domingo, 22 de julho de 2012

O Tempo dos Chocolates: a 'Cacau Company'

Uma de minhas lembranças favoritas

       Páscoa de 1988. Decidi aprender a fazer chocolates, queria presentear meu irmão com doçuras que eu mesma produzisse. A Vó Léia, que adorava participar dessas aventuras, descobriu um curso no Centro Comercial João Pessoa; na época, aconteciam ali diversas atividades práticas de ensino. Era uma tarde chuvosa de março, mas, com um objetivo destes, tudo era diversão. Fomos!
       Tenho até hoje a apostila da oficina, com as dicas, receitas, avisos...Lembro de algumas cenas, dessa ou daquela explicação, do sabor do chocolate que recebemos nas provinhas. Aprendemos também o marzipan, o fondant, os recheios: tudo era um universo novo, pleno de nomes e de aromas pulsantes. Eu me lembro de ter gostado muito do 'como-se-faz', com todas as minucias de Banho-Maria, papel alumínio para cobrir a forma, este e aquele instrumento para a manufatura dos bombons...Nunca imaginaria, entretanto, que o ofício me acompanharia por tanto tempo em minha vida, e nem sequer cogitaria a dimensão que atingiu.
          Fiz os primeiros inventos, já coloridinhos e com crocante de flocos de arroz, ou 'Crispis', como sempre chamávamos. A Vó supervisionava cada etapa, cuidando que eu seguisse os aprendizados do curso. Fiz o presente de Páscoa do Diego, e adorei a façanha! Em seguida, nova oportunidade: criei uma festa em casa, com as colegas de colégio; em seguida, estava levando chocolate para vender na aula, seguindo o sonho do 'fazer doce pra fora' (risos)...Comecei a receber encomendas, e adentrava, cada vez mais, no mundo do chocolate, pesquisando, tendo idéias, descobrindo novas formas.
           Bombons eu não fazia, simplesmente não simpatizei. Meu encanto era descobrir crocantes novos, texturas para inserir no chocolate derretido, cores para pintar os detalhes, formatos de todo tipo. De novo, a vida dos cinco sentidos. Havia uma melodia no preparo, cada vez que eu batia a forminha na superfície, para extrair as bolhas de ar, antes de levar ao congelador. Era um ato instantâneo, automático, já, e fazia parte do entusiasmo do processo. Outro momento sonoro era aquele de tirar as peças prontas da forma, batendo-a de leve. Ouvia-se o barulhinho do material e o impacto do chocolate no balcão de mármore da cozinha, onde eu soltava as novidades. Sempre uma surpresa vibrante!
            A cor e a forma contemplavam a visão; o cheirinho do preto, branco ou meio-amargo, e das misturas possíveis, servia ao prazer do olfato;  o gosto era dado pelo conjunto da alquimia, em geral inusitado; e a crocância, pensando bem, atingia os propósitos do tato e da audição: sentíamos a textura na mordida, e o 'cleck' era imediato, compondo o som do chocolate.  Mesmo quando a pecinha era pura, maciça, e a melodia abafada, todos os cinco sentidos eram chamados ao trabalho.
            A satisfação estava em vivenciar o doce como uma experiência plena. Claro que, na época, tudo isto era muito instintivo para mim: eu podia seguir essas impressões, mas não explicá-las com tantos pormenores. Mesmo assim, desejava produzir um momento de encanto em quem recebesse. Ou melhor: queria compartilhar meu encanto, presente no fazer dos chocolatinhos,  pela riqueza de estímulos que despertavam.
           E fui fazendo do projeto 'chocolates-para-páscoa' um caminho bem mais longo. Com as encomendas, dei um nome, fizemos cartão, e as idéias floresciam, o assunto se espalhava, e novos planos. Geralmente, me dedicava nos finais de semana. A mãe ajudava com as idéias e na supervisão rotineira, a vó gostava de enrolar cada um com papel-filme, assumia outras tarefas, e fazíamos uma bela equipe. Cada uma de nós teve papéis fundamentais na evolução do 'negócio', mas o interessante era o prazer criativo que o ofício dos chocolates proporcionava, sempre com novas perspectivas.
           De todos as minhas mirabolâncias já relatadas, sinto este 'empreendimento' o mais profundo em minha identidade, pelo tanto que me marcou. Pelo tanto que me dediquei? sim, mas vai além. Em primeiro lugar, estava a  paixão que eu tinha pelo fazer e por todas as suas delicadezas.
          Bom, há muitos episódios a contar, conversas longas na mesa da copa. Este é um capítulo importantíssimo da minha vida culinária, e compartilhar estas lembranças é uma grande alegria.
          A história segue, nos próximos posts, com criações e detalhes dos períodos diversos de minha  fase 'chocolateira'. Até hoje, rever minhas formas é um instante idílico para mim, fico com uma vontade enorme de 'fazer arte'.

       Acompanhe!

   Betina Mariante Cardoso
       
     
O início
Primeiras 'pinceladas'
Aprendendo...

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