quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Croissants, ainda quentes...

    Existem trechos da memória que nunca se apagam. Ficam ali, silenciosos. Muitas vezes, são despertados por uma lembrança casual, daquelas que  passam pela esquina ao acaso, acendem a chama e...Plim! 

    Lembrar dos quitutes da Dona Cota, nascendo do forno com aquele aroma de 'casa da gente' me remeteu à atmosfera da cozinha do B&B de Edimburgo, onde me hospedei em 2006.
Este B&B é aquela espécie de hospedagem domiciliar em que os donos da casa recebem visitantes para dormirem em seus cômodos, como se fossem amigos da família. E, manhã cedo, idiomas e ofícios encontram-se na mesa da sala de refeições, em conversas sobre o tempo ou a geléia da confeitaria vizinha.

     A minha chegada foi algo assustadora, e, até atingir o aroma de gostosuras recém saídas do forno, passei por alguns apuros...Reescrevo partes de uma caderneta minha, da época:

"Edimburgo, Escócia. Lynedoch Place. Letras em negro na placa sóbria. Uma lomba tênue.  Em fileira, dez casas, todas iguais. Pedras de um cinza escuro, chumbo. A cor da cidade, se vê. Lado a lado, jardins particulares, portões de ferro, números pouco à vista, acima das portas brancas. Elegância lúgubre. À volta, um tom de sol, céu fosco. Um ar escondido. "
(...)

"O motorista do táxi deixa-me ali, íngreme, com a bagagem.
-Deve ser esta a casa, ou a próxima. Tem o número?
Faço que sim, com a cabeça. De palavras, muda.
-É uma destas. Terá que procurar. Boa tarde.
Respiro.  Aperto os olhos, na tentativa de fixar o número. Confiro com o registro a lápis, na folha de bloco. Lynedoch Place, 16. Aqui."
(...)
"O portão já envelhecido, preso com um arame frouxo. Abro, trazendo meus pertences para o jardim. Arrisco uma escadinha, externa à casa, logo abaixo. Observo uma peça. Antiga, parece. Porta de madeira, única. Na maçaneta, o azinhavre. E  na fechadura.  Tento entrar, trancada a porta. A janela, graciosa, no ângulo. Cortinas claras, voal.  Luz pouca. Insinuadas,  sombras nuas. Mobília, quem sabe. Ou vestígios ainda quentes, de corpos."
(...)

"Sem pistas, subo à porta principal. Presa por durex, uma folha branca dobrada, com meu nome.
-Cara hóspede, não pude esperá-la, lamento. Por uma urgência, fui ao centro da cidade. As chaves estão sob o capacho. A verde serve à entrada (porta branca), chave geral. A cinza abre a segunda porta, de vidro. Abrindo-a, deverá descer ao andar inferior, onde há vários cômodos. Seu quarto será o último à direita. Retorno às 17hs, espero encontrá-la. Temos leite e frutas na geladeira, e os Croissants, ainda quentes, estão sobre o forno. Fique à vontade. Atenciosamente,  A Proprietária."

Do momento em que entrei na casa, pude sentir o cheirinho do quitute recém-feito, adoçando um pouco o tumulto da chegada. Fui até a cozinha, me aventurando a espiar pela porta entreaberta. Ali, o ar era quente, pleno daquele sabor.  Tudo desafiava minha curiosidade, meu anseio por capturar todos os elementos daquele 'novo'. A peça era clara, aconchegante, de azulejos cor-de-rosa, uma mesa escantilhada com toalha de croché cor creme...E a sensação de um lar. Fazia sentido, pois a família dos donos morava na casa de trás, separada apenas por um pátio. Aliás,  era a própria dona quem elaborava a maior parte dos quitutes e gostosuras do local.

Sentir a pulsação naquela cozinha me trouxe uma vivência diferente do próprio B&B: eu estava 'em casa', e isto fez toda a diferença no período em que estive na cidade. Há ainda mais a contar, sobre o café da manhã compartilhado.
Bom, esta é uma outra conversa...

Gracias pela visita!
Betina Mariante Cardoso





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