sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O crocante acolhedor

Lockers decorados para a Festa Anual
 Contando um pouco mais de meu percurso em Battle Creek, iniciado em agosto de 1992. Num destes armários da fotografia,  os lockers da Escola, habitava uma caixa com muitas (1000?) caixinhas de M&Ms, cujo propósito era a arrecadação de verbas para uma viagem. Explico: tal oportunidade era oferecida aos alunos interessados na excursão a NY, no ano seguinte. Venderíamos as guloseimas até somarmos a quantia representada pelo número total de unidades, o que completava uma boa parte do valor necessário. E era uma perdição aquela quantidade gigantesca de delícias, ali, à espera, contando apenas com meu controle das vontades. 'Não posso comer os confetes: são minha viagem', eu dizia, em silêncio. Mas não adiantava, esquecia a expectativa do passeio e surrupiava, de mim mesma, três ou quatro caixinhas num dia. Por quê?

O período era mágico e, ao mesmo tempo, assustador. Havia encantos, como a caixa de confetes doces no 'Locker', o pote de Pasta de Amendoim na despensa, os Donuts no café da manhã, os Muffins à tarde, os Cookies, as Cheese Cakes e todas as maravilhas em sabores e formas. E havia a saudade, a partir de um certo ponto. Neste contraste, entre o que era prazeroso e o que era difícil, todos os dias, havia o crocante acolhedor dos 'M&Ms', em uma caixa que era minha e não era. Sentia-me fazendo algo que só a mim pertencia, mantinha uma informação silenciosa: abrir a 'reserva' para a verba da viagem. Teria o mesmo sabor comprar aquelas doçuras em algum lugar, só para mastigar por instantes? Acho que não. O gosto era contemplar minhas caixinhas, decidir abrí-las, testar meu controle, afrontar o plano de viagem a longo prazo em nome do desejo, a curtíssimo prazo.

 Confessava aos M&M´s o que me dava medo, o que me fazia sentir sozinha em um país distante. Eu tinha, sim, momentos bons, e muitos, de satisfação, de surpresas, de aprendizado, de circunstâncias únicas. Mas os confetes coloridos não eram reservados a estes momentos bons. Certa vez estava triste, num anoitecer chuvoso;  lembro-me de ter sido aconchegada, ali, pela mordida crocante dos confetes, pelo estalido abafado no contato de um com outro, pelas cores alegres que pulavam das caixinhas, quando a porta abria. Havia um cheiro, um gosto.  Os confetes acompanhavam minhas ruminações, pensamentos pra lá e pra cá, se revolvendo, num movimento repetido do mastigar das gostosuras. O que mais pulsava era a companhia que me faziam os docinhos, cheios de vida, permitindo que a tristeza fosse confortada em seguida. E, no dia à frente, chegasse o sol. 

Nos dias difíceis, esta mágica só os confetes sabiam fazer!



Decoração da Escola
para a Comemoração Anual.

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