sábado, 21 de julho de 2012

TRINTAEDOISOVOS?!


Há uma história divertida para contar, lembrando do fazer culinário na amizade. pela quinta série, eu e duas amigas, colegas de aula, decidimos aprender a fazer quindim. Para vender na aula!!! Descobrimos a receita, treinamos algumas vezes, fizemos alguns quindinzinhos desajeitados, outros elegantes. Todos deliciosos, mas pecavam na forma. Estávamos em 1987, e não havia tanta exigência como hoje em relação à estética dos doces, mas estavam minguados demais. Não tinha jeito. Presenteamos os pais e irmãos, dando um destino aos produtos
          A fábrica de quindins desaparecia, e com ela meu sonho de vender doces feitos por mim, algo que nascia naquela época (não me pergunte de onde tive essa idéia, não posso nem imaginar). Lembro que combinamos num recreio, no fim da aula tínhamos decidido, em alguns dias começamos, em poucas semanas fechamos as portas.
             Entretanto, algo de novo surgiu. Da receita de nossa façanha, parti para a ousada tentativa de atravessar a fronteira para o quindão: a vibração amarelo-ouro pela coragem de expandir horizontes no receituário de cozinha. Com o auxílio das experts de casa, leia-se mãe e vó, respirei fundo e imergi na tarefa de acertar o quindão, repetindo o passo-a-passo em festas, almoços e jantares. O ápice foi a Estrela de Natal daquele ano, 87, quando o preparo da receita dobrada causou espanto. 'Trinta e dois ovos?', perguntavam todos, entre perplexos e intimidados. Sim, e um quilo de açúcar. Um absurdo, mas com sabor de mágica.
Acredito de fato: é necessário tentar. Romper nossas barreiras e simplesmente fazer algo maior do que nós, naquele momento. Ter coragem, sim, mas no sentido de lançar-se à tarefa, com vistas ao próprio fazer. Para mim, o desapego dos resultados é o que mais ajuda. Aceitar que também pode dar errado, mesmo que eu me empenhe ao máximo, é meu ponto de partida. Eu me entrego, com afinco, vivo a experiência culinária como parte de mim. Se é produto de minha ação, é parte de mim. Aceito que variáveis físicas e químicas podem intervir, aceito que meu melhor pode não ser suficiente. Mesmo assim, eu faço. Quando o máximo que pode acontecer é dar errado, e esta possibilidade é compreendida, está tudo bem em seguir adiante. 
Fazer o quindão de 'trintaedoisovos' ficou para a história das doçuras da família, e a proeza nunca mais foi repetida. Embora tenha ficado gostoso, não há justificativa para repetir uma maluquice destas em termos de saúde. Uma vez e basta. Foi muito válido para meu aprendizado, para conhecer o comportamento dos ingredientes deste doce em várias circunstâncias. Principalmente, o maior valor foi íntimo, a percepção da possibilidade de realizar algo inusitado, como usar esta quantidade de ovos e de açúcar. A receita dera certo, mas não tinha por que o exagero. A vivência não precisaria ser repetida: virou metáfora dos absurdos e maluquices com que, vezes, a cozinha me desafia.
A época do Quindão nas festas durou bastante, com proporções mais parcimoniosas dos ingredientes, e aprendi muito a cada etapa. Descobri a coragem, a persistência, o treinamento, a observação minuciosa do 'como-se-faz'. Gostava do aspecto 'trabalhoso' do doce, cheio de detalhes a cumprir. Me conheci mais, nas descobertas e mudanças da receita, observando como eu reagia aos acontecimentos culinários.
Mais segura e encorajada, meses depois, chegou a época de aventurar-me nos chocolates. Bom, esta é uma longa conversa...


Lembra-se de sua história de coragem na cozinha?

Betina Mariante Cardoso

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