terça-feira, 10 de julho de 2012

A Gramática das Caçarolas

Lendo o trabalho primoroso do neurocientista Gordon M. Shepherd, seu livro sobre Neurogastronomia, muitos temas me chamaram a atenção. No entanto, há um específico que despertou uma curiosidade daquelas...Trata-se daquele que fala do papel da linguagem ligada ao olfato e ao sabor. Para não contar a última cena do filme e estragar a surpresa, vou somente apontar alguns trechos.

O primeiro dado interessante é como ele começa o capítulo, apresentando o trecho sobre uma sobremesa preparada pelo ator francês Gerard Depardieu. E o autor do livro, após contar o feito do ator, menciona que a sobremesa não teria acontecido sem a existência da linguagem: defende que é essencial a presença das palavras, para descrever e discutir cada combinação de sabor nesta ou naquela etapa, palavras para expressar o gosto ou o desgosto com o preparo, palavras para expressar a alegria com o resultado.

Segue dizendo que, no sistema cerebral que trabalha pela composição do sabor, a linguagem tem papel fundamental. Um exemplo disto é o fato de sermos pobres na descrição de nosso universo de aromas, pois não há palavras que os caracterizem de forma específica, como temos para classificar cores, formas simples, etc. Assim, nos valemos de analogias, de metáforas, ou de referências ao objeto que produz tal aroma. Isto se deve à forma como nosso cérebro interpreta e traduz o sentido do olfato, algo que o autor, no livro, é exímio em explicar.

Outro ponto. Gostei muito quando o autor menciona a perspectiva evolucionista do cozinhar e aquisição da linguagem; nos dias atuais, esta ligação se dá pelo excepcional vocabulário que nós, de fato, desenvolvemos para os sabores. E eu fiquei pensando que este é o ponto aqui: se não houvesse a evolução da linguagem no campo da gastronomia, não teríamos tido a transmissão do 'como-se-faz' das comidas através da História, pelos livros de receitas...Esta é uma conversa longa e muito prazerosa, que merece um post específico.

A Lasanha aqui de casa!

Agora, uma das explanações que mais me agradou se refere às dimensões da linguagem, por exemplo, para discriminar os odores- aproximadamente 10000, refere o autor. Entretanto, o sentido do olfato não envolve somente a percepção de um cheiro, mas também envolve as memórias que são evocadas, e as emoções ligadas a ele: estes aspectos amplificam, ainda mais, o vocabulário. Então, se penso na clássica lasanha feita pela mãe, desde a nossa infância, uma cascata de memórias vem à mente. As lembranças de como saboreávamos o prato, nos tempos idos- e até hoje, com o mesmo prazer- trazem consigo emoções ligadas à cena do preparo, da espera, da lasanha na mesa, em sua leal travessa. E tudo isto precisa da linguagem para identificar as memórias, descrever a emoção, e comunicar a vivência aos outros. É por isto que ampliamos o vocabulário: os registros das vivências, das receitas e da exploração dos sentidos são partes de nós, de nossa história.

Enfim, conectar aromas e sabores com a linguagem pode ser complexo, mas é um empenho humano único. Não há dúvidas de que nos exige esforço, usando as ferramentas à nossa disposição (analogias, metáforas, metonímias, figuras de linguagem, etc.), qualificadas por todo o vocabulário das emoções e de nossas recordações. No entanto, nos permite uma partilha quase tão rica quanto o prazeroso degustar de um prato. Nos permite ter uma lembrança que nomeamos, ligada a um cheiro que conhecemos, a uma emoção que nos toma, ao 'comando' cerebral que diz: 'Estou com vontade de comer lasanha!'

A linguagem nos permite estar aqui, nesta prosa de cozinha. Ela faz parte das caçarolas!

Betina Mariante Cardoso







2 comentários:

  1. Oi, Betina, gostei bastante desta postagem. A linguagem aplicada à gastronomia é algo muito interessante. Eu gosto muito dos trabalhos do Steven Pinker ligados à Neurolinguística, em especial sobre como se forma o pensamento, mas a possibilidade de aplicar os conceitos na gastronomia é fantástica. Faz a gente pensar em como a linguagem é importante e está espalhada por toda a nossa vida. Muito legal!

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    1. Oi, Gustavo! Obrigada pelo comentário e pela apreciação! Adorei a dica do Steven Pinker, para leitura!

      Quando li este capítulo, fiquei encantada com a riqueza de informações e de idéias que o autor traz, do papel da linguagem neste campo!

      Um abraço,
      Betina

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Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina