terça-feira, 14 de agosto de 2012

Na Terra dos 'Kellog´s'

Abro meu caderno de receitas, e vejo umas folhas dobradas, trechos de experimentos soltos, recortes de revistas e jornais com dicas culinárias. Nada de brilhante, coisas que nem passei a limpo, escritas em folha branca, ou pautada, ou anotações em guardanapo. Começo a olhar, por uma curiosidade, o que deixei espalhado, e percebo que há vida nos rabiscos. Sinto, palpável, a emoção das receitas que se tornaram parte de minha história, com a minha letra ou com a letra de quem 'esteve ali', naquele papel.

E foi assim que encontrei a receita da Cheese Cake que me acompanha por tempos, numa folha branca dobrada em quatro, dividindo espaço com a anotação de outra receita que leva Cream Cheese. Minha caligrafia de 98. Me perguntei por que ainda guardo este registro, se até passei para o caderno. Algo de mágico há. Quem sabe a impressão de que o escrito casual, e em desalinho, é um bilhete de viagem que me transporta à lembrança do dia em que tomei nota, fui ao Super, realizei o feito pela primeira vez. Um bilhete de ida e volta, sim, pois aterriso de volta em seguida, neste 2012, mas  trago do rápido percurso a sensação viva que tive quando conheci esta receita.  Pois bem, era parte de minha busca pela 'Cheese Cake Ideal', que provei em Battle Creek, cidade de origem da fábrica Kellog´s , em Michigan, há 20 anos atrás. Viajei para esta cidade para o Programa de Intercâmbio, em Agosto de  1992.

Há que se considerar: foi lá que vivenciei a torta pela primeira vez, com sua massa crocante de biscoitos e manteiga, abraçando a suavidade do recheio de queijo cremoso. A dona da casa em que estive era exímia no preparo, e sabia, como ninguém, encontrar o ponto de harmonia no contraste entre o crocante e o macio. O contraste entre o rústico, na casquinha, e a elegância  encorpada, no creme. Havia um detalhe naquela receita, que nunca consegui reproduzir, após meu retorno. Não saía igual quando fazia, não encontrava sabor e texturas semelhantes, quando pedia pela 'Cheese Cake' no café onde estivesse. Pensei que poderia ser culpa dos ingredientes usados na versão original da senhora, ou das proporções que ela aplicava, ou das condições climáticas, ou do fato de ser minha primeira vivência deste doce, ou da sua aptidão para aquela receita. Sabe-se lá. A bem da verdade, considero que todos estes fatores poderiam influenciar, mas o elemento de maior peso, acredito, foi sentir aquele impacto da Cheese Cake num período muito particular da minha vida.Tudo pulsava de um modo próprio, com um cheiro, um gosto, uma luz particular.

Quando experimentamos um sabor novo, a meu ver, estamos de todo na degustação, e o que somos está no nosso modo de sentir a receita, com sentidos, emoções, cenários. Este conjunto todo fica registrado em nós, sob o código de um nome. Por exemplo, 'Cheese Cake'. Não há como encontrar o mesmo prazer: poderá ser um prazer maior, menor, mas nunca o mesmo. Porque já somos outros quando a cena se tornou memória. Quando lembramos de um sabor, somos também nós ali, dentro dele. A parte de nós que viveu a doçura, os contrastes, a mordida mansa da torta. 

A minha 'Cheese Cake' ideal era parte de minhas memórias, do exercício de vida que Battle Creek representou para mim. E, talvez por representar aquela vivência única na terra dos Kellog´s, tenha sido um emblema do período, para mim. Até que eu percebesse que a 'Cheese Cake Ideal' não estaria apenas naquele lugar, mas naquele lugar, num tempo, numa dada condição atmosférica, num estado de espírito receptivo às novidades, como ocorre nas viagens, e assim por diante. Em última instância, era uma busca de quem eu fui, naquele período.

Percebi que 'A busca pela Cheese Cake Ideal' era uma busca por mim. E decidi colocar em prática uma receita que encontrei em alguma revista culinária, livre de expectativas e de lembranças. Arranquei a página, tomei nota dos ingredientes e dos passos, numa folha que guardava na bolsa, e tornei esta minha receita possível. 

Decidi não procurar a repetição daquele ideal, e sim a realização desta nova receita, partilhá-la com os amigos e com a família. Me senti livre, deixando o ideal onde ele habita: na fantasia, na memória. Longe do real. Me senti livre para colocar em prática a receita que eu escolhi, e que uso até hoje. Claro, com uma Serendipity ali, outra acolá...

E foi deste percurso que me lembrei ao abrir a folha de papel, dobrada dentro do caderno.

Em Battle Creek, Michigan, 1992


Betina Mariante Cardoso





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