-me o que eu fazia ali. Pouco antes, um senhor, alheio em seu café, queria saber de onde eu vinha, num tom de quem nem ouve a resposta. Senti algum constrangimento...E a monotonia da falta de assunto, em geral disfarçada por perguntas previsíveis ou pelos comentários metereológicos. Por algum motivo, me distraí, olhando a cor do dia, para saber se daria piquenique. 

Em silêncio, eu olhava a janela, quando  alguém na mesa pediu que eu passasse a geléia de laranja, que eu recém tinha usado. Foi o suficiente para se iniciar uma animada prosa na mesa sobre as geléias locais. Aquela, feita pela proprietária, despertou no grupo: todos queriam ouví-la contando onde encontrava os melhores produtos para seus quitutes caseiros. De repente, a formalidade entre desconhecidos tomou nova cor, cada um falando sobre sabores de suas regiões, cruzando conversas e o entusiasmo por este ou aquele ingrediente. Gente que viajara a trabalho, outros para visitarem amigos, outros a passeio. De Londres, de Frankfurt, de Dublin, de Barcelona.  E eu, de Porto Alegre, que fui para um congresso internacional, apresentar trabalho. Parte minha estava tensa, nem queria saber de papo, no início. Entretanto, a mesa coletiva para o café da manhã não deixava saída. 

Quando os hóspedes começaram a se animar no tema dos quitutes, produtos locais, dicas de onde comprar boas laranjas, e de onde almoçar bem na cidade, senti que o prazer culinário  tomara conta da mesa.  Surgia aquele prazer de compartilhar o mero 'falar de cozinha', que tantas vezes aproxima estranhos e nos dá novos amigos, pelo gosto em comum. Fico pensando: há de fato uma familiaridade, um reconhecimento tão confortável quando o assunto é este, que as vozes aumentam, a linguagem se unifica, a atmosfera se transforma. 

Nos dias que se seguiram, acompanhei novas sessões de café, com outros assuntos, gentes novas. Guardei na memória a primeira manhã que tive ali, a partir de um simples 'me alcança a geléia de laranja, por favor?'. A mesa única, os porta-retratos de família, as relíquias na decoração: tudo permitia que a cena do café envolvesse os hóspedes num clima acolhedor, como se estivéssemos na casa de amigos. 

Fecho os olhos, sinto o cheirinho dos quitutes chegando da cozinha. Parece que ouço o som dos croissants na mordida. 'Croissants, ainda quentes', como a anfitriã registrou na minha nota de boas-vindas.

Abraço,
Betina Mariante Cardoso

2 comentários:

  1. este blog cheira a "prazer culinário (...) e o prazer de compartilhar" (CARDOSO, 2012)...

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    1. Ange!!!!!!!! Adivinhou, então??? Sim, tudo nesta linha, mas com outro nome...Em breve!
      Beijos, e gracias pela visita! Adoro quando vens prosear 'na mesa da copa'!

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina