terça-feira, 3 de julho de 2012

Onde está sua força motriz?

Pensando nos vidros de café plenos de geléias, chimias e compotas, hoje me perguntei de onde vinha a força motriz da Vó Léia para esta entrega. Tudo o que ela fazia na culinária era tão especial que, nos dias que se seguiram à perda, uma grande amiga de infância me disse, com profundo lamento: "Bah, nunca mais vou comer o Bife à Milanesa da Vó Léia!!!"
Porque era sua força motriz, acredito eu, levar prazer e felicidade através dos seus feitos culinários. Essas emoções ficavam carimbadas nos sabores: para a vó, proporcionar o prazer à mesa era questão de sobrevivência.
Assim, foi uma grande  lisonja a exclamação da Melissa. 

Agora, no centro desta lembrança habita uma reflexão. Também tenho esta força motriz para algumas coisas; sigo, obstinada, trajetos improváveis até um objetivo, porque tenho uma 'voglia' intensa para a realização de determinadas metas: traço uma linha imaginária entre minha pele e o resultado, e percorro toda a linha pontilhada até a chegada, seja curto ou longo o percurso. Para outras, no entanto, me falta essa vontade forte, que move montanhas. 

Cada um de nós tem essa força de querer dentro de si, com direito a explicações bioquímicas sobre os mecanismos de prazer, de decisão, de recompensa, e por aí vai. E é possível lembrar de tanta gente que se entrega para a tarefa, que gosta visceralmente de seus propósitos, que estabelece itinerários convictos até a aquisição do sucesso naquilo a que se propõe. Em contraste, mantém uma certa anestesia para outros caminhos, indo de um extremo a outro. Não há mágica: há coisas que nos despertam alguma forma de prazer e gratificação, e estas buscamos. Muito disto tem a ver com o que sabemos fazer bem e sabemos que fazemos bem feito. Daí, só de pensar na sensação gostosa de repetir o que somos capazes, já sentimos novamente o prazer, e isto nos dá motivação para repetir. E, repetindo, cada vez fazemos melhor, pela capacidade plástica do cérebro. E assim por diante: prazer, recompensa, motivação, prazer, recompensa, motivação...e cada vez melhor fazemos. Então, nossa força motriz é o que nos dá prazer?

O que sentimos quando estamos frente ao nosso propósito é algo que só nós, em nosso íntimo, conhecemos. Hoje não estou me referindo a um hobby, que também é importantíssimo para o bem-viver, mas àqueles objetivos a que nos dedicamos com uma força tal que só conhecemos quando estamos frente a eles. Para mim, é quando nos conhecemos realmente, quando percebemos, em essência, o que nos impulsiona, ao que nos entregamos, onde botamos nosso 'eu' sem reservas.

Em nosso principal objetivo, ali estamos nós. No caso da Vó Léia, esta força era dirigida ao fazer culinário, prazeroso para ela e para quem saboreava seus feitos. Era uma forma de partilhar o que lhe dava tanto gosto, era como se ela fosse parte do prazer que colocava nos vidros de doce. Entregava uma parte de si através do seu feito. E assim é a força motriz, a meu ver: vamos junto com o resultado, nos partilhamos através da realização do propósito. Somos nós, ali, no que fazemos melhor e no que mais gostamos de fazer.

Ainda quero contar da Vó Alda, minha avó paterna, também com seus vidros de café com a tampa vermelha. Estes, então, preenchidos com uma ambrosia singular, e com um doce de leite para além da palavra. Doces solares, feito ela. Eram sua marca na cozinha, estava o seu sabor ali, nas festas de família, nas reuniões com amigos e conterrâneos do Quaraí.

Mas esta é uma outra conversa na mesa da copa.

Betina Mariante Cardoso

2 comentários:

  1. Foi leve e gostoso ler este texto junto à primeira refeição do dia! Uma proposta de reflexão muito saudável embutida na curiosidade sobre o conteúdo dos vidrinhos de café das avós... Vai contando, que a gente tem muito pra aproveitar!

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    1. Bom dia, Lena!!!! Gracias pela visita!!!! Assim como esta, há tantas histórias de aqui e acolá...! O bom de tudo isto é poder compartilhar!!!

      Obrigada por tua leitura, sempre motivante!

      Beijos e Buona Giornata!

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina