domingo, 15 de julho de 2012

Sem mapas na despensa



Sempre comento que um dos meus máximos prazeres é o de me perder em uma cidade estranha. Chego no hotel, pousada ou  B&B, me acomodo, pego o cartão com o endereço de hospedagem e deixo o mapa na mala, para me perder  à vontadeOnde quer que eu esteja, adoro sair caminhando. Então, observo cada detalhe, sinto o vento se esticando pela tarde, entro em uma avenida cujo nome desconheço, pego a primeira esquerda em uma rua estreita e sem pulsação e sigo em frente até umas duas ou três quadras. Entro à direita e descubro, no quarteirão seguinte, uma delicada loja de presentes
               O que me encanta é o inusitado, a surpresa, a magia de descobrir. Seja uma padaria de bairro, seja uma lojinha qualquer - com cortinas azuis e cheiro de alfazema-, vendendo utensílios de cozinha e diários com cadeado, agulhas de crochê e abajures antigos, caixinhas de música que tocam à corda, prismas nas janelas, bandeiras e flânulas espalhadas... No balcão, um bule  de ágata  para servir chá aos clientes, e biscoitinhos amanteigados numa peça de porcelana.
            O que me encanta, mesmo, é ter encontrado um local assim por acaso, sem estar procurando algo, mas simplesmente porque gosto de usufruir de tudo o que a cidade pode oferecer. E estas mágicas acontecem nos percursos mais insólitos, acredite. Logo adiante, seguindo na mesma calçada, passo por um café ou por uma lavanderia, com vizinhos conversando. Haverá então um trecho de casas com as janelas abertas por mais duas longas quadras, uma livraria moderníssima, com um jardim de inverno nos fundos, onde os proprietários promovem encontros de degustação de vinhos; mais casas, agora com janelas fechadas e cachorros latindo. Em seguida, dobro à esquerda, me entregando para novas impressões. Junto com o mapa, deixei o relógio na mala, e sigo sem pressa minha jornada.
               E chegamos à cozinha. Quando misturo ingredientes estranhos um ao outro, também corro riscos, atravesso uma praça no escuro para saber o quepara o lado de da rua, me perco dos traços previstos do mapa e me permito a descoberta ao acaso, “o incidente feliz” da palavra em Inglês “Serendipity”. Gosto de inventar umtrajeto’, uma combinação ousada de sabores, atingir aquela cor tão estranha de um patê que lembre, num relance, as construções terrosas de um lugarejo antigo. Foi assim que descobri a mistura curiosa de um patê de funghi, queijo Grana Padano, melado e mostarda, que criei há alguns anos: a estranheza começa pela cor  ocre, de aroma insinuante.. Ao serem reunidos os ingredientes, porque estavam à toa na despensa, deu-se o sabor! E ficou para a história das minhas maluquices na cozinha. Siga adiante, que conto sobre a receita.
              Quando me 'perco', irrompo em lugares que mapas e guias locais não destacam, vias anunciadas por construções com arcos, acessos tão curtos que comportam três ou quatro casas com pátios no fundo. Não consigo sequer imaginar que seja possível realmente imergir na anima de uma cidade sem me perder nela, sem me deixar capturar pelos detalhes numa caminhada, como as texturas das construções, as tonalidades amarelas e rosadas e castanhas de um bairro, o cheiro florido de um quarteirão inteiro, o silêncio das janelas na hora da sesta, o gosto de vento nômade que têm os percursos sem mapa. Uso meus cinco sentidos, e minhas emoções, para usufruir das experiências que vivo ao me perder nas cidades, ao me arriscar ao simples –e pleno- vagar


           Estou falando em entrega. Para um lugar, para as sensações, para o vivo sentir. Numa cidade estranha, sim, mas também em minha cozinha tão íntima, tão conhecida. 
            Há alguns fevereiros atrás, para um ‘comes-e-bebes’  descontraído aqui em casa, quis fazer um patê para a entrada. Sem idéias, puxei o pote de funghi secchi, uma mostarda de boa marca e o melado que se escondia, silencioso, mais ao fundo. E o queijo Grana, sobre o balcão. Estavam todos ali, esperando por uma aventura na tediosa rotina da despensa. Hidratei o funghi, enquanto misturava a mostarda e o melado, mais do primeiro que do segundo, e misturei tudo muito bem, que ficasse homogêneo e de consistência pastosa. Pronto o funghi, piquei em pedacinhos de 0,5cm, aproximadamente, que envolvi na mistura. Ralei o queijo, em ralos grossos. Por fim, coloquei ali um pote de 250g de cream cheese, trabalhei bem os ingredientes, e acrescentei duas colheres de sopa de creme de leite fresco, que sempre ajuda muito na maciez e no aspecto sedoso dos patês. Temperei com pouco sal, apenas.

                  O gosto desta receita me faz sentir em um espaço selvagem, cuja sensação é plena de intensidade e de descobertas, de aromas imprevistos. Um profundo deleite no resultado final.



                Esta receita só foi possível porque, além de arriscar na primeira oportunidade, de me ‘perder’ em trajetos estranhos, persisti na idéia de descobrir uma exploração de sabor, aroma, textura, temperatura e melodia que me trouxesse um prazer de descoberta, do novo. Para isto, precisei testar muitas vezes, mudar quantidades, fazer o patê nas quatro estações, sentir o gosto do bosque nos solstícios e nos equinócios; enfim, precisei arriscar, mesmo que fosse a décima tentativa, repetindo o que funcionava e mudando o que destoava.
              Deixando os cinco sentidos aguçados, tenho o melhor mapa para registrar os caminhos de prazer que esta receita percorre, a cada vez. Se estamos atentos a tudo o que sentimos quando temos uma experiência única, intensa, somos capazes de recordar qualquer mínimo detalhe que se modifique nas repetições. Somos capazes de resgatar um sabor, um lugar, pelas lembranças do nosso corpo.


Betina Mariante Cardoso

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