terça-feira, 17 de julho de 2012

Lendo "A Arte de Comer": um presente a cada dia!

          Hoje vou contar de alguém que, pelas páginas, se tornou uma figura de grande importância nos meus dias, este ano.

          Estou lendo, com demora e sabor, há alguns meses, o livro "A Arte de Comer" da autora americana Mary Frances Kennedy Fisher (M.F.K. Fisher). Mary Frances escrevia de cozinha, ou melhor, escrevia da vida pela metáfora da cozinha, algo que estou treinando, com encanto pelo ofício. Seus textos são suaves, mesmo quando tratam de temas densos, pois a escrita delicada da autora desperta no leitor a entrega para seus cenários, seus personagens, suas vivências pessoais. Sempre tinha em primeiro plano, à frente da emoção, os ingredientes, as técnicas, os gostos, os aromas, as texturas, o aspecto visual e a musicalidade dos quitutes, ou das doçuras, ou das frutas...Entretanto, eram peças que vestiam suas impressões, sentimentos, reflexões.

          Este livro é o conjunto de cinco obras da autora, e tenho em mãos a edição comemorativa de 50 anos. Uma destas obras, "Como cozinhar um lobo" (é isto mesmo, um LOBO!!!) , tem escritos belíssimos sobre o cozinhar em tempos de guerra; há outras quatro, em estilos diversos.
         "O Eu gastronômico", por exemplo, é pungente, mas penetra com leveza em nossa subjetividade. Pois ela escreve, na sua introdução:

          "As pessoas me perguntam: Por que você escreve sobre comida, sobre o comer e o beber? Por que você não escreve sobre a luta pelo poder e pela segurança, e sobre o amor, como outros fazem? 
            Perguntam-me isto de forma acusatória, como se eu fosse de alguma forma rude, não merecedora da honra de meu trabalho.


            A resposta mais fácil é dizer que, como tantos outros humanos, eu tenho fome. Mas há mais do que isto. Parece-me que nossas três necessidades básicas, por comida e por segurança e por amor, estão tão misturadas, unificadas, interligadas, que não podemos objetivamente pensar em uma sem as outras. Então acontece que, quando escrevo sobre fome, estou em realidade escrevendo sobre o amor e sobre a fome por este, e sobre acolhimento e o amor por isto e a fome por isto...E então sobre o acolhimento e a riqueza e a preciosa realidade da fome satisfeita...E tudo é uma coisa só. 
              (...)
             Há uma comunhão de mais do que nossos corpos quando o pão é partido, e o vinho bebido. E esta é minha resposta, quando as pessoas me perguntam: "Por que você escreve sobre comida, e não sobre guerras ou amor?"

[Adaptação do trecho escrito por M.F.K.Fisher,
  • "The Gastronomical Me"-Foreword. The Art of Eating, M.F.K. Fisher, 50th Anniversary Ed., 2004. pg. 353.]

              Existe muito a conhecer destes escritos e, por mais que a leitura seja longa e saboreada, sempre há fome pela simbologia que a autora nos presenteia, como leitores, por seu talento. Estou vivendo, pouco a pouco, texto a texto, o aprendizado que a Sra. Mary Frances tem a ofertar, a cada página. Escritora de referência aos que gostam das letras culinárias, encomendei seu livro como material regular e necessário de estudo no tema, mas nunca imaginei a relíquia que estava por conhecer.

             Na Página da autora, na coluna lateral, mês a mês, deixarei registrados trechos e pontos que valem a leitura do livro. Pelo simples deleite, pela partilha, ou para conhecer esta escrita de cozinha. Mary Frances é exímia e ponto de referência a quem gosta de cozinhar, de estar na cozinha, de alimentar-se, de alimentar os seus, de amar, de ler, de escrever, de escrever de cozinha....

Betina Mariante Cardoso


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