sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Sempre junto ao forno


Lembro-me de tantas cozinhas por onde estive. Na minha cidade, noutras cidades. Sempre associadas, na minha memória, a momentos tão significativos que chegam a ser, ainda hoje, tangíveis. Para mim, entrar em qualquer cozinha é chegar ao coração da casa; adoro saborear a comida na mesa de jantar, junto ao fogão, forno, geladeira, despensa...Sou parte do cenário, da cena, da trilha sonora dos talheres, pratos, instrumentos. Começo a listar, na memória, os territórios culinários que conheci, nos lares da família, de amigos, de romances, nas viagens que fiz sozinha, no sítio, na casa da praia dos avós, e por aí vai. Quantas conversas sérias, quantas risadas, reflexões. Sempre junto ao forno. Em muitos destes lugares, depois de uma certa idade, pude cozinhar, ou assistir aos outros preparando este ou aquele quitute. E havia, em cada movimento, um passe de mágica. Uma emoção única, que nasce, acho eu, do exercício da nossa Humanidade mais profunda: o ato de preparar o alimento. 

Há algo silencioso em nós que reconhece aquele instante, algo tão antigo que nem temos registro desta consciência. Mudam os tempos, os contextos, surgem as cozinhas pós-modernas com toda sorte de equipamentos nos micro-lares de hoje em dia, mas, pasme, ainda sentimos a tal da 'emoção única'. Aquela, à moda antiga. Um sentimento de pertencer  ao universo de experiências que a cozinha oferece. 

Em qualquer lugar, em qualquer época, estar nesta peça da casa, para mim, significa viver o Humano em sua forma mais viva: em cena, preparando o alimento. E mais: a meu ver, estar na cozinha representa valorizar a evolução que passamos, em velocidade galopante através dos tempos, para chegarmos até aqui. Estamos em uma época de recursos mágicos, de livros culinários de alta tecnologia, com fotografias para além da imaginação. Um período de grande diversidade de conceitos e posturas, modas gastronômicas, revoluções, descobertas e redescobertas nos hábitos alimentares. Livros para quem come sozinho, para casais, para famílias, para reuniões profissionais, para piqueniques, de todos os países, idiomas, sabores, estranhezas. Livros de 'Cozinha da Vó' prosperam nas livrarias, blogs e estantes de casa. A Avó, esta figura de grande cotação no mercado internacional: não importa em que tempo e lugar, ela é, (quase) sempre, a imagem máxima na cozinha, detentora do saber e do fazer culinário. De carona, vem a expressão 'Confort Food', a reedição de doces antigos, as decorações Vintage. De mãos dadas com aparelhos de última geração. 

Tudo fazendo parte de um sentimento coletivo: cozinhar. Um ato que nos põe em sintonia com nossas bisas, tataravós, com gentes do outro lado do mundo. Um ato que nos faz seres comuns munidos do desejo profundo de comunhão, de sentido. Ao cozinharmos, nos tornamos parte de algo, um algo a que outras pessoas também pertenceram. Então, mesmo estando sozinhos, cozinhamos para estabelecermos este elo com os demais, que cozinham ou que já cozinharam. Um elo com o Humano, que prepara o alimento, enquanto fazemos o mesmo. Pronto! Somos parte de um grupo. Talvez este tenha sido um dos motivos para que eu me mobilizasse, dia destes, a colocar a foto da Julia Child aqui no blog, com um texto em homenagem a ela. Ou talvez por isto eu escreva sobre Irma Rombauer, Doña Petrona, Blanca Cotta, Rosa Maria, Dona Mimi Moro...Ou me alegre ao ver os programas dos Chefs contemporâneos na TV, como Jamie Oliver. Em algum ponto, o encontro: o Humano em nós. Sempre junto ao forno.

Bom, seguindo a prosa de ontem...Do papel da saúde neste enredo. Ela está neste amor que colocamos no ato culinário, nesta vizinhança com quem já esteve ali, no preparo do alimento para oferecer carinho e prazer na comida. Sim, a saúde está nos ingredientes e no modo de preparo que escolhemos para proporcionar, ao nosso organismo, melhor funcionamento. Tudo isto é verdade verdadeiríssima! Acredito de fato que a saúde também esteja neste prazer, neste gosto pelo preparo. E está, sem dúvidas, no cuidado com o que estamos sentindo, pensando e ouvindo ao amassar o pão, ao mexer a massa do bolo, ao bater as claras em neve: tudo isto para termos uma experiência positiva ao fazermos um prato. Uma experiência viva, plena, com benefícios para nós, que elaboramos, e para quem degusta. E este prazer também é saúde!

Um Bom Fazer!

Um abraço,
Betina Mariante Cardoso






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